Um perigoso poder chamado desejo – sobre Blanche DuBois

Antes de falar sobre Blanche DuBois, vamos à definição de desejo segundo o Google: “1. aspiração, vontade, querer. 2. expectativa de possuir ou alcançar algo. 3. anelo, pretensão, propósito. 4. ambição, cobiça, sede. 5. instinto que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física. 6. o desejo de satisfazer certos apetites durante a gravidez; pica”. Para quem não sabe – e já está com a mente poluída – pica/picacismo é o transtorno que faz uma pessoa querer comer algo não nutritivo: tijolo, cabelo, etc. Pensei em suprimir o nome do transtorno que consta na definição, mas o termo “mente poluída” que usei pode denunciar a projeção da sombra patológica de muitos, e o que era pra ser um textão de Facebook virou post do blog.

Há mais ou menos três meses fui assistir à peça “Um bonde chamado desejo”, de Tennessee Williams, com a Maria Luisa Mendonça e com o Juliano Cazarré, no Tucarena.

Um bonde chamado desejo, com Maria Luisa Mendonça e Juliano Cazarré. Fonte: instragram oficial de @umbondechamadodesejo

O diretor dessa montagem, Rafael Gomes, idealizou o projeto pois percebeu que a atual geração não havia ainda tido contato com a estória de Blanche DuBois. Eu me incluo nessa geração: não havia visto nenhuma montagem, nem o filme com Vivien Leigh e Marlon Brando (no Brasil, “Uma rua chamada pecado”).

O título, para mim, sugeria uma estória romântica, com conflitos referentes aos desejos sexuais proibidos, e que a partir dali teríamos um casal fofo. Ledo engano. No começo da peça tem algumas piadinhas que dão a impressão de que aquilo vai se tornar algo romântico. Blanche chega para uma temporada no apartamento da irmã, Stella, que mora com o marido Stanley. Blanche, com ar meio “sapeca”, e Stanley provocando-a, questionando os fatos que conta. Blanche, alcoolista e adoradora de Coca-cola, ganha simpatia da plateia, mas Stanley também, pois não cai nas estórias de Blanche. Porém, ele começa a ficar agressivo. Sem querer fazer spoiler, vamos percebendo um Stanley “justiceiro” e uma Blanche com a alma repleta de dor, que talvez tenha tido o primeiro grande machucado emocional diante do motivo do suicídio do marido (que no filme não foi dito, devido a censura da época, mas na peça, sim).

Você já parou pra tentar sentir o que é uma alma dolorida? Provavelmente sim. Já deve ter pensado nas dores da sua alma, inclusive. Já parou pra pensar como cada um de nós lida com a dor da alma? Com cada cicatriz que insiste em não fechar? Como é a forma que cada um busca para fechar cada cicatriz? E nesse momento, quando já estamos cientes de todo o drama, dor e culpa de Blanche, Stanley a estupra. Se estiver lendo este post e a peça da Maria Luísa ainda estiver em cartaz, corra pra assistir. Peça muito premiada, e a Blanche que ela constrói é fabulosa. O final dessa montagem de Rafael Gomes, fiel à peça original (o filme teve uma adaptação no final, por conta da censura), adiciona no instante final a tradução máxima do ferimento da alma humana, com uma beleza poética dolorida e dolorosa. Elenco maravilhoso, com destaque para Maria Luísa, que pra mim, foi a melhor atuação que já vi na vida, e para Juliano, que vestiu Stanley magistralmente.

Pra mim, teatro é isso: a arte conversa com o nosso racional/consciente, nosso irracional/consciente, nosso racional/inconsciente, nosso irracional/inconsciente (me dei licença “poética” para categorizar desta forma, mesmo que para os psicólogos possa ter uma discussão técnica acerca dessa categorização). Digo isso porque saí da peça atônito. Fiquei mudo por quase duas horas, não conseguia falar, estava dispneico. Saí em choro convulsivo da peça. Cogitaram me levar para um pronto-socorro. Fiquei tomado. Não, não vivi situação semelhante à de Blanche. Mas aquilo me doeu. Me doeu porque na minha carreira clínica atendi tantos e tantos casos de violência física e sexual a crianças, adolescentes e adultos, do sexo feminino e masculino, desde a época de estagiário.

O tempo passou e eu ainda não tive muita compreensão do que ocorreu comigo assistindo à peça. Pra mim é uma aula sobre a vida; uma aula de psicologia; uma aula de atuação. Só sei que a peça conversou diretamente com meu consciente e inconsciente.

E aí o universo concatena para que além dessa montagem de “Um bonde chamado desejo”, tenhamos à mesma época, na capital paulista, “Blanche”, com direção geral de Antunes Filho. A peça é toda falada em fonemol, uma linguagem única. Do que conseguimos depurar estão os nomes próprios, a Coca-cola, um “merci” aqui, um “thank you” ali, um “happy birthday” acolá. A intenção, segundo a própria explicação dada antes da peça é que cada um construa a própria dramaturgia, o próprio entendimento da peça. Para os psicólogos isso funciona à moda do Teste de Apercepção Temática – TAT, como uma grande prancha pronta para receber projeções psicológicas. A peça, com ingressos esgotados, está no SESC Consolação. Quem quiser tentar assistir pode chegar umas 2 horas antes e colocar o nome numa lista, diretamente no 7º andar, no CPT (Centro de Pesquisas Teatrais), e caso alguém não compareça, você consegue assistir – e de graça. Foi assim que fiz: o primeiro da fila de espera, que na sexta-feira 27/05, contava com mais de 25 pessoas na espera. Valeu a pena a espera.

Com todos acomodados, recebemos o programa da peça e um mini-roteiro, para nos localizarmos na estória.

Na Cena 8, Stanley tranca a porta da casa, ameça agressões, acua e assusta Blanche. Abaixo, foto feita pela equipe da peça, para divulgação, do momento em que Blanche telefona pedindo socorro:

Marcos de Andrade interpreta Blanche. Foto: divulgação.

Esta é a Blanche interpretada pelo ator Marcos de Andrade. Olhe bem para o rosto, para a posição corporal, para a situação. Qual a sua reação? Como você está por dentro? Imagine como você reagiria a esta cena, no começo de maio de 2016, antes da notícia de que uma garota foi estuprada por 30 homens (sim, eu sei que infelizmente existem outros casos, mas nesta semana temos um agravante gravitando as conversas). E pense na sua reação hoje, ou melhor, como se tivesse assistido a essa peça na semana em que essa notícia foi divulgada massivamente em todos os noticiários e redes sociais. Acredito que sua reação possa ter sido semelhante à minha, empatia com a dor e angústia da personagem. Choro, ódio, raiva, dor.

Ok. E na plateia? Algumas pessoas rindo. Rindo a cada agressão, a cada ameaça. Rindo de uma mulher acuada, se escondendo debaixo de uma mesa! De uma mulher que tenta abrir a porta para fugir e não consegue. A peça é com luz de ensaio, ou seja, tudo claro, luz branca incandescente, no palco e na plateia. Foi possível observar que as pessoas que riram eram gays, lésbicas e heterossexuais. Gays e lésbicas, que inclusive sofrem perseguições.

Nesse momento, confesso: desejei que a Terra explodisse. Que a humanidade acabasse. “Cara, você está na semana em que um estupro foi filmado e divulgado! E mesmo assim, você não consegue se colocar na pele de outra pessoa? Que prazer sádico é esse de se deleitar com a perseguição a uma pessoa frágil? Quanta projeção de sombra patológica!”. Maneira semelhante como quando querem culpar as vítimas de estupro, seja porque ela flertou, teve desejo sexual e/ou usou álcool ou drogas, como se isso fosse a permissão justificada para a brutalidade criminosa do estupro.

Antes da peça, como disse, nos é pedido que leiamos o mini-roteiro. A cena 8, diz: “Algumas horas mais tarde, na mesma noite – Stanley surpreende Blanche ao chegar do hospital sem Stella. Explica que a mulher ficará lá nos preparativos do parto: os dois passarão então sozinhos, esta noite, em casa”. Por mais que você não saiba que a peça tenha um estupro e suponha que vá surgir algo romântico por conta do que está escrito vagamente na sinopse da cena, desde o início há o claro comportamento agressivo de Stanley – quebra de objetos e agressão física à esposa; a cena do estupro se desenrola claramente, anunciando que algo ruim está para acontecer. Não é preciso entender as falas do fonemol. Blanche não está gostando, está com muito medo, como nos mostra a imagem acima. É frágil. É vítima. Sempre deu indícios de sua vulnerabilidade física, emocional e social.

Durante a peça, Blanche dá indícios de que – na nomenclatura da época – sofre dos nervos (talvez fique menos evidente na versão de Antunes Filho) e após a cena do estupro, notamos um colapso emocional de Blanche, o que talvez hoje possamos classificar como dissociação, numa mistura de fantasia para enfrentar a realidade com delírio. Como psicólogo digo: ela entrou em erupção emocional, mas a Stanley quis que ela parecesse louca, errada e culpada (comportamento típico da cultura do estupro, tanto do estuprador como os defensores da “moral e dos bons costumes”).

Durante a cena do estupro, a plateia ficou em silêncio e, preferi acreditar, repensou no próprio comportamento de rir da desgraça alheia. Cheguei a acreditar que para essas pessoas a arte tenha servido como um espelho para a projeção da sombra patológica, mas isso não durou muito: quando chega a equipe médica para levar Blanche para o hospício, algumas pessoas ainda riram; riram de uma mulher acuada no banheiro e medicada. Ó céus. Citei Renato Russo outro dia e repito “nos deram espelhos e vimos um mundo doente”.

Digo tudo isso porque quantas pessoas (crianças, adolescentes, adultos, do sexo feminino, masculino, cis ou trans – e a montagem de Antunes Filho nos apresenta uma Blanche travesti) não sofreram essa violência? E que essa violência lhes causou danos irreparáveis e imensuráveis à alma e ao corpo? A pessoa que sofreu violência sexual pode desencadear uma série de transtornos psicológicos, além de questões psicossomáticas. Coloque aí depressão, ansiedade generalizada, confusão com orientação sexual, confusão com identidade de gênero, transtornos alimentares, ideação suicida, tentativa de suicídio, suicídio, imagem corporal distorcida, dificuldades de relacionamento, dificuldades sexuais, sexualidade exacerbada, embotamento emocional e outras formas que a psique encontra pra tentar lidar com o trauma. Também: gravidez e doenças sexualmente transmissíveis.

Importante saber que a vítima de violência sexual pode – e deve – ser atendida em serviço médico o quanto antes, para que possa tomar as medicações necessárias, para evitar a gravidez e a infecção pelo HIV, com a contracepção de emergência (pílula do dia seguinte) e a Profilaxia Pós-Exposição Sexual (PEP), respectivamente. O SUS faz este atendimento gratuitamente. O prazo são 72h após a violência, mas o quanto antes, melhor. E existem políticos que querem dificultar o atendimento médico, achando inclusive que deve ser feito primeiro o boletim de ocorrência para “comprovar”. Não, primeiro deve ser o atendimento em saúde. Não é preciso comprovar violência sexual para receber o atendimento de saúde, que fique claro.

Para fazer um mundo melhor, é preciso olhar para nós mesmos, que é quem está mais perto. Vamos entender que o poder enquanto mecanismo acontece na violência sexual, mas também no trabalho, na vida familiar e conjugal, na opinião contrária que não aceito sobre política no Facebook. Como diria Jung, onde há amor, não há poder. Onde há poder, não há amor.

Jung: Onde o amor impera, não há desejo de poder, e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro. Fonte: Google Imagens

Uma amiga, Iaga Véssela, escreveu no Facebook, nos dando mais um complemento à mudança interna: “Tudo tem seu valor. E olhar para si nem sempre é a melhor forma de evoluirmos… Olhar para o próximo, e com ele se preocupar, talvez seja o melhor ponto de partida para nos reformarmos intimamente… Nos preocuparmos com a felicidade do outro, nos trará felicidade por consequência… quando pararmos de olhar para nós mesmos, encontraremos o equilíbrio com mais serenidade…”. E é verdade. Amor é doação. É empatia, se colocar no lugar do outro. Não é egoísta. Não é egocêntrico. Não é nem o meu nem o seu umbigo. Amor é doação, entrega. E isso nos transforma intimamente.

Mesmo tendo escrito algumas poucas palavras sobre estupro neste post, deixo os próximos parágrafos para que você crie uma reflexão/debate sobre o assunto com conhecidos.

Tennessee Williams, autor da peça, disse “o grande tema em toda minha obra é o impacto destrutivo da sociedade no indivíduo sensível e inconformado (inadaptável)”; “o estupro de Blanche por Stanley é o ato mais vital de toda a peça, sem o qual a peça perderia todo o seu sentido, que é a violação do sublime pelas forças selvagens e brutais da sociedade moderna”. A peça é de 1947. Estamos em 2016, e aparentemente “politizados no Facebook”, mas fazendo uso desenfreado do poder, e alguns usam do poder incutido na cultura do estupro para justificar a ação do estuprador. E essa sociedade que é retratada em 1947 permanece em 2016.

As frases acima do T. Williams foram retiradas do programa da peça “Blanche”, assim como o trecho a seguir, de Virginie Despentes: “o estupro é um programa político preciso: esqueleto de um [sistema] opressor, é a representação crua e direta do exercício do poder. Designa um dominador e organiza as leis do jogo para que possa exercer seu poder sem restrições. Roubar, arrancar, extorquir, impor, se assegurar de que sua vontade se exerça sem entraves e de que possa gozar de sua brutalidade sem que a outra parte manifeste resistência. O gozo da anulação do outro e da sua palavra, da sua vontade, da sua integridade. O estupro é a guerra civil, a organização política através da qual um sexo declara ao outro: tenho todos os direitos sobre você e te forço a se sentir inferior, culpada e degradada”.

“Há certas coisas imperdoáveis. Crueldade deliberada, por exemplo” (Blanche DuBois). Bem, procure a definição de deliberado e conclua sobre a cultura do estupro. Luto.


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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2 respostas a Um perigoso poder chamado desejo – sobre Blanche DuBois

  1. Juliana disse:

    Li seu post com um frio na espinha e nó na garganta, sinceramente eu não sei se teria estrutura pra ver essa peça, Rô. Está faltando nesse muito meu amigo, como vc bem disse, amor é doação, é se colocar no lugar da pessoa, sentir o que ela sente, enquanto não tivermos mais empatia, perderemos cada vez mais a nossa humanidade

    • rcesarc disse:

      A temática é densa demais. Aborda tantos temas importantes de uma tacada só. Uma peça antiga que sobrevive aos dias de hoje por ter um elemento infelizmente tão presente nos dias de hoje. Eu tenho dor no coração.

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