Terra de Deitados

No domingo 03/07/16 tive uma experiência sobre a qual posso afirmar: foi sincronicidade. A sincronicidade, conceito presente na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, pode ser entendida como dois ou mais eventos distintos que acontecem e aparentemente não possuem relação entre si, mas depois você percebe que tinham tudo a ver – não é coincidência, existe uma relação de significado.

Pois bem, fui guardar do DVD O poder do mito, de Joseph Campbell, que estava dentro do aparelho, e me deparei com um outro DVD que havia comprado e não assistido: Linda de morrer, com a Glória Pires. Separei pra assistir antes do almoço, já que é um filme curto, e eu tinha um tempo disponível.

Nesse meio tempo, estou trocando áudios com a Elaine Bombicini, e combinamos um café, e o diálogo foi mais ou menos assim:

Elaine: Aproveitamos e comemoramos o seu aniversário no nosso café.
Rodrigo: Então vamos comemorar o seu, que foi antes do meu! Aliás, vamos aproveitar e conversar sobre todos os assuntos pendentes desde outubro do ano passado. Aproveitamos e enterramos os mortos!
Elaine: Isso! Café da Terra! Que ato falho! Não é Café da Terra! É um café para enterrar os mortos, vou procurar se existe algum local chamado Café da Terra.

Nisso, o filme já está rodando e a Talita Rodrigues me convida para assistir ao espetáculo Terra de Deitados. E como tinha que chegar pelo menos 1h antes, para pegar o ingresso, declinei o convite, pois teria pouco tempo para almoçar, e fatalmente chegaria atrasado para a distribuição de ingressos. Ela havia me contado sobre a peça: uma senhora de 100 anos que conta algumas histórias, é uma peça documentário.

A certas tantas do filme, Gloria Pires está no cemitério, tentando um contato pós vida com um médium, que lhe ajudaria em uma missão: tirar de circulação o remédio perigoso para celulite que ela havia desenvolvido. Olhei para esta cena de Glorinha Rutinha Raquel Maria de Fátima Acioly Pires, e pensei na peça. Mais adiante, um personagem do filme aparece com nome e sobrenome: Leo Terra. Imediatamente lembrei do ato falho da Elaine, sobre o Café da Terra.

Terminei de ver o filme e uma inquietação tomou conta de mim: precisava ver a peça. Eis o flyer de divulgação:

Terra de deitados

As informações são: Terra de Deitados – até 17/07/2016, no Cemitério da Vila Mariana (Av. Lacerda Franco, 1967; entrada franca; sexta, sábado e domingo, às 15h30; retirar os ingressos com 1h de antecedência; apenas 25 ingressos por apresentação). Links: Página da Cia. de Teatro Documentário no Facebook e o Blog Teatro Documentário. Simplesmente assistam!

Não vou fazer spoiler da peça, mas posso afirmar: é incrível! Você pode ver a peça para conhecer a história de João e sua família, apenas, e pode também entregar-se para a experiência de uma peça em um cemitério, vivendo-a, de uma maneira aberta e reflexiva. Meus canais de percepção estavam abertos (não, não estou falando de mediunidade, e sim, dos canais de percepção do mundo segundo Carl Jung: pensamento, sentimento, sensação e intuição).

A peça tem atores excelentes, equipe excelente, direção e dramaturgia excelentes. Me proporcionaram uma reflexão, que é difícil traduzir em palavras. Posso até tentar enumerar algumas coisas, mas elas não vão ser justas com a experiência como um todo. Fiquei tocado, não só pela história de João, mas por tudo. Por tudo, inclusive pelo que ia além do texto e da atuação, das questões técnicas. O local, a respiração, o itinerário, a interação, a audição dos sons, o cheiro de flores, as lembranças, a poesia do texto e os símbolos utilizados, especialmente os que representaram a morte dos filhos de João. Por tudo também  que vai além, muito além disso, e que palavras não traduzem.

Foi uma experiência – posso dizer? – transcendental. Na semana seguinte voltei com a Elaine, e a experiência também foi ímpar. Para mim, teatro é isso: é transformador. Saí transformado. Essa é uma palavra que define a peça: transformadora. Não, não tem religião, nem menção à mediunidade. É tudo muito respeitoso, bonito. Mais uma vez me pego tentando atribuir adjetivos, mas a forma como essa transformação está constituída dentro de mim, não encontram palavras.

Mas posso pinçar um item, e falar a respeito. Logo no começo, o personagem João nos mostra o cemitério, e menciona as vozes que querem se fazer ouvir. Contemplando o cemitério, quantas vozes ali não nos dizem mensagens? Um ou outro até podem ouvir as vozes do lado de lá, mas não me refiro a elas. Me refiro à história deixada por cada um. O significado deixado por cada um, durante a vida, com sua existência, e até mesmo, com o significado deixado pela forma pela qual morreu.

Pensando na estrutura da psique, temos o Self/Si-Mesmo, que é a força organizadora, o centro e a totalidade ao mesmo tempo, e pensando que cada self tem uma vocação, um chamado, em busca da vivência de um mito de significado, quantas e quantas pessoas ali não estão, com suas vozes contando histórias? E quantos ali não abriram mão da vocação em detrimento de situações da vida?

Creio que o chamado é uma coisa, e o sonho é outra. Podemos ficar perdidos nos campos dos sonhos, imaginando tudo aquilo que poderíamos fazer e não fizemos e tudo aquilo que podemos fazer, mas não fazemos. Só sonhando, sonhando… O chamado vem e nos faz realizar. Como diria o poeta, com as dores e as delícias de ser quem se é.

Diante disso, tive um enorme respeito pela ancestralidade. Por todos aqueles que ali estão. E que em vida brigaram, pacificaram, causaram dores e foram machucados, alegraram e se alegraram, realizaram ou renunciaram. Cada um com sua própria história. E me vi na possibilidade de conquistar tudo aquilo que eu quero; vi que meu self pode ter tantas coisas para realizar! Enfim, o self é também toda a nossa potencialidade.

Na semana entre a primeira e a segunda vez que assisti à peça, outras sincronicidades aconteceram, algumas não convém mencionar aqui, pois são mais relativas à intimidade de outras pessoas. Mas após ter assistido a segunda vez, com a Elaine, fomos tomar uma sopa em uma padaria e conversamos a respeito. E ela me lembrou de uma frase do Jung: “alguns filhos vivem a vida não vivida ou mal vivida dos pais” (ou algo assim). Sincronicidade sobre um assunto discutido recentemente com uma pessoa!

Bom, mas é claro que um pai, uma mãe ou ambos podem desencadear umefeito desastroso na vida de um filho, como no clichê “ter que seguir a profissão tradicional do papai”. As projeções dos pais sobre os filhos pode ser danosa, com os filhos renunciando à vocação/chamado.

Por outro lado, temos pais que foram sufocados ou que abriram mão dos planos em função de ter que estruturar financeiramente uma família, e que adotam uma postura permissiva com os filhos, soltando-os no mundo numa liberdade sem um pingo de sabedoria, para que fiquem em tentativas e erros constantes, e os filhos ficam perdidos e pueris.

Traços da personalidade e experiências também são nossos antepassados, nossos mortos que nos assombram; experiências assombrosas, isto é, repletas de sombra. Sabendo que nossa sombra é formada por aquilo que não reconhecemos em nós, sejam coisas boas ou ruins, quantas potencialidades estão ali, mortas-vivas, dentro de nós, nos assombrando e perseguindo, sem que possamos dar voz à elas? Não importa o que aconteceu conosco; importa o que faremos do que aconteceu conosco.

Sobre o tema morte, não raro, vemos pensamentos de morte; na semana passada, outra sincronicidade foi o compartilhamento de um texto, por parte de um colega no Facebook: “A diferença entre querer morrer e querer que a dor pare“.  Só pelo título a gente já entende o que o texto quer dizer; tem pessoas que encontram no suicídio uma saída para acabar com a dor; mas vamos pensar no suicídio simbólico. Que parte de nós precisa morrer para conseguirmos seguir adiante? O que é preciso mudar? É disso que falei no parágrafo anterior. E na mesma semana me deparei com a frase do Marcos Quintaes, analista, no Facebook: “para se fazer o luto é necessário matar o morto”.

Enterrar os mortos é importante; mas eles podem sair feito zumbis, nos assombrando, feito clipe do Michael Jackson ou o seriado Walking Dead; mas é necessário também matar simbolicamente os mortos. Tem coisa que vive dentro de nós. Não estou falando de coisas que nos fazem bem, como as lembranças de um ente que se foi, que nutre nossa alma através de uma saudade gostosa; estou falando das coisas assombrosas. Talvez simbolicamente matar e enterrar não signifique socar sepultura abaixo; talvez seja dar voz, entender à que nos serve aquela experiência, comportamento, afeto, trauma, sintoma. Fazer o luto. Integrar aquilo que, mesmo morto, faz parte de nós. Integrar aquilo que mesmo na sombra, rejeitado conscientemente ou inconscientemente, faz parte de nós. Defeitos e qualidades. Sonhos, traumas, complexos e vocações.

A peça Terra de Deitados mostra uma poética (mas não menos dolorosa e reflexiva) exumação do que aconteceu com o personagem João; e nos apresenta também a definição da palavra exumação: “Desenterrar um cadáver para examinar em busca de vestígios de algo como a verdadeira causa da morte, ou a sua verdadeira identidade”. Dar voz aos mortos internos que nos assombram também é buscar a nossa própria identidade. Conhecê-los é tomar consciência de complexos e sombras, ressignificar cicatrizes, empoderamento das fortalezas internas. E nos prepararmos para o aprendizado e para usar toda a nossa potencialidade e resiliência.

Com este post eu enterro uma fase do blog, a que foca apenas transtornos alimentares e obesidade. E enterro também a freqüência semanal de publicações. Como mencionei no post anterior, a nova fase vai incluir muitas reflexões, principalmente com o pano de fundo das peças teatrais que são transformadoras. O nome do blog tem uma grande chance de mudar. E os posts vão ficar mais espaçados, pois sei que serão como receitas que precisam de um tempo para a massa crescer. E espero que quando eles cheguem, assim como agora, que vocês tenham um bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

Compartilhe:

Esta entrada foi publicada em Carl Jung, Peças teatrais, Psicologia, Psicologia Analítica, Self, Teatro e marcada com a tag , , , , , , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 respostas a Terra de Deitados

  1. geneide barros gomes disse:

    Nossa Rodrigo!!!
    Fiquei emocionada!!!
    Você deu voz aos calados, assombrados.
    A alma agradece!!!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *