Sobre passado presente, mito de significado, sentido interno e sentido externo

Sabemos que as rugas no rosto são marcas de uma vida. Contra as rugas tem toda a cosmetologia e as especialidades médicas da dermatologia e da cirurgia plástica. Mais do que a idade, as rugas podem denunciar quanto da sua vida você passou no sol, podem denunciar uma vida triste ou tensa. Mas creio que todo o nosso corpo carrega o nosso passado; a displicência em não tomar água prejudica os rins, alimentação gordurosa causa obesidade e colesterol, uma vida sedentária dificulta ao idoso inclusive usar o banheiro.

Mas o que mais faz o nosso passado tão presente? E não falo do saudosismo, da nostalgia. Falo daquelas coisas com as quais não conseguimos nos conciliar ao decorrer dos anos.

Carl Jung nos fala sobre o mito do significado, ou seja, aquele motivo de estarmos aqui. Viver adquire um sentido. O sentido da nossa existência às vezes nem é tão abnegado quanto o da Madre Teresa, aliás, tem gente que o mito de significado é ser do contra, só pra abalar as estruturas gerais e enquanto sociedade pensarmos as coisas sob um novo ponto de vista.

E o passado fica tão presente, ali, escondido, martelando. Quantas vezes abrimos mão das coisas por termos que nos envolver com outras? Abrimos mão da academia porque temos que trabalhar e cuidar da casa. Abrimos mão de um curso porque o dinheiro da mensalidade vai fazer falta na educação dos filhos. Abrimos mão dos sonhos, desejos e – por que não – chamado/vocação. Achamos que é bobeira, que não é pra gente.

Terapia - Fonte: Compartilhamento no Facebook

 

Na imagem acima vemos um terapeuta podando os galhos no discurso do paciente. Peraí, são galhos ou RAÍZES? Prefiro achar que são raízes, nossa origem. Na imagem vemos o profissional ajustando, podando, redimensionando.

Redimensionar é uma boa palavra. Enquanto pacientes, clientes ou analisandos (cada um vai usar um nome pro mesmo cara, dependendo da abordagem terapêutica) trazemos nosso discurso, nossas impressões sobre um fato, seja uma impressão real, inventada, distorcida ou falseada. Quantas vezes não achamos que uma coisa é gigante e depois percebemos que não era tão grande assim… É disso que estou falando. Das coisas que a gente encasqueta.

Criando paranoia - Fonte: compartilhamento no Facebook

No senso comum, o pessoal chama de “paranoia”, mas o termo técnico não é este. Vamos chamar de complexo. Mas usei o desenho porque achei fofo #soufofo #fuifeitopracasar.

O complexo tem uma carga afetiva, algo muito forte que nos aconteceu e desencadeia toda uma forma de nos comportarmos diante de algumas situações, ou até mesmo diante da vida. Quando a gente se deparara com uma situação específica, que é tipo a pedra no sapato, vem algo que toma a gente, que praticamente nos cega, e faz a gente agir de uma forma explosiva, por exemplo. Ou até mesmo recuar, numa passividade patológica, e na temática deste blog, comer compulsivamente. São inúmeras as situações e reações.

Você já parou pra pensar quais aspectos seus você não deu conta de elaborar? Aquelas coisas internas que não conseguiu fazer as pazes? Os nós que não conseguiu desatar? As coisas que deixou pra trás? Dizem que é melhor se arrepender de ter feito do que não ter feito; fez as pazes consigo por ter deixado de fazer coisas que queria? E já se perguntou como isso reflete nos dias de hoje? Como isso reflete no seu corpo? Seria possível fazer hoje em dia o que deixou de fazer? Por que não? Por que sim?

Como diz o nome do livro, o corpo fala. As costas encurvadas podem demonstrar uma pessoa que carrega o peso do mundo nas costas, ou uma pessoa retraída, triste. São muitas coisas que somos e passamos que repercutem no nosso corpo. Pessoas de comportamento rígido, inflexível, podem ter dificuldade em se alongar. São muitas coisas que podemos refletir na nossa vida a partir da nossa postura corporal. Então não são só as rugas que carregam as marcas da nossa história. Nosso corpo também.

Quando recorremos à literatura psicológica pra procurar entender a história de cada um relacionada à obesidade (aspectos psicossomáticos), quase que na maioria das vezes nos deparamos apenas com o cenário feminino da obesidade. Prometo que um dia discorro mais a fundo sobre isso, e buscando apresentar também as questões masculinas da obesidade.

Mas este post tem a ver com o resgate daquilo que somos. Daquilo que viemos fazer no mundo. Falando assim parece um compromisso sério, né? Parece até compromisso religioso. Mas é um compromisso sério! Com nosso Self, a parte da nossa personalidade que é nossa essência, o centro da nossa personalidade, e a totalidade da personalidade ao mesmo tempo. Então no Self está nossa vocação, nosso chamado, toda a nossa potencialidade. Independe se é no mundo da música ou se é fazendo parte de uma ONG de poços artesianos na África.

Todas as profissões são nobres. Mesmo as chamadas mais operacionais. Todas fazem parte de uma engrenagem maior que é o mundo. É uma inter-relação. Um centro cirúrgico sem a equipe da limpeza estraga todo o trabalho do mais nobre cirurgião, colocando em risco sério de infecção todo paciente.

As reflexões sobre os processos da vida não surgem apenas psicoterapia e com leituras de livros de Filosofia; surgem também na arte, na conversa de elevador, escolhendo maçã na feira. É estar atento para o nosso próprio interior, no dia a dia, como somos em cada situação, é a busca pela auto-consciência.

É buscar dar um sentido na razão de não termos conseguido aquele emprego: seria a melhor opção?; ali desenvolveria toda a minha potencialidade?; ali seria a melhor oportunidade para o meu aprendizado? É buscar um sentido para aquele período que ficamos de cama num quadro gripal: por que precisei ficar parado, por que meu corpo, inconscientemente, me fez ficar de molho? E assim os questionamentos prosseguem.

Quem nos dá uma preciosa dica é James Hillman, no livro O Código do Ser, que aborda justamente o sentido da vida. A dica é olhar a vida de trás pra frente: se olharmos agora para uma coisa que não conseguimos, lá atrás, vamos entender que outra coisa se desenrolou e tivemos um aprendizado nisso. A dica vale também para pensar nas conquistas, nos acontecimentos bons.

Então, qual o sentido da obesidade na minha vida? Qual o sentido do efeito sanfona? O que a minha obesidade tem a ver com a minha vocação, o meu chamado? O que posso desenvolver enquanto qualidades? Qual a força preciso desenvolver pra virar a mesa?

A obesidade pode nos deixar mais letárgicos, com dificuldade de correr atrás de algumas coisas. Ficar em casa comendo é não sair para conquistar as coisas no mundo. Vários autores consideram a obesidade um escudo, uma barreira, uma muralha que nos impede de nos relacionarmos. Podemos mencionar exemplos no contexto da sensualidade (a pessoa teria dificuldades em lidar com a sensualidade e engordaria), das relações interpessoais (o obeso nem sempre iria a todos os eventos sociais ou mesmo adotaria uma postura de engraçado, nem sempre levado a sério), ou das relações profissionais (falei semana passada sobre a rejeição velada nos processos seletivos). Ah, mas então o lance é emagrecer pra se adaptar? Não estou dizendo isto. É algo amplo e muito peculiar de cada um pra discutir num post, por isso quero abordar esses aspectos futuramente. Mas meu ponto de vista é sobretudo a saúde do corpo magro, e não sobre padrão de beleza imposto pela mídia.

Voltando ao nosso mito de significado, o motivo da nossa existência. O que nos dá prazer em realizar? Em conquistar? Estamos alinhados aos nossos propósitos? E o que falta para alcançá-los? Ah… podemos listar as razões, sejam desculpas sérias ou esfarrapadas. “Não tenho mais idade”, “não tenho dinheiro”, “isso não é pra mim”, “sou fraco”, “tenho que cuidar dos filhos”, etc, etc, etc.

Circula pelo Facebook fotos de idosos que se formam em cursos de nível superior, amputados que fazem musculação, e pegando carona no assunto do momento, adultos com microcefalia que levam uma vida ativa e produtiva. Então, podemos rever nossas desculpas, ou melhor dizendo, nossas amarras, que acredito serem mais fatores internos que externos.

Chegamos então no terceiro item do título do post: sentido interno e sentido externo. Eu que nomeei assim o que quero discutir aqui. Quantas vezes buscamos dar um sentido externo, um sentido visível para os outros, uma coerência (para não parecermos malucos) e vamos nos distanciando daquilo que só faz sentido interno, um sentido para a gente?

Buscar um curso, uma profissão, uma viagem, uma atividade, que sempre desejamos fazer, que só fazia sentido pra gente, mas deixamos para trás porque precisaríamos escrever uma história coerente, com linearidade, para que pareçamos maduros para aqueles que nos rodeiam? No chavão, criamos uma caixa para a gente, e é preciso pensar fora da caixa.

E outra, é normal ter aptidão para diversas coisas, tem até um termo circulando por aí: multipotencialista. Quem aborda bastante isso é o Márcio Caus, confira o vídeo abaixo:

E aí eu te pergunto: você que deixou algo pra trás, que tinha talento (ou um pouco de), e seguiu pra outro caminho, que você manda bem, mas falta algo… Como administrar o talento para coisas tão diferentes? Interesse por áreas tão diferentes? O fio da meada, a meu ver, é compreender que os vários interesses fazem parte. E um não anula o outro, não necessariamente.

Seria o multipotencialista um Puer? Vixi, agora complicou, quem é Puer? Explico neste post aqui. Resumindo o Puer é a figura mitológica da criança, e o Puer Aeternus, a figura da criança eterna, o adulto pueril, que não cresce. Mas a força arquetípica (o melhor aspecto do que ele representa) do Puer é a criatividade, a inovação, o envolvimento com várias coisas.

E aí a gente percebe muita gente fazendo as pazes consigo em aulas de dança, por exemplo. A dança era uma paixão, não virou carreira porque a moça virou executiva; mas com o passar do tempo, inscreveu-se na aula de dança, e não é que a escola faz apresentações públicas? Ali ela se realiza. Mas administrando ainda a outra parte da vida, que ela tanto aprecia por se sentir realizada. O contraponto do Puer é a figura arquetípica do Velho Sábio. E a vida nos exige a criatividade, a iniciativa, a espontaneidade da criança e a sabedoria do Velho. Não é planejar carreira, mas administrar a(s) vocação(ões) e a(s) carreira(s). Vai além de ter um plano B, porque são dois ou três planos A que dão certo, ao mesmo tempo.

Temos também aqueles que se identificam com vários, mas não conseguem se envolver seriamente com nada. Aí temos o aspecto negativo do Puer, a dificuldade com os vínculos. Não se aperfeiçoa em nada (e às vezes tem até o ego inflado). Mas é buscar a sabedoria, e administrar. Isso vem com a reflexão e o amadurecimento, e sobretudo, com o autoconhecimento.

Mas o cardápio de hoje é sobre o resgate de si; a auto-reconciliação. Isso tira um peso dos ombros! E quem sabe, com o passar do tempo, tire também o peso do “pânceps”. Bon Appétit!

PS: deixo aqui, nas entrelinhas, o motivo de ter usado tanto a hashtag #livingforlove no ano passado! Reconciliação com o passado, vivendo por amor. Living for love é uma música. Dá um Google.


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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