Sobre Narcisos, Ecos, Instagram e emagrecimento

Narciso e Eco: fonte - Google ImagensNo curso de mitos que estou fazendo, comecei a ter algumas conexões sobre emagrecimento. Vamos iniciar nossa reflexão com uma breve apresentação do mito de Narciso e Eco, retratados na imagem acima.

Zeus, o deus do  Olimpo, pediu para que Eco, uma ninfa tagarela, distraísse Hera, esposa dele, enquanto ele saía pegando geral, e assim foi acontecendo, até que Hera descobriu, e sentindo-se humilhada e traída, castigou Eco a nunca mais iniciar uma conversa, e apenas repetir o fim das frases que ouvisse – daí o eco que conhecemos.

A mãe de Narciso, Liríope, estava preocupada com a beleza do filho, e foi perguntar ao adivinho Tirésias por quanto tempo o filho, o mais belo dos mortais, viveria, e a resposta foi “se ele jamais se ver”. E homens e mulheres se apaixonavam por Narciso, mas ele desdenhava a todos, com orgulho e arrogância. Mas uma vítima do desdém de Narciso recorre a Nemésis, a deusa castigadora da insolência, que determina que Narciso ame um dia, mas não possa ter o objeto do seu amor.

Um dia Eco encontra Narciso, e se apaixona; como não podia declarar seu amor, o seguia como uma sombra, mas ele foge, pois não quer o amor de ninguém. Certa vez, caminhando, Narciso se perde e grita “Tem alguém aqui?”, e Eco, que só podia repetir o final das frases, responde “Aqui, aqui!”, e tenta abraçá-lo, que lhe afasta dizendo: “Prefiro morrer a lhe dar poder sobre mim”. Mas Eco diz “Dou-lhe poder sobre mim”. Narciso vai embora, e Eco, envergonhada, triste, refugia-se nas grutas, definhando-se até seu corpo evaporar e sobrarem apenas seus ossos e sua voz; por isso em vales e grutas há o eco.

Narciso, em meio a uma caça no bosque, foi tomar água e viu sua imagem refletida no lago. Se apaixonou, e toda vez que tentava tocar a imagem, esta se desfazia. Ali ficou até definhar e morrer. No local nasceu uma flor, que é chamada de Narciso.

Flor Narciso - fonte: Google Imagens

Hoje em dia costumamos dizer que narcisista é a pessoa muito envolvida com a auto-imagem, com vaidade enorme, auto-cuidado imenso. Mas observando a raiz do mito, Narciso se apaixonou por uma pessoa que ele não sabe quem é.

Tempos atrás, escrevi um post refletindo sobre nossa integração com nossos aspectos sombrios, sendo sombra tudo o que não está na luz, o oposto da luz, o que não está à vista, o que está inconsciente, isto é, o lado sombrio do obeso seria o magro. Narciso então teria se apaixonado por alguém. E ele não sabe que este alguém é ele mesmo. Narciso não se conhece. Não sabe o que ou quem ele é. Quais os defeitos, quais as potencialidades. E fica preso a uma imagem.

Temos os gordinhos e gordinhas que admiram tanto o belo do outro, que esquecem que aquilo que tanto admiram também está dentro de si, escondido na sombra: a determinação pela busca de um corpo com peso saudável. Então é como Narciso olhando o reflexo no lago, sem saber que ele mesmo pode. Mais do que músculos que rasgam as roupas, é importante saber que o emagrecimento é necessário por questões de saúde, e o ganho com auto-estima está associado. Como já disse no blog, é necessário gostar de si, sendo gordo ou magro, mas é importante buscar a saúde, e obesidade está associada a diversas questões prejudiciais, tanto é que é considerada epidemia mundial.

Nas academias costumamos ver os tais apaixonados pela própria imagem. E quem nunca ouviu reclamações sobre eles? Vemos os gordinhos e gordinhas envolvidos com muitas questões intelectuais, deixando de lado o cuidado com o corpo, e então muitas vezes ridicularizando quem está preocupado com o corpo. Pra mim, isso é projeção sombria; à medida que o gordinho reclama do outro, mas também não se envolve com outros aspectos seus, nega a própria força para emagrecer, nega o cuidado com a saúde física, fica incomodado com o que o outro consegue, e menospreza o feito alheio.

E já que falamos do mito de Narciso e Eco, vamos pensar então nas Ecos que vemos (ou somos). Eco é aquela que admira Narciso e que repete finais de frases. Vamos transpor para o mundo fit dentro do Instagram. Quantos perfis de Insta não são seguidos loucamente? Dietas e treinos são mencionados nesses perfis, e as massas seguem, curtem e compartilham. E o pior de tudo é: realizam. “Lhe dou poder sobre mim” – pessoas que nunca vimos pessoalmente dizem que fazem isso ou aquilo, e somos vários seguindo, ou nos martirizando por não conseguir comer 155457985 claras de ovo por refeição. Basta dizer “gentem! Funcionou pra mim, então não sei se vai funcionar pra vocês, tá?”, que já tem um monte seguidores tentando fazer funcionar.

De repente estão seguindo treinos, exercícios que causam lesão, exercícios que não vão surtir o efeito esperado, dietas com cálculo calórico e nutritivo diferente do que precisam; claro que a chance de dar errado é grande. E a frustração surge, e com o que o gordinho(a) vai se consolar? a) Fast-food; b) auto-culpa; c) comidas calóricas e gordurosas; d) todas as anteriores.

É preciso olhar para si. Legal que os caras têm vários seguidores, mas mais importante que seguir treino ou dieta, é seguir a motivação, a inspiração. Porque dieta e treino são personalizados. E esse oba-oba me preocupa.

Mas dieta e treino personalizados são caros? Vamos fazer uma matemática. Pegue seu salário. Divida por 22 (dias trabalhados, em média). Divida por 8 (horas trabalhadas). Pronto, chegou ao quanto você ganha por hora. Anote esse número. Quantos minutos do seu dia durante o trabalho trabalho você gasta admirando, babando, curtindo, compartilhando, realizando, se estrepando por causa de dietas e exercícios não personalizados? (Seu chefe não está olhando, pode responder). Some a quantidade de minutos que gasta fazendo isso fora do serviço. Divida por 60 (minutos de uma hora). Pronto, terá quantas horas diárias gasta com isso. Multiplique pelo valor da sua hora trabalhada, e verá o quanto gasta diariamente sendo Eco. Não se esqueça de somar o gasto com revistas, sites e alimentos/cápsulas milagrosos. Agora compare com o valor de uma hora de nutricionista (em média, uma por mês); compare com o valor de uma orientação de educador físico (presencial é melhor, o cara vai te avaliar muito melhor). Acho que está perdendo dinheiro, né?

Revistas e sites ventilam possibilidades, dão um norteamento, mas você pode e deve discutir as informações com o profissional, para adequar ao seu caso. Existem os alimentos funcionais, suplementos alimentares, mas o principal é a reeducação alimentar. Suplementos podem trazer prejuízos irreversíveis se não usados adequadamente. Podem comprometer a função renal, por exemplo. Dietas restritivas podem desencadear desnutrição. E o gasto na busca pela saúde perdida vai ser muito grande, maior que o investimento de agora.

Invista no corpo e na alma. Conheça-se. Os profissionais vão ajudar você a conhecer o que seu corpo precisa. Psicologicamente falando, fugir da orientação de um profissional pode ser auto-sabotagem: se não alcançar o que quer, vai se sentir frustrado e vai desistir; durante o processo o profissional também ajuda a lidar com os altos e baixos (sim, altos podem levar a uma queda grande). A maturidade vem do conhecimento, não só da psique, mas do corpo também. É um processo de transformação e reestruturação. Carl Jung nos diz: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.

Bon appétit!

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