Pulso – precisamos falar de Sylvia Plath

Este post é especial por 3 razões: é sobre Pulso, peça teatral sobre Sylvia Plath; é a consolidação do novo formato do blog; e também é a comemoração de 3 anos do blog.

Pulso é aquela peça que é um espetáculo completo: para os olhos, para o olfato, para os ouvidos e para a alma. Pulso é estrelada por Elisa Volpatto, dirigida por Vanessa Bruno, com preparação corporal de Livia Vilela. É um espetáculo do Vulcão [criação e pesquisa cênica].

Toda a produção esbanja profissionalismo: o som perfeito, a trilha sonora perfeita, a iluminação, cenário, projeções nas paredes, interpretação, tudo, absolutamente tudo nos mostra o carinho do Vulcão pelo trabalho realizado.

Elisa Volpatto em cena de Pulso - fonte: página do Pulso no Facebook

O que nos é contado no espetáculo é o último dia de vida de Sylvia Plath, poetisa e romancista norte-americana, com grande reconhecimento por sua obra. Também é bem sabida a luta de Sylvia contra a depressão, porém em 11 de fevereiro de 1963, a depressão venceu Sylvia, que cometeu suicídio, aos 30 anos.

A peça nos envolve, seja pela atmosfera, seja pelo olhar da atriz, e digo mais: se possível, assista na primeira fila, para sorver tudo o que ali acontece. Eu só sei que a peça me deu vontade de conhecer mais sobre Sylvia, mais sobre sua obra. Mas algo fez acender um alerta dentro de mim.

Enquanto psicólogo junguiano e leitor de James Hillman, eu não poderia negar o significado dessa depressão para Sylvia. Não, eu não li os diários dela – ainda. Mas tem uma série de respostas quero buscar, como por exemplo: por que uma poetisa renomada, fazendo algo que gosta, não via sentido na vida e se matou?

Hillman nos mostra que nem todas as histórias serão lindos contos de fada, de superação, e todas aquelas coisas que esperamos de alguém que não cogita o suicídio. Indico a leitura do livro dele, O código do ser, para ampliar o que proponho como discussão neste post. O que nos amplia o leque de reflexão é: e se a história daquela pessoa precisasse culminar com o suicídio? Talvez nunca venhamos a saber, mas dessa fatalidade podemos discutir vários pontos. Ah, e antes de continuar, quero dizer que assisti Pulso por duas vezes, e ambas em setembro deste ano. Sim, setembro. Setembro amarelo: campanha de conscientização sobre o suicídio.

O primeiro ponto que quero discutir é: depressão não é frescura. E não, depressão não “passa fazendo o que gosta”. Claro que muitas vezes achar o sentido vocacional, o chamado (como coloca Hillman) pode ajudar no processo de melhora dessa depressão. Mas nem sempre isso vai ser suficiente. A depressão assume um significado na vida da pessoa, é um sintoma de uma existência, algo que deve ser olhado com atenção. Cada vivência que temos vai sendo mais um item na bagagem que a gente acumula e carrega no decorrer da vida. E as vivências ruins podem ser devastadoras.

“Mas, ah! Por que a pessoa não deixa isso pra trás? Ela deve esquecer!”. Este é o segundo ponto que quero discutir. Conselhos, conselhos fresquinhos, olha aí, olha aí, freguesia, são os deliciosos conselhos! Todo depressivo estaria milionário se ganhasse um centavo pra cada conselho “dos bão” que recebe. Claro que a intenção do aconselhador é que a pessoa melhore! Mas além de tudo há um problema bioquímico. Mas então é só tomar remédio? Não. É importante um tratamento multiprofissional.

Mas o que tem de mal um conselho? “Se fosse bom, ninguém dava, vendia”. Terapia não é venda de conselhos. Terapia é passar a vida a limpo. É aprender a lidar com as feridas. Um conselho pode colocar a pessoa mais pra baixo ainda; ela vai ser incapaz de seguir o conselho, e vai se sentir fracassada. A depressão pode ter tido início com um fator (relacionamento, trabalho, luto), mas com o passar do tempo, vão ser tantos elementos que o depressivo nem vai lembrar mais do ponto em que a depressão surgiu.

O terceiro e último ponto que quero discutir neste texto é a rede de apoio ao depressivo. Sim, ele precisa suporte. Precisa ser entendido que nem sempre vai estar emocionalmente disponível para sair de casa, para ir ao aniversário dos amigos que tanto gosta, para as confraternizações. E sim, muitas vezes ele vai dar desculpas que soam esfarrapadas. Respeite o limite. E não, não deixe de convidá-lo na próxima vez, mesmo após sucessivas desculpas. Os depressivos se sentem mal por não conseguirem comparecer. Só tenha paciência.

Suicídio e tentativa de suicídio não podem ser classificados como egoísmo. Não é falta de amor. A pessoa busca apenas que a dor que ela sente, essa dor emocional, cesse. Alguns, espiritualistas, buscam uma vida melhor “do lado de lá” – e as religiões dizem que não vai ser bem assim nos casos de suicídio. Mas muitos são como as pessoas que estão no topo de um prédio pegando fogo; elas pulam. Sabem que vão morrer na queda. Mas não suportam o calor e a dor das queimaduras. Elas querem que essa dor acabe e pulam. Compreenda isto, busque ajudar a pessoa, leve-a para uma equipe. Sim, equipe: médico psiquiatra e psicólogo/analista, e outros profissionais que estes indicarem.

O medicamento leva uns dias até começar a fazer efeito; mas a mudança de comportamento, o enfrentamento não vem apenas com o remédio: vem do autoconhecimento, de um trabalho interno, terapêutico. Fique atento para efeitos colaterais dos remédios; muitas vezes é necessária a troca do medicamento ou ajuste da dose. Não se frustre com recaídas. Saiba que o depressivo é muito grato pelo apoio que recebe. Se possível, faça terapia também para se fortalecer no processo de ajudar.

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Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644. Rodrigo também é dramaturgo e ator em formação.

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