Entrevista: Juliana Brant, nutricionista

E fechando com chave de ouro a série de entrevistas: Juliana Brant!

Juliana Brant

Já escrevi um post chamado Nutricionista – sua melhor amiga, que, claro, foi inspirado nela (e em todos os outros nutricionistas amigos, e inclusive os que já cuidaram de mim, não sintam ciúmes!). Ela é mineira, e tive a oportunidade de trabalhar com ela na saúde pública de Santo André por dois anos. Profissional e mãe dedicada (ontem foi dia das mães, então, parabéns a ela e a todas as mamães). No Facebook você encontra várias dicas na página dela (clique aqui). Ela é de uma doçura (diet) sem tamanho! Então, vamos à entrevista com ela, que me ensinou várias receitas com abóbora! Degustem cada resposta, aproveitem cada nutriente!

Perfil
Juliana Brant, 32 anos, Montes Claros – MG, Nutricionista

O que te levou a ser nutricionista?

Me identifiquei com as possibilidades que essa profissão oferece e é gratificante trabalhar com a promoção da saúde.

Quais as queixas frequentes que ouve no consultório?

Essas queixas são as campeãs nesses 9 anos de formada!
“Eu faço tudo direito e não emagreço”;
“Não tenho tempo para preparar refeições mais saudáveis”;
“Custa muito caro se alimentar bem”;
“Não tenho opções de lanches saudáveis próximo do meu trabalho”.

Como é o processo de adesão à dieta prescrita? Quais as dificuldades? Quais as facilidades?

A adesão à dieta prescrita depende da forma como o paciente/cliente entende todo esse processo de mudança alimentar, pois muitos chegam até o consultório em busca mudanças de comportamento alimentar por tempo determinado e resultados rápidos. No entanto, tanto na consulta e também na entrega da dieta é proposto que os hábitos alimentares precisam ser reconstruídos e assimilados no dia-a-dia, e não limitados com objetivos alcançáveis a curto prazo, e sim com u ma mudança que possa proporcionar controle a longo prazo.
Como nutricionista tento buscar o máximo de informações possíveis para que a dieta proposta seja adequada à realidade de cada paciente e que com isso as dificuldades sejam mínimas ou até mesmo nenhuma, mas geralmente a dificuldade é a realização do plano alimentar nos finais de semana, festas e ocasiões sociais. Por outro lado, temos as facilidades que são as alternativas de alimentos saudáveis propostas.

Como é o processo interno, na sua visão, do paciente que descobre novas possibilidades de alimentação?

No momento da consulta até diagnóstico e conduta nutricional, eu como profissional nutricionista, preciso ser realista, e aberta a discussões, nas quais o paciente apreenderá a realizar suas novas escolhas alimentares nas mais diferentes situações e ainda entender o que é realmente melhor para ele naquele momento. Diante disso ele percebe que pode sim fazer uma reeducação alimentar de acordo a sua realidade e que pode sim incluir isso no seu dia-a-dia, apenas fazendo escolhas melhores que antes eram desconhecidas.

Como você vê o processo do paciente que reluta em largar hambúrgueres e batata frita (e outros alimentos hipercalóricos)? Como é o vício alimentar?

Nesse caso a pessoa mesmo consciente sabe que esses alimentos são ruins para ela, mas mesmo assim continua comendo. Por outro lado algumas pessoas acham que isso é causado pela falta de força de vontade por escolhas melhores, saudáveis, mas a situação pode ser mais complicada do que isso.
O vício alimentar é o desejo compulsivo e excessivo de consumir alimentos e com muitas consequências negativas à saúde, como por exemplo, obesidade, diabetes, distúrbios psicológicos e etc. Vale ressaltar que quando qualquer substância é ingerida em excesso independente do seu potencial de danos à saúde, essa substância é vista como um vício. Os indivíduos que usam essas substâncias ao extremo são viciados; estas pessoas tornam-se fisiologicamente e psicologicamente dependentes dessas substâncias, neste caso os alimentos.
Infelizmente não há nenhuma maneira fácil para combater o vício alimentar; esse processo exige um acompanhamento profissional multidisciplinar (médico, nutricionista, educador físico, psicólogo, etc.) para ajudar como um todo a pessoa para que ela possa modificar os padrões alimentares e o estilo de vida.

Costumo abordar no blog que comer pode se tornar um vício, e o day off seria uma espécie de recaída consentida, mas que pode impedir ou mesmo levar a pessoa de volta a comer porcarias e até mesmo voltar à compulsão alimentar. Como você orienta os pacientes em relação a isso?

Para determinar o day off eu analiso primeiro e oriento de acordo com o tipo de plano alimentar, exercício, metabolismo e objetivo de cada paciente pois, tem pessoas que podem fazer uma vez por semana, outras a cada 15 dias e outras não.
Geralmente oriento que o paciente escolha a sua comida preferida e que consuma apenas no jantar de sábado ou almoço de domingo, por exemplo. Nas outras refeições, o plano alimentar deve ser seguido normalmente.
A orientação é muito importante para evitar exageros que poderão prejudicar todo o esforço.

Pra você, quais as questões internas que estão ligadas ao efeito sanfona?

O efeito sanfona, ou seja, o ganho de peso logo após um processo de emagrecimento é causado por fórmulas milagrosas e dietas restritivas. As pessoas que usam esses métodos para atingir seus objetivos estão suscetíveis a ficar nesse círculo vicioso, pois geralmente a procura é por perda de peso rápida para ir a alguma festa, ou o famoso projeto verão,  ou para agradar o namorado, ou a moda, ou a ditadura do corpo perfeito, ou alguma outra situação; o que importa nesse processo é perder o peso independente de qualquer coisa. Mas depois do objetivo com metas inviáveis vem o aumento de peso novamente, pois a pessoa volta a alimentar-se da mesma forma anterior.

Açúcar é vilão? Causa dependência?

Acredito que tudo que é consumido em excesso se torna vilão. Então a culpa não é do açúcar. É dos excessos. Segundo definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), o ideal é que a ingestão desse nutriente não passe de 5% do valor diário de calorias, sendo aceitável até 10%. No entanto, os brasileiros atingem 16,3%, segundo estudo feito com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2008-2009, ou seja, os brasileiros consomem bem mais açúcar por dia do que recomenda a OMS.
Agora em relação à dependência do açúcar pode acontecer devido ao aumento nos níveis de hormônios como dopamina e serotonina, e que estão associadas ao prazer e ao bem-estar trazendo uma momentânea sensação de bem-estar, mas com a liberação da insulina, esse estado passa, e a pessoa sente vontade de comer mais açúcar.

Os pais muitas vezes querem que os filhos tenham alimentação saudável, mas eles mesmos não conseguem. Como colocar ordem na casa?

O comportamento alimentar dos pais influencia no modo como as crianças lidam com a própria alimentação, ou seja, se os pais não têm preocupação com a alimentação, os filhos crescem com o mesmo hábito alimentar errôneo e dificilmente terão um estilo de vida saudável. A criança reproduz exatamente o que vê. Portanto a melhor forma de educá-las e incentivá-las é tendo atitudes que sirvam de exemplo, criando um ambiente familiar livre de alimentos como fast-food, pratos prontos, guloseimas e importante também não utilizar esses alimentos citados como forma de “presentear” os filhos pelo bom comportamento ou atividade realizada.
É essencial que as refeições sejam à mesa e a oferta de alimentos saudáveis seja de forma natural, sem que o consumo seja forçado.

A obesidade infantil vem chamando a atenção no mundo todo, e há a tendência de uma criança obesa ter maiores dificuldades em emagrecer quando adulta. Como lidar com as crianças que comem certo em casa, mas que ao ingressar nas escolas se deparam com todo o tipo de alimento? (Nota: eu percebo que o mesmo acontece com as drogas; os adolescentes entram em contato, e há uma orientação inclusive nas escolas sobre isso, mas sobre alimentação não).

É fundamental que os pais sejam conscientizados sobre a necessidade de incentivar sempre e ter em casa alimentos saudáveis e de verificarem o que as crianças estão comendo na escola, até porque hoje em dia a maioria passa grande parte do dia nas escolas, realizando várias refeições. Os pais devem exigir ou procurar escolas que possuem uma preocupação também para essa questão. Para mim a escola deve garantir educação alimentar às crianças, oferta de uma alimentação saudável e também um incentivo à prática de atividade física.

Como é lidar com um adulto que já tem hábitos alimentares arraigados?

Geralmente os hábitos alimentares arraigados são transmitidos através de gerações eles vem carregados de tradições religiosas e culturais. Trabalhar com essa questão requer compreensão, pois para algumas pessoas a proposta de mudança pode demandar algum tempo para que se habitue e não torne ela como algo radical em sua vida, mesmo que ela venha em pequenas alterações. Saber mostrar os benefícios em termos de saúde, constituem em um grande incentivo para que elas insistam e aceitem melhor.

E como é isso para o paciente de cirurgia bariátrica (redução do estômago), que se vê obrigado a comer menos e coisas diferentes para não ter o dumping? Como é a adesão ao novo esquema alimentar (pois alguns voltam a engordar)?

Geralmente todo paciente está sujeito a ter a síndrome de dumping, que acontece quando, depois de beber ou comer, o paciente apresenta sintomas como sudorese, tontura, queda da pressão arterial e diarreia, e tudo isso vai depender do que a pessoa comeu. O que tem que ser colocado é que alimentos ricos em açúcares e gorduras, em excesso, não devem fazer parte do cardápio e muito menos de alguém que passou por esse processo.
Não adianta apenas se submeter à cirurgia bariátrica – é preciso haver a compreensão do paciente e dos familiares sobre as mudanças de hábitos e que a cirurgia não é milagrosa, precisa de reeducação e manutenção alimentar e física para que os resultados sejam efetivos. O paciente precisar ter em mente que a cirurgia é apenas o início de uma mudança de vida que inclui reaprender a comer, mastigar e engolir, fazendo escolhas melhores e seguir a orientação da nutricionista.
Acredito que essas pessoas que voltam a engordar ou não seguiram as orientações da equipe multidisciplinar ou possuem alta expectativa em relação ao procedimento e consequentemente projetam na cirurgia a mudança de toda uma vida, só que no decorrer do processo algumas expectativas são frustradas, a partir daí voltam a utilizar novamente a comida como válvula de escape.

Que alimentos as pessoas mais torcem o nariz? Como driblar isso?

A campeã é a salada e oriento que as pessoas aprendam a comer salada. Escolha as verduras e legumes e faça preparações diferentes e brinque com a cores. Cada escolha tem que ser considerada como uma forma de uma mudança e tem que ser gradativa pois têm maior chance de dar certo e dessa forma ir se adaptando melhor e então vai passar a comer alimentos saudáveis sem torcer o nariz.

No emagrecimento, tem pessoas que preferem dieta e tem pessoas que preferem dieta com exercícios. Quem faz exercícios com dieta pode se inspirar nas redes sociais e cometer erros usando suplementos inadequados ou se alimentando apenas de um tipo de coisa (só frango e batata doce, ou só claras, por exemplo). Quais os riscos de uma dieta desbalanceada?

Existem nutrientes específicos que são essenciais para o desenvolvimento e manutenção do organismo e a escolha em seguir uma dieta desbalanceada resulta na falta deles no cardápio, trazendo assim diversos problemas de saúde como aumento de alterações de humor, depressão, hiperatividade e outros problemas como excesso de peso e obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares.

Na sua opinião, por que as pessoas recorrem tanto a suplementos? Existem casos em que são indicados?

Acredito que hoje em dia há uma facilidade muito grande para as pessoas obterem esses produtos, seja por iniciativa própria ou um amigo que está usando, ou alguém indicou, e geralmente a utilização é em busca por otimização de resultados, para compensar a deficiência da alimentação ou aumentar a energia, performance atlética. A suplementação quando orientada por um profissional pode trazer benefícios para algumas situações como pessoas que desejam ou necessitam aumentar determinado nutriente ou substância, seja por carência alimentar ou necessidade por gasto alto, como nos casos de atletas de alta performance.

Qual a diferença entre dieta e reeducação alimentar? Quanto tempo a pessoa leva para de fato se reeducar? Quais os maiores desafios no processo?

A dieta tem um prazo iniciar e acabar e normalmente são feitas por pessoas que desejam perder peso rapidamente e a característica dessas dietas é a restrição. Já a reeducação alimentar é um processo de aprendizado, conscientização e mudança de hábitos alimentares de forma gradativa, que vai acompanhar a pessoa a vida toda.
Quanto ao tempo, acredito que não existe uma data especifica; se vai acontecer em 6 meses, um ano ou dois, tudo isso depende de cada indivíduo e geralmente pergunto aos meus pacientes “há quanto tempo estão tentando emagrecer? Alguns meses? Anos? Quantos anos?”. É importante salientar que os resultados não aparecem de imediato e sim ao longo do tempo e que hábitos conquistados são cultivados e enraizados. E todo esse processo exige persistência e dedicação, já que estão envolvidas várias mudanças como quantidades, horários, combinações.

As pessoas argumentam que a dieta custa caro (muitas dietas falam que é preciso comer salmão e filés de frango e carne, grão de bico, etc.). Como é lidar com a questão financeira no processo de reeducação alimentar?

Fazer reeducação alimentar não é sinônimo de gastar dinheiro para criar pratos elaborados com ingredientes caros e muitas vezes difíceis de encontrar. Por isso o nutricionista está aí para adequar a realidade e a necessidade de cada cliente/paciente. Acredito que o segredo para reeducação alimentar que “caiba no seu bolso” é procurar consumir alimentos naturais e nas suas substituições, como, por exemplo, trocar peixes que são caros como o salmão por outro mais em conta, como cação e merluza e também procurar alimentos da estação, que além de serem mais saborosos, são saudáveis e mais baratos.

Percebemos uma relação ruim das pessoas com o próprio corpo, muitas vezes. A auto-estima não deve estar associada à balança, mas a saúde está. Como você vê isso?

Percebo que a maioria das pessoas, que não conseguem ter uma autoestima boa geralmente trabalham com extremismos e imediatismo. Quando a pessoa ama a si mesmo, ela enxerga o que ela realmente precisa ou melhor o que seu corpo necessita.
A auto-estima elevada faz com que a pessoa tenha confiança e determinação, dois fatores fundamentais para quem quer ter qualidade de vida. Reeducação alimentar é um processo lento, que envolve muito mais do que um simples número na balança. A alimentação não é para ser vista como uma “válvula de escape”, é preciso reaprender, reajustar e redefinir a relação com a alimentação. Permitir-se comer de tudo, sem exageros e principalmente, sem culpa! É justamente o equilíbrio que nosso corpo precisa.

Pá-pum
Um alimento delícia: aquele que você com vontade de comer.
Um alimento funcional: Frutas cítricas.
Comer é… essencial, prazeroso.
Uma música para eu incluir na minha playlist: Happy, do Pharrell Williams.
Um alimento para eu incluir na minha dieta: alimentos integrais.
Palavra para reflexão: Moderação.

Não falei que a entrevista ia ser nutritiva e saborosa? Até semana que vem e bon appétit!

PS: Você pode encontrá-la no e-mail julianabrant.nutri@yahoo.com.br, no Instagram @JulianaBrantNutricionista e no Facebook.com/Nutricionista-Juliana-Brant. CRN 9-16157.

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Entrevista: Lia Oliveira, corredora

Continuando a série de entrevistas, apresento a vocês Lia Oliveira!

Lia Oliveira

Eu comecei a realizar um certo projeto mega importante pra mim e fui presenteado com a amizade dela! Afinidade desde o primeiro milésimo de segundo! Ela é determinada, ativa, bem humorada, ativa, mãe, ativa, profissional, ativa, corredora, ativa, profissional, ativa, ciclista, ativa, realizadora, ativa… e tantas outras coisas e muito mais ativa do que qualquer um de vocês possa supor. Ela não é a pilha Duracell do coelhinho do comercial. Ela é a fonte de energia de todas as pilhas Duracell já produzidas e que ainda serão produzidas. E o melhor, ela é mega generosa pois compartilha esse bem estar com todos, irradia inspiração, então, inspirem-se!

Perfil
Eliana Maria da Silva Oliveira, Lia, 57 anos, São Paulo, Secretária de Diretoria.

Pratica corrida há quanto tempo?

Há 14 anos.

Como foi o despertar para a corrida?

Na realidade eu já era velocista e representava a empresa nos Jogos Publicitários onde conquistei 12 medalhas de ouro, 3 de prata e 3 de Bronze. Nas modalidades 50, 100 e 200 metros, conheci uma pessoa da empresa Ricardo Krausz, hoje meu namorado que me incentivou a praticar corridas de rua de longa distância, então, hoje faço, 21 km, 10 km, 8 km, 5 km, depende.

Praticou ou pratica outros esportes?

Sim, a minha primeira paixão é a bicicleta, que sempre que posso faço as minhas pedalas. Pedalo à noite também; inclusive venho trabalhar de vez em quando de bicileta. Já pratiquei capoeira, já fiz dança Jazz, já patinei, Muay Thai.

Teve dificuldades para se tornar assídua na corrida?

Nenhuma, muito pelo contrário, me apaixonei assim que comecei a praticar.

Como foi o processo de começar a correr (desde caminhada rápida até correr uma prova)? Quais os pensamentos e sentimentos no processo?

Kkk! Muito desafiador, aliás adoro desafios, sou meio competitiva, mas nada muito sério kkkk, na realidade nunca fui de fazer muita caminhada, não tenho muito paciência! Já fui direto nos trotes, até porque como eu já pedalava, eu já possuía uma certo condicionamento.

Que hora costuma treinar? Por que?

Hoje , faço meus treinos pela manhã, começo às 6h e vou até às 7h30 ou 8h, depende! Mas quando não posso ir pela manhã, vou na hora do meu almoço, já que tenho duas horas e sempre dá tempo.

Faz parte de algum grupo de corrida?

Treino com o pessoal da AABB – Associação Atlética do Banco do Brasil.

Como é estar se formando personal running?

Ainda preciso terminar o meu Bacharelado, e se Deus quiser, retorno aos meus estudos neste ano. Mas, treino com umas meninas e dou dicas de corrida, até porque já faço isso há muito anos.

Quais as dificuldades das pessoas?

É aprender a respirar corretamente.

Como trabalha isso com elas?

Correndo junto, ditando um ritmo.

Você tem um dia a dia muito intenso, como é sair pra correr num sábado à noite numa prova de rua, após uma semana (e um sábado) intensos?

Sem problemas, quando você gosta do que faz, nem pensa em cansaço. (Nota do entrevistador: Quando eu conheci a Lia, ela tinha trabalhado na sexta, passou a noite no sambódromo assistindo ao desfile das escolas campeãs, e ainda estava no maior pique no sábado o dia inteiro).

Como é a relação com o tempo nas corridas de rua (sol, chuva, calor, frio, dia, noite)?

Quem corre, não liga para o clima!!!

Tem algum alimento não saudável que você ama e não abre mão?

O pão! Amo pão, café ..

E alimento saudável?

Muitas frutas, verduras, quando tenho corrida, um macarrãozinho! Fibras… E adoro mel.

E sobre o quesito bebidas?

Alcoólicas? Kkkkk Quando tem corrida no dia seguinte, esquece. Muita água.

Usa algum aplicativo e/ou tecnologia para te ajudar na corrida? Por que?

Nenhum, não sou muita adepta, eu mesma faço meus cálculos.

E sobre música nos treinos e nas corridas, o que gosta de ouvir?

Não curto, acredito que tiram a atenção dos movimentos e acho meio perigoso correr sem escutar o que está acontecendo a sua volta.

Faz corrida indoor?

Não gosto. Gosto de rua, quem quer correr na rua, tem que treinar na rua.

O que mudou na sua vida depois que começou a correr?

Ficou corrida!!!! Kkkkk Eu sempre fui muito comunicativa, e correndo você faz muitas amizades. Eu acredito que consegui aumentar meu ciclo de amizades, porque com relação à saúde, eu sempre fiz esporte, então não senti muito diferença., Tenho 57 anos e não tomo nenhum medicamentos, então, praticar esporte é tudo de bom mesmo!!!!

Percebemos uma relação ruim das pessoas com o próprio corpo, muitas vezes. A auto-estima não deve estar associada à balança, mas a saúde está. Como você vê isso?

Eu acredito que as pessoas que não se cuidam, não se gostam, para começar a fazer algo com o seu corpo, com a sua saúde, a pessoa tem que se gostar em primeiro lugar. Sempre tive muito medo de ficar doente, travada em uma cama, obesa, pois a pessoa que não cuida do seu corpo, tem muitos problemas, então sempre digo: procure ajuda, psicólogos, nutricionista, um educador físico, procure ler bastante sobre atividades físicas, o quão é bom cuidar do corpo e sentir bem.

Pá-pum
Do que você sai correndo? De gente ruim.
Para o que/quem você sai correndo? Para o amor.
Lugar/prova que sonha correr? Paris.
Melhor amigo do corredor? O tênis, que tem que vestir como uma luva.
E o melhor amigo corredor? Meu namorado Ricardo Krausz.
Correr é… liberdade.
Música para eu incluir na minha playlist? Dos pássaros.
Alimento para eu incluir na minha dieta? Só se for a perseverança
Palavra para reflexão: amar.

Não falei que ela transpira inspiração? Bon appétit e até semana que vem, com mais uma entrevista nutritiva!

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Entrevista: Juliana Esgalha, corredora

Começando a nossa série de entrevistas, apresento Juliana Esgalha!

Juliana Esgalha

Ela é minha amiga virtual há mais de uma década, conheci através de amigos em comum, na época em que surgiram os blogs. Autora do blog mais tudo de bom da internet, Miss American Pie (no link www.shejulis.com), ela é fã de Amelie Poulain, leitora inveterada de vários tipos de livros, possui alma viajante e corredora. Nos conhecemos pessoalmente em 2012, quando ela me encontrou no meio da pista do show da Madonna (ambos amamos a cantora!). Descobri pela entrevista que ela não abre mão da mesma bebida que eu. Já entenderam que sou fã da Jubalinha, né? Então, inspirem-se!

Perfil
Juliana Esgalha, 37 anos, São Caetano do Sul.

Pratica corrida há quanto tempo?

Comecei a correr há mais ou menos um ano e alguns meses.

Como foi o despertar para a corrida?

Voltei para a academia, mas queria algo a mais além da musculação, queria perder peso e melhorar minha ansiedade (tenho TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada) e por orientação do professor comecei a intensificar mais no aeróbico, como não gosto de bicicleta ergométrica, comecei a correr na esteira.

Praticou ou pratica outros esportes?

Já tentei natação, mas enjoei de fazer logo no primeiro mês, ficar nadando de um lado pro outro da piscina não é pra mim. Faço musculação pra fortalecimento, o que na corrida é indispensável.

Teve dificuldades para se tornar assídua na corrida? Tem algum mimimi interno? Como vence?

Sinceramente não tive, a corrida costuma dar resultados rápidos que você percebe entre uma corrida e outra, então acho que isso é uma grande motivação e desde que participei na minha primeira corrida de rua, não consegui mais parar. Meu único mimimi interno ainda é sair da cama bem cedo pra correr, mas acredito que isso acontece com a maioria dos corredores ehehehe.

Como foi incluir a corrida na rotina?

Foi o mais gradual possível, desde o começo, por tudo que andei lendo a respeito, sempre tive consciência que não adianta querer grandes resultados de um dia pro outro, é literalmente um passo de cada vez, então sempre tiro de 2 a 3 dias na semana pra correr e respeito os dias de descanso pra não estafar o corpo, além do que, tenho meu marido como companhia então acho que isso ajuda bastante.

Como foi o processo de começar a correr (desde caminhada rápida até correr uma prova)? Quais os pensamentos e sentimentos no processo?

Comecei na esteira da academia. Corria 1 minuto, caminhava 2 e aos poucos fui aumentando isso, até que um dia resolvi correr 5k na esteira num pace beeem confortável (que hoje faço caminhando) e consegui, meu sentimento no começo era que eu não ia passar daquilo, mas conforme foi acontecendo percebi que cada vez mais eu estava melhor e que sempre podia mais, daí comecei a pegar o gosto.

Que hora costuma treinar? Por que?

Geralmente à noite porque é o horário que tenho mais tempo, não gosto de acordar cedo e sinto que à noite rendo melhor com exercícios.

Faz parte de algum grupo de corrida?

Sim, da Equipe Viva (página no Facebook, clique aqui).

No que o grupo te ajuda?

Em muitas coisas, treinos, dicas de alimentação, dias e dicas de corrida, além das corridas, há os treinos que são ótimos também… Fiz muitos amigos nessa equipe e acho que a motivação entre a gente é o que mais me ajuda, ali não importa o seu pace ou o quanto de quilômetros você corre, o objetivo é comum: vencer o sedentarismo.

As pessoas encontram dificuldades? Que tipo? Como superam?

Acredito que todo mundo tenha alguma dificuldade, pode ser emocional como o medo de não conseguir, ou até mesmo uma física por alguma lesão, acredito que pra superar é ter paciência, pensamento positivo, persistir e não desistir.

Como é participar de várias provas? Em dia de sol, chuva, frio…

Eu amo provas de corrida porque literalmente todo mundo se incentiva no momento da corrida, é muito comum você ver algum desconhecido falando pro outro: “ei não desiste, vamos lá, você consegue”, “eu vou com você até o final, vamos terminar juntos” e eu acho essa empatia incrível entre as pessoas porque muitas vezes que eu também estava cansada, alguém que eu não conheço ou até mesmo algum amigo correndo junto comigo me incentivou e eu consegui. Então eu procuro fazer sempre o mesmo quando no caminho vejo alguém muito cansado, e incentivar mais ainda os que estão a minha volta, é como se fosse uma corrente do bem motivacional. Não gosto de correr em dias quentes, o sol me judia bastante então é raro eu me inscrever em provas quando acontecem no auge do verão, mas correr na chuva é uma delícia – é como se lavasse a alma, no frio também é muito gostoso, a disposição é muito melhor.

Tem algum alimento não saudável que você ama e não abre mão?

Chocolate é meu grande vício e honestamente não consigo abrir mão, porém, consegui diminuir bastante na quantidade e hoje sou mais comedida, não exagero mas também não passo vontade.

E alimento saudável?

Tem um monte, recomendo muito qualquer tipo de legume e frutas, em dias de corrida como mais carboidratos no almoço, mas evito comer depois das 18 horas e fico mais nos legumes e proteínas.

Tem alguma bebida que não abre mão? Boa ou ruim?

Não vejo como vilã, embora muita gente veja, mas não abro mão do leite.

Usa algum aplicativo e/ou tecnologia para te ajudar na corrida? Por que?

Sim, o relógio Garmin que é sincronizado com o aplicativo Nike Run, acho muito importante ter um relógio de corrida que marque tempo, pace e frequência cardíaca porque isso ajuda muito a controlar a passada e a respiração durante uma corrida e com isso a qualidade do corredor melhora.

E sobre música nos treinos e nas corridas, o que gosta de ouvir?

Eu não sou muito de ouvir músicas nem nos treinos e nem nas corridas, no começo eu só corria com música, mas pra mim me atrapalhava um pouco porque eu não prestava muita atenção na minha respiração e isso é um quesito muito importante pra quem corre, mesmo assim eu tenho uma playlist para corrida no Spotify, que uso as vezes quando corro na esteira ou naqueles dias em que saio pra correr sem me preocupar com tempo.

Faz corrida indoor? Qual a diferença pra corrida na rua? Dentro de você, quais as suas sensações?

Só quando preciso fazer treinos de tiro, odeio correr na esteira ehehehe, fico entediada rápido… Pra mim o tempo não passa. Na rua é muito melhor porque tem mais vento, a paisagem muda e principalmente o percurso, a rua é sempre diferente da esteira.

O que mudou na sua vida depois que começou a correr?

Mudou muita coisa pois, pela primeira vez na minha vida, eu me encontrei em um esporte que faço porque eu realmente gosto. No meu físico eu perdi os quilos que queria, tenho muito mais resistência e disposição que não tinha antes, na parte emocional tem me ajudado muito com minha ansiedade, quando termino de correr sinto uma paz e um alívio enorme, mesmo cansada fisicamente (o cansaço gostoso que costumo dizer), é como se eu limpasse de mim tudo de ruim que estava no meu corpo e mente.

Percebemos uma relação ruim das pessoas com o próprio corpo, muitas vezes. A auto-estima não deve estar associada à balança, mas a saúde está. Como você vê isso?

Eu penso em que em primeiro lugar não importa se você é magro ou gordo, se você tem pernas curtas ou compridas pra correr! Basta querer… É óbvio que uma pessoa acima do peso não vai conseguir correr como um maratonista, mas consegue sim correr e completar, é isso que importa, o desafio não é com as outras pessoas, é com você mesmo e é por esse motivo também que eu amo correr. Pra mim a saúde não vem do tamanho do manequim que você veste, mas sim do que você come e seus hábitos do dia a dia (se você fuma, bebe demais… essas coisas) e é isso que as pessoas precisam ter consciência. Afinal tem muito magro que vive de fast food e isso nem de longe é ser saudável, não é? Conhecer o seu corpo, seus limites, se aceitar e se respeitar é o equilíbrio de tudo.

Pá-pum
Do que você sai correndo? De gente que só reclama, não tenho paciência com gente negativa.
Para o que/quem você sai correndo? Corro pra ter uma vida mais saudável fisicamente e emocionalmente, e saio correndo com meu marido – SEMPRE corremos juntos… Ele me ajudou e eu ajudei ele a correr melhor então pra mim, é a minha melhor companhia e incentivo.
Lugar/prova que sonha correr? Meu sonho é fazer uma meia maratona em Londres <3
Melhor amigo(a) do corredor? Um tênis com a pisada certa pro seu tipo de pé (tem lojas que fazem o teste de pisada grátis, a minha pisada é pronada) e um relógio de corrida.
E o melhor amigo corredor? Com certeza meu marido, pois treinamos juntos. E quando um não está a fim, o outro acaba puxando, é muito bom isso.
Correr é… um vício e que só vou parar quando realmente não tiver mais condições físicas de correr
Música para eu incluir na minha playlist? Runaway – Galantis
Alimento para eu incluir na minha dieta? Brócolis e frango
Um tema para reflexão: correr é se encontrar e descobrir que você sempre pode mais

Eu disse que ela era tudo! Bon appétit e até semana que vem!

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Que saudades eu estava do blog! Um mês e meio longe! Foi um misto de férias com processo interno. Por um lado foi um período de grande desenvolvimento, de envolvimento com um projeto muito antigo, que futuramente falarei dele.

O título desse post é de uma música (veja a letra aqui). Quantas vezes nos sentimos amarrados, presos, caídos?

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O tempo passa, o motivo que nos prende já passou, mas ainda estamos agarrados à atitude, à postura, ao hábito. O mundo psicológico e emocional fervilha, e toda vez que está muito quente internamente, um vulcão entra em erupção e destrói muita coisa. Isso é fruto de um complexo que foi ativado, constelado. Às vezes rejeitamos algo justamente porque aquilo tem a ver com a gente e não nos damos conta, e renegando algo estaríamos numa tentativa de expulsar aquilo que odiamos em nós. É a tal da projeção. Eu não curto muito a música que falei acima. Mas ela aborda algo que é um aspecto sombrio, pelo menos em mim.

Temos a tendência a varrer a poeira pra baixo do tapete quando o assunto é nossa sombra. Não nos damos conta, não buscamos conhecer, e podemos sucumbir a ela. A música fala de um relacionamento onde o eu lírico entrou em submissão, esquecendo que também tinha coisas boas a oferecer, ficando dependente e venerando o parceiro.

Já vivi um relacionamento muito nocivo assim, justamente na época que essa música foi lançada. Esse é um casamento propriamente dito. Mas com quantas coisas ou pessoas nos “casamos” e deixamos de ser quem somos? “Casamos” com diplomas, títulos, empregos, sócios (nesse item eu sofri!!), amigos, inimigos, familiares, situações familiares… Nos agarramos a isso e não mudamos. Ou achamos que estamos errados e o que o outro sabe e nos diz é melhor para a gente ou esperamos que a solução de tal coisa/situação nos liberte para seguirmos rumo ao que sabemos que queremos, mas não temos coragem de buscar – e essa espera pode ser eterna. Claro que isso não acontece com todo mundo. Mas com quem acontece é uma experiência muito ruim, podendo ser (auto)destruidora.

Quando não sabemos ao certo quem somos, ou nem buscamos saber, vamos nos moldando, nos adaptando àquilo que o outro diz ou acha que somos. Se não sabemos o que pedir do cardápio, e deixamos o outro nos dizer o que comer, corremos o risco de comer testículos de boi.

Com o passar do tempo, ou sucumbimos a isso, desperdiçando o viver, ou o chamado interno irrompe e nos leva à mudança de paradigmas e atitudes. Buscamos coisas que nos dão prazer. Que nos levam ao sentimento de auto-realização. E é preciso flexibilidade.

Madonna - X-static pro=cess - fonte: Google Imagens

Muita flexibilidade.

Madonna - X-static pro=cess - fonte: Google Imagens

Essas fotos fazem parte da intervenção X-STaTIC PRO=CeSS, de 2003, de Steven Klein e Madonna, que leva o título da canção da cantora. Nunca gostei muito das fotos. Elas são cruas, em local feio. Mas é preciso flexibilidade para lidar com a sombra. Com aquilo que nos prende. As fotos e as músicas estavam me dando um recado, mas eu não havia me dado conta. Justamente porque não queria lidar com a aridez interna. São feridas áridas. Oi?! Metáfora esquisita. Mas é lidar com a crueza interna, com o local feio interno. Com a sombra.

Fazer as pazes consigo é buscar o mito do significado, dar ouvido ao chamado interno, fazer aquilo que gostamos, ou que sempre quisemos fazer mas não tivemos coragem, ou até mesmo fazer a correção do desvio de rota ocasionado pela vida. E é preciso flexibilidade, porque sei lá, de repente não é todo mundo que consegue fazer uma mudança de 180 graus do dia pra noite, nem de um mês para o outro.

Estava me referindo até agora ao quesito profissional, mas vou me dirigir agora para o quesito reeducação alimentar e adesão à atividade física.

Sempre bato na mesma tecla aqui: a auto-estima não deve depender do peso, mas a saúde depende do peso. E sempre falo também que comer pode ser um vício, e deve ser encarado como tal. Um alcoolista que frequenta os Alcoólicos Anônimos sabe que quando ele for numa festa, não deve beber, e que os familiares e amigos devem estar atentos para que a bebida não esteja presente, ainda mais no início da recuperação.

Recentemente uma amiga muito querida me marcou  numa publicação do Facebook que levava a um artigo muito interessante, que falava sobre a beleza do corpo, e mencionava um outro blog tratando do assunto. Não compartilhei na minha página porque um detalhe do texto vai contra tudo o que sempre digo. Não estou sendo rígido, apenas acho que quando o assunto é comunicação, uma frase pode ter um ruído e causar um dano imensurável. Ela e eu fizemos uma boa reflexão a respeito. Ela é uma querida.

O texto debatia a questão do peso, da auto-estima e tal. A certas tantas diz que as pessoas entram numa neura e levam para o restaurante um pote com comida fria e sem cor e não participam do evento. Isso me tomou de um jeito!

Caramba, com o alcoolista não tem todo um cuidado? Com o adicto também não tem todo um cuidado? Por que com o viciado em comida não tem? Mesmo que seja um cara saradão ou uma moça trincada, qual o problema? Por que deve colocar pra dentro uma comida que não fará bem? Apenas para ser sociável? Esse argumento não me convence. Imagine você chegando numa festa com cocaína passando na bandeja de prata. Se você nunca experimentou ou se não é a sua, você faria só porque todos estão fazendo? Provavelmente não. Por que com comida tem que ser diferente? No caso de obesos em processo de emagrecimento (ou manutenção do preso saudável) e até mesmo dos magros também não pode ser diferente.

Lembra que eu estava falando justamente do processo estático? Se ficarmos estáticos, esperando que os outros nos digam o que fazer, comer, pensar, vamos entrar na onda, mesmo que aquilo não nos faça bem, seja cocaína ou alimento não saudável. O cara fica meses lutando, buscando resultado, se exercitando, comendo brócolis e vem a frase “mas uma vez só não faz mal”. “Um gole só não faz mal. Uma cheirada só não faz mal. Um trago só não faz mal”: não é o que dizem antes do estrago da recaída?

Já tive meu momento de revolta em alguns posts sobre esse assunto. Mas hoje o tema é a clareza com que vejo como me maltratei. E que agora, tudo depende de mim. Pra buscar o projeto do passado. Para realizar todos os projetos no presente.

Vamos que vamos, e bon appétit para mim!

PS: A partir da semana que vem trarei uma série de três entrevistas com três lindas inspiradoras.


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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E o Oscar vai para…

“E o Oscar vai para…”  Ontem foi dia de Oscar. Entrando no clima, e se algumas das dificuldades da dieta fossem temas de filmes? Quais os enredos? Categorias? Títulos?

  • Pop-Rocky – o lutador. Drama. João era um rapaz dedicado em sua dieta, comia regradamente e treinava vigorosamente, todos os dias. Sua saga começa na academia, enfrentando as gangues dos anabolizantes.
  • Viva voz. Ficção. Carol, moça com porte atlético e muito musculosa, enfrenta bullying por causa de sua voz de pato, e inicia luta para tentar provar que não usou nenhuma substância.
  • À espera de um milagre. Drama. John, na tentativa desesperada de emagrecer, começa a seguir uma blogueira fitness muito alto astral, que não prescreve dieta nem treino, mas usa suplementos que para ela deram super certo. Dois anos depois, John está na fila de transplante de rim, pois os suplementos sem orientação nutricional lhe causaram falência renal.
  • O diário de Neide Jones. Comédia dramática. Neide é uma gordinha despachada, que vive enfrentando o efeito sanfona, e toda vez que está em dieta sua família lhe apresenta os mais variados quitutes nos almoços de domingo. Mas nem tudo são risadas: Neide enfrenta hipertensão e pré-diabetes, e na tentativa de emagrecer passa primeiro pela bulimia e depois pela anorexia.
  • Fazer dieta no domingo. Drama romântico. Jorginho decidiu mudar de vida ao se deparar com um quadro de obesidade e lutou para emagrecer 36kg. Durante o processo de reeducação alimentar, Jorginho conhece Salvia no consultório do nutricionista. Salvia está em acompanhamento pós cirurgia bariátrica. Ambos se deparam com o desafio de não fazer o dia do lixo, pois sabem que é prejudicial. Lançam o desafio um ao outro: fazer dieta no domingo, e assim começa uma linda história de amor e superação.

E o Oscar vai para… Fazer dieta no domingo! Palmas, palmas e mais palmas!

E o Oscar vai para fazer dieta no domingo - Fonte: Facebook

Quantas vezes representamos vários papéis? E para quem representamos? A quem tentamos enganar? O prêmio, às vezes, não é o Oscar de melhor interpretação, mas a Framboesa de Ouro, que é o prêmio para a pior interpretação. Só enganamos a nós mesmos, como a moça que é obesa e diante dos outros só come pouquinho e afirma “não sei porque sou gorda…”, mas na verdade, come e muito, mas escondida. Vamos enfrentar as dificuldades, seja a dieta no domingo, seja o efeito sanfona, ou a preguiça de fazer atividade física. Conhecer a dificuldade e ser consciente dela já é meio caminho andado para a superação.

Bora vencer mais uma semana e o próximo domingão?! Bon appétit!


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“Por que fazer?” x “e por que não fazer?”

Refletindo sobre o tema do post da semana passada, que abordava o mito de significado (aquele sentido que damos para a nossa vida), me deparei com a confrontação entre “por que fazer algo?” x “e por que não fazer algo?”. Estamos tão habituados com a primeira pergunta que nos esquecemos da segunda.

Por que não? Fonte: Google Imagens

Explico melhor, inclusive dentro do contexto do blog, e ainda citando duas frases de duas letras de músicas de Renato Russo e sua Legião Urbana:

  1. “Disciplina é liberdade” (Há tempos);
  2. “Tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos” (Daniel na cova dos leões).

Quantas vezes almejamos algo e desistimos? Ou mesmo não sabemos a que almejar? A falta de autoconhecimento nos leva a não saber o que desejamos. Fazemos por fazer, e se for agradável, nem nos perguntamos se era isso mesmo o que queríamos fazer. Apenas fazemos. Vamos com a onda, como dizem.

Sair desse movimento de ir com a boiada exige que olhemos para nós, olhemos para dentro, que prestemos atenção naquilo que gostamos, nos nossos interesses – em todos eles. O trabalho é apenas uma das parcelas que compõem a auto-realização. Fazer algo por fazer, se sentir bem por isso é uma coisa. Mas fazer algo que tem a ver com você, que é uma espécie de chamado, que faz do ofício quase um sacerdócio, como diria James Hillman no livro O código do ser, traz um prazer maior ainda, um bônus na auto-realização. É libertador.

Só que pra gente fazer aquilo que gosta tem que ter disciplina. Bem sabem os que se dedicam ao emagrecimento e à manutenção do peso saudável. O difícil não é só a atividade física; é também a reeducação alimentar (super disciplinadora também!) e as mudanças psicológicas no decorrer do processo.

Pra buscar um objetivo precisamos de disciplina; um curso tem como requisito a presença (mesmo que virtual, você deve estar presente na frente do seu computador). Tem que ter dedicação. Mas o peso que as palavras disciplina e dedicação trazem são anulados quando sabemos que estamos fazendo aquilo porque nos dá prazer.

Mas e se eu não quero? Vai de cada um esse despertar. Eu sugiro o autoconhecimento para saber o que gosta e o que não gosta. “Mas o que eu quero não dá dinheiro!”. Tem profissões que realmente trazem menos retorno financeiro. Mas aí entra de novo a disciplina. Quando amamos algo, a disciplina não é pesada. É fato que precisamos nos organizar, saber fazer a gestão da carreira, e esse aprendizado vem com a prática.

Vamos substituir as palavras do parágrafo anterior? Quando estamos curtindo emagrecer, a disciplina não é pesada, e precisamos nos organizar e fazer a gestão do processo, e o aprendizado e as conquistas vêm com a prática.

A preguiça em se conhecer, em escutar o chamado que vem de dentro é fazer da vida um barco a motor no qual insistimos em usar os remos. É não aproveitar o que o mundão sem porteira tem a nos oferecer.

Então alguém pergunta e justifica: “por que emagrecer? Estou bem assim, resolvo um problema de saúde aqui, outro ali, nada muito gritante”. Eu pergunto: “e por que não emagrecer? Diante de todos os benefícios e bem estar que o emagrecimento saudável traz, por que não?”.

Novamente levando para o contexto profissional, “por que estudar? Dá trabalho ir até a escola, dá preguiça, eu me conheço e sei que prefiro ficar aqui em casa”. Mas então nem mencione essa insatisfação que é nítida e que insiste em não falar porque sabe que vai mexer nessa ferida! Mas eu pergunto: “e por que não fazer? Só porque você não se conhece!? Olhe para seus interesses. Os programas de TV que assiste falam de que? Os livros e revistas que procura são sobre que assunto? Que sites você acessa?”. Já é um passo para começar a descobrir de que lado vem aquela voz baixinha do chamado.

É como diz outra música da Legião Urbana: “não é a vida como está e sim as coisas como são” (Meninos e Meninas). Você pode ignorar o desconforto, dizendo que a vida está assim ou assada. Mas você está fazendo a vida ser assim. Virar a mesa requer consciência, não pode ser imprudente, é com planejamento. Mas por que não se libertar das amarras, sejam elas profissionais ou corporais?

Se ainda assim constatar que não faz algo porque está bom assim e não tem prazer na vida, cuidado! Pode ser um quadro depressivo, e um psicólogo ou psiquiatra podem ser consultados. O remédio vai ajudar na bioquímica, e a terapia vai ajudar no sentido da vida. Quantos e quantos pacientes não entram em um quadro depressivo pois não encontra sentido para a vida? Qualidade de vida é inclusive saber o sentido da vida. E isso é muito bom, te garanto!

Como o post da semana passada me levou numa viagem no tempo, lembrei que estamos 20 anos sem Renato Russo. E essa foi minha forma de dizer que sinto a falta dele.

Boa semana e bon appétit!


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Sobre passado presente, mito de significado, sentido interno e sentido externo

Sabemos que as rugas no rosto são marcas de uma vida. Contra as rugas tem toda a cosmetologia e as especialidades médicas da dermatologia e da cirurgia plástica. Mais do que a idade, as rugas podem denunciar quanto da sua vida você passou no sol, podem denunciar uma vida triste ou tensa. Mas creio que todo o nosso corpo carrega o nosso passado; a displicência em não tomar água prejudica os rins, alimentação gordurosa causa obesidade e colesterol, uma vida sedentária dificulta ao idoso inclusive usar o banheiro.

Mas o que mais faz o nosso passado tão presente? E não falo do saudosismo, da nostalgia. Falo daquelas coisas com as quais não conseguimos nos conciliar ao decorrer dos anos.

Carl Jung nos fala sobre o mito do significado, ou seja, aquele motivo de estarmos aqui. Viver adquire um sentido. O sentido da nossa existência às vezes nem é tão abnegado quanto o da Madre Teresa, aliás, tem gente que o mito de significado é ser do contra, só pra abalar as estruturas gerais e enquanto sociedade pensarmos as coisas sob um novo ponto de vista.

E o passado fica tão presente, ali, escondido, martelando. Quantas vezes abrimos mão das coisas por termos que nos envolver com outras? Abrimos mão da academia porque temos que trabalhar e cuidar da casa. Abrimos mão de um curso porque o dinheiro da mensalidade vai fazer falta na educação dos filhos. Abrimos mão dos sonhos, desejos e – por que não – chamado/vocação. Achamos que é bobeira, que não é pra gente.

Terapia - Fonte: Compartilhamento no Facebook

 

Na imagem acima vemos um terapeuta podando os galhos no discurso do paciente. Peraí, são galhos ou RAÍZES? Prefiro achar que são raízes, nossa origem. Na imagem vemos o profissional ajustando, podando, redimensionando.

Redimensionar é uma boa palavra. Enquanto pacientes, clientes ou analisandos (cada um vai usar um nome pro mesmo cara, dependendo da abordagem terapêutica) trazemos nosso discurso, nossas impressões sobre um fato, seja uma impressão real, inventada, distorcida ou falseada. Quantas vezes não achamos que uma coisa é gigante e depois percebemos que não era tão grande assim… É disso que estou falando. Das coisas que a gente encasqueta.

Criando paranoia - Fonte: compartilhamento no Facebook

No senso comum, o pessoal chama de “paranoia”, mas o termo técnico não é este. Vamos chamar de complexo. Mas usei o desenho porque achei fofo #soufofo #fuifeitopracasar.

O complexo tem uma carga afetiva, algo muito forte que nos aconteceu e desencadeia toda uma forma de nos comportarmos diante de algumas situações, ou até mesmo diante da vida. Quando a gente se deparara com uma situação específica, que é tipo a pedra no sapato, vem algo que toma a gente, que praticamente nos cega, e faz a gente agir de uma forma explosiva, por exemplo. Ou até mesmo recuar, numa passividade patológica, e na temática deste blog, comer compulsivamente. São inúmeras as situações e reações.

Você já parou pra pensar quais aspectos seus você não deu conta de elaborar? Aquelas coisas internas que não conseguiu fazer as pazes? Os nós que não conseguiu desatar? As coisas que deixou pra trás? Dizem que é melhor se arrepender de ter feito do que não ter feito; fez as pazes consigo por ter deixado de fazer coisas que queria? E já se perguntou como isso reflete nos dias de hoje? Como isso reflete no seu corpo? Seria possível fazer hoje em dia o que deixou de fazer? Por que não? Por que sim?

Como diz o nome do livro, o corpo fala. As costas encurvadas podem demonstrar uma pessoa que carrega o peso do mundo nas costas, ou uma pessoa retraída, triste. São muitas coisas que somos e passamos que repercutem no nosso corpo. Pessoas de comportamento rígido, inflexível, podem ter dificuldade em se alongar. São muitas coisas que podemos refletir na nossa vida a partir da nossa postura corporal. Então não são só as rugas que carregam as marcas da nossa história. Nosso corpo também.

Quando recorremos à literatura psicológica pra procurar entender a história de cada um relacionada à obesidade (aspectos psicossomáticos), quase que na maioria das vezes nos deparamos apenas com o cenário feminino da obesidade. Prometo que um dia discorro mais a fundo sobre isso, e buscando apresentar também as questões masculinas da obesidade.

Mas este post tem a ver com o resgate daquilo que somos. Daquilo que viemos fazer no mundo. Falando assim parece um compromisso sério, né? Parece até compromisso religioso. Mas é um compromisso sério! Com nosso Self, a parte da nossa personalidade que é nossa essência, o centro da nossa personalidade, e a totalidade da personalidade ao mesmo tempo. Então no Self está nossa vocação, nosso chamado, toda a nossa potencialidade. Independe se é no mundo da música ou se é fazendo parte de uma ONG de poços artesianos na África.

Todas as profissões são nobres. Mesmo as chamadas mais operacionais. Todas fazem parte de uma engrenagem maior que é o mundo. É uma inter-relação. Um centro cirúrgico sem a equipe da limpeza estraga todo o trabalho do mais nobre cirurgião, colocando em risco sério de infecção todo paciente.

As reflexões sobre os processos da vida não surgem apenas psicoterapia e com leituras de livros de Filosofia; surgem também na arte, na conversa de elevador, escolhendo maçã na feira. É estar atento para o nosso próprio interior, no dia a dia, como somos em cada situação, é a busca pela auto-consciência.

É buscar dar um sentido na razão de não termos conseguido aquele emprego: seria a melhor opção?; ali desenvolveria toda a minha potencialidade?; ali seria a melhor oportunidade para o meu aprendizado? É buscar um sentido para aquele período que ficamos de cama num quadro gripal: por que precisei ficar parado, por que meu corpo, inconscientemente, me fez ficar de molho? E assim os questionamentos prosseguem.

Quem nos dá uma preciosa dica é James Hillman, no livro O Código do Ser, que aborda justamente o sentido da vida. A dica é olhar a vida de trás pra frente: se olharmos agora para uma coisa que não conseguimos, lá atrás, vamos entender que outra coisa se desenrolou e tivemos um aprendizado nisso. A dica vale também para pensar nas conquistas, nos acontecimentos bons.

Então, qual o sentido da obesidade na minha vida? Qual o sentido do efeito sanfona? O que a minha obesidade tem a ver com a minha vocação, o meu chamado? O que posso desenvolver enquanto qualidades? Qual a força preciso desenvolver pra virar a mesa?

A obesidade pode nos deixar mais letárgicos, com dificuldade de correr atrás de algumas coisas. Ficar em casa comendo é não sair para conquistar as coisas no mundo. Vários autores consideram a obesidade um escudo, uma barreira, uma muralha que nos impede de nos relacionarmos. Podemos mencionar exemplos no contexto da sensualidade (a pessoa teria dificuldades em lidar com a sensualidade e engordaria), das relações interpessoais (o obeso nem sempre iria a todos os eventos sociais ou mesmo adotaria uma postura de engraçado, nem sempre levado a sério), ou das relações profissionais (falei semana passada sobre a rejeição velada nos processos seletivos). Ah, mas então o lance é emagrecer pra se adaptar? Não estou dizendo isto. É algo amplo e muito peculiar de cada um pra discutir num post, por isso quero abordar esses aspectos futuramente. Mas meu ponto de vista é sobretudo a saúde do corpo magro, e não sobre padrão de beleza imposto pela mídia.

Voltando ao nosso mito de significado, o motivo da nossa existência. O que nos dá prazer em realizar? Em conquistar? Estamos alinhados aos nossos propósitos? E o que falta para alcançá-los? Ah… podemos listar as razões, sejam desculpas sérias ou esfarrapadas. “Não tenho mais idade”, “não tenho dinheiro”, “isso não é pra mim”, “sou fraco”, “tenho que cuidar dos filhos”, etc, etc, etc.

Circula pelo Facebook fotos de idosos que se formam em cursos de nível superior, amputados que fazem musculação, e pegando carona no assunto do momento, adultos com microcefalia que levam uma vida ativa e produtiva. Então, podemos rever nossas desculpas, ou melhor dizendo, nossas amarras, que acredito serem mais fatores internos que externos.

Chegamos então no terceiro item do título do post: sentido interno e sentido externo. Eu que nomeei assim o que quero discutir aqui. Quantas vezes buscamos dar um sentido externo, um sentido visível para os outros, uma coerência (para não parecermos malucos) e vamos nos distanciando daquilo que só faz sentido interno, um sentido para a gente?

Buscar um curso, uma profissão, uma viagem, uma atividade, que sempre desejamos fazer, que só fazia sentido pra gente, mas deixamos para trás porque precisaríamos escrever uma história coerente, com linearidade, para que pareçamos maduros para aqueles que nos rodeiam? No chavão, criamos uma caixa para a gente, e é preciso pensar fora da caixa.

E outra, é normal ter aptidão para diversas coisas, tem até um termo circulando por aí: multipotencialista. Quem aborda bastante isso é o Márcio Caus, confira o vídeo abaixo:

E aí eu te pergunto: você que deixou algo pra trás, que tinha talento (ou um pouco de), e seguiu pra outro caminho, que você manda bem, mas falta algo… Como administrar o talento para coisas tão diferentes? Interesse por áreas tão diferentes? O fio da meada, a meu ver, é compreender que os vários interesses fazem parte. E um não anula o outro, não necessariamente.

Seria o multipotencialista um Puer? Vixi, agora complicou, quem é Puer? Explico neste post aqui. Resumindo o Puer é a figura mitológica da criança, e o Puer Aeternus, a figura da criança eterna, o adulto pueril, que não cresce. Mas a força arquetípica (o melhor aspecto do que ele representa) do Puer é a criatividade, a inovação, o envolvimento com várias coisas.

E aí a gente percebe muita gente fazendo as pazes consigo em aulas de dança, por exemplo. A dança era uma paixão, não virou carreira porque a moça virou executiva; mas com o passar do tempo, inscreveu-se na aula de dança, e não é que a escola faz apresentações públicas? Ali ela se realiza. Mas administrando ainda a outra parte da vida, que ela tanto aprecia por se sentir realizada. O contraponto do Puer é a figura arquetípica do Velho Sábio. E a vida nos exige a criatividade, a iniciativa, a espontaneidade da criança e a sabedoria do Velho. Não é planejar carreira, mas administrar a(s) vocação(ões) e a(s) carreira(s). Vai além de ter um plano B, porque são dois ou três planos A que dão certo, ao mesmo tempo.

Temos também aqueles que se identificam com vários, mas não conseguem se envolver seriamente com nada. Aí temos o aspecto negativo do Puer, a dificuldade com os vínculos. Não se aperfeiçoa em nada (e às vezes tem até o ego inflado). Mas é buscar a sabedoria, e administrar. Isso vem com a reflexão e o amadurecimento, e sobretudo, com o autoconhecimento.

Mas o cardápio de hoje é sobre o resgate de si; a auto-reconciliação. Isso tira um peso dos ombros! E quem sabe, com o passar do tempo, tire também o peso do “pânceps”. Bon Appétit!

PS: deixo aqui, nas entrelinhas, o motivo de ter usado tanto a hashtag #livingforlove no ano passado! Reconciliação com o passado, vivendo por amor. Living for love é uma música. Dá um Google.


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“Bonito burro ou feio inteligente?”

A busca pelo corpo perfeito… O padrão de beleza imposto pela mídia… Duas frases que estão sempre rondando o universo feminino, ainda mais em época de carnaval. Circulam pelos grupos de WhatsApp várias fotos de homens sarados segurando um cachorrinho, com a legenda “cachorrinho lindo”. Sempre defendi o corpo magro por questões de saúde, mas há quem busque a magreza (às vezes patológica) por razões estéticas.

Recentemente comentei que o setor de Recursos Humanos muitas vezes exclui um candidato acima do peso de um processo seletivo, e que isto é um processo velado. Há duas semanas assisti uma entrevista com um DJ que era obeso e que agora é todo saradão, e que disse que após emagrecer as pessoas passaram a confiar mais em seu trabalho, pois como ele é e como ele se veste passa confiança para quem ouve sua música.

Na mesma entrevista perguntaram a ele sobre quem ele iria preferir como parceiro: “feio inteligente ou bonito burro?”.

Parece que conquistar alguém bonito é um troféu. É como se eu, detentor da inteligência máxima suprema, fosse conquistar um burraldo lindo somente para ser meu escravo sexual. A versão feminina – e mais famosa – é a “lôra burra”.

Engajados militantes irão argumentar que importante é a beleza interior. Tá, mas de nada adianta QI e articulação política e filosófica se você morre de um problema cardíaco aos 32 anos por conta da obesidade.

A meu ver, o interessante é integrar as duas coisas. Explico a partir da tirinha abaixo:

Fonte: Google Imagens

O movimento que dissocia corpos musculosos de inteligência talvez seja a inveja. Nem todo feio é inteligente e nem todo bonito é burro. Enquanto sociedade partimos do pré-julgamento, do pré-conceito (aquela pré-concepção que fazemos acerca de algo ou alguém).

Mas isso nada mais é do que projeção. Ok, numa relação interpessoal captamos aspectos inconscientes do outro e vice-versa, daí surgem as antipatias e simpatizações, como bem explicou Carl Jung. Só que julgar pela aparência, rotular uma pessoa apenas pelo peso é complicado e perigoso, além de denunciar uma projeção.

Quando eu faço suposições baseadas em um aspecto, estou inferindo algo baseado em uma experiência anterior ou em uma ideia pré-conceituada minha. E ideia pré-conceituada está usando como referência a minha subjetividade, o meu inconsciente, e por que não dizer, a minha sombra, tudo aquilo que eu não aceito em mim, e escondo lá no fundo, inconscientemente.

Aí eu vejo pessoas criticando quem só exercita músculos. Tá, quem supostamente exercita o cérebro está deixando de exercitar músculos. Não está fazendo a integração men sana in corpore sano também! Mas acha que por compartilhar frases de efeito, piadinhas pseudo-intelectuais e críticas a este ou aquele partido político é o crânio. E transpassa isso no discurso, menosprezando todos os outros.

Ultimamente vejo no Facebook um menosprezo por quem gosta de carnaval, como se ser inteligente fosse apenas gostar de séries do Netflix. Ontem estava assistindo ao telejornal e uma reportagem mostrou os bastidores das escolas de samba, como as pessoas estavam felizes por suas realizações. Antes de mais nada, o carnaval é uma atração turística que traz dinheiro ao Brasil, assim como a bela Torre Eiffel e o Reveillon em Times Square em NY; e o melhor é que no carnaval estão começando a usar penas e plumas artificiais. Tinha um trabalhador na reportagem todo feliz, sorrindo, e quando percebeu que estava sendo filmado, fechou a boca, mas continuou sorrindo. O motivo? Não tinha os dentes da frente. Ele estava feliz pela realização dele! E essa sensação fortalece qualquer ser humano! É o mesmo sentimento de quem finaliza um projeto executivo com sucesso!

Vamos dissecar o carnaval: é um evento anual, e cada escola de samba trabalha em seu desfile por um ano. Ainda na apuração das notas já está definido o tema do próximo ano. Então eles montam projetos (ou jobs?). Cada um faz a sua parte, tem hierarquia, tem diretores, coordenadores. Há disciplina nos ensaios, chamada oral pra saber quem já decorou a letra do samba enredo. Mas surgem os críticos por conta da exposição dos corpos. E pintura e escultura de nus nos museus são de brincadeirinha, são café-com-leite?

Então sabe aquela alegria na festa de fim de ano da empresa? Ou na comemoração de um projeto bem sucedido? Era essa a alegria do rapaz. Que por seu esforço talvez tenha produzido muito mais do que pseudo-intelectuais que passam o dia na síndrome do impostor (achando que enganam bem todo mundo com um trabalho mediano). Mas ele, por não ter os dentes e por fazer um trabalho mais operacional, talvez poucos sejam os que validam a conquista dele, a alegria dele, e por que não dizer, a existência dele.

Só que assim é, infelizmente! Referente aos feitos profissionais e referente aos feitos pessoais. Este post é sobre tolerância e respeito. Antes de criticar é importante conhecer. Emagrecer não é só “fechar a boca”, é lidar com todo o aspecto emocional envolvido. Ficar musculoso não é só ir “puxar ferro”: tem todo um conhecimento para alcançar e principalmente otimizar os resultados. E ser inteligente não é só reproduzir conteúdo lido: é compreender e aplicar na prática.

Revisando o que escrevi até aqui dá a impressão de eu estar bravo – talvez eu esteja! Mas é com a hipocrisia. Vi no LinkedIn uma imagem de uma mandala de como deveria ser o profissional de RH: ser assim, assado, top, master, blaster. Faz-me rir. Deuses. E o pior, buscam Deuses – como se esses Deuses buscados fossem suprir todo o problema enfrentado pelas empresas, inclusive os de quem os selecionam.

É como no começo dos anos 2000 em que o importante era estar lendo um livro de romance por semana. Não servia muito um livro técnico – enfim, a pessoa tinha que demonstrar que tinha a leitura por hobby. E também só servia ler jornal impresso – quem lia notícias de internet não era bem visto – eram tidas como tímidas, com problemas sociais que só se relacionariam com máquinas.

Através de suposições e pré-conceituações que se define quem é bom e quem não é. Balela, tudo projeção.

Legal seria passar a régua e tirar uma média: nem tanto lá, nem tanto cá, ou seja, integrar inteligência (e cultura!) com saúde física, e sem crítica destrutiva nem de nem a ninguém! Elegância faz bem! Pra finalizar, veja o que o Jung diz:

Fonte: Google Imagens

É muita fofura numa pessoa só né?! Bon appétit!


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Memória afetiva na alimentação e na atividade física

Todo mundo tem uma lembrança de uma comida deliciosa, mas que a delícia não é apenas a comida em si, mas todo o contexto: por quem era feita, em que situações era feita, com quem era saboreada…

Tem também as comidas aversivas, a exemplo da canja, ódio de muitos adultos que ficaram internados em hospitais quando crianças.

O fato é que a relação com a comida é aprendida desde cedo, e o ser humano, através de um aprendizado social, vai desenvolvendo atitudes e comportamentos associados às emoções no contexto alimentar.

Ao longo dos anos os hábitos alimentares podem mudar, entretanto a memória afetiva é nostálgica, cheia de afeto. Mas é tão gostoso lembrar da minha avó fazendo bolinho de espinafre! Ah, a sua fazia bolinho de chuva? Tá vendo, é disso que estou falando! Dessas recordações que envolvem comida. Não é apenas o bolinho de espinafre ou de chuva que ninguém faz igual, pois de repente até faz, mas é da afetividade que envolve a situação.

Mas onde está o problema disto? Quando essa memória está presente sempre e faz mal pra saúde física, psíquica ou ambas. Pra saúde física vamos tomar por exemplo uma senhora diabética e obesa que faz uma receita bomba duas a três vezes por semana: fritada de ovo batido com batatas fatiadas. Na infância ela só comia arroz com essa fritada, tudo feito pela avó. E até hoje esse hábito se repete, e sempre que faz a receita deixa claro que é por conta da Nona, o que nos mostra também uma fixação psicológica em uma determinada fase.

Toda vez que eu como fogazza de presunto e queijo eu lembro da minha época de colégio. A cantina do Rui era especialista! O queijo derretendo misturado com o presunto… Ah, que lembrança boa! E como eu comia! Uma ou duas por dia, e ela aliviava minha tensão sofrida pelo bullying escolar. É, dificilmente alguém alivia as tensões comendo alface com pepino, então matematicamente, o corpo começa a engordar. Toda vez que como uma fogazza de presunto e queijo, o sabor daquela do Rui me vem à memória.

Leite, para mim, é um item indispensável. A nutricionista me convenceu a deixar o leite integral e ir para o desnatado, mas eu só fiz a mudança mesmo quando coloquei as três caixas lado a lado e comparei as tabelas nutricionais do integral, semi e desnatado. Mas o leite tem que vir junto com achocolatado. Toddy me lembra minha tia, pois era o que ela e meus primos usavam. Nescau, aqui em casa. Cheguei a ligar para a Nestlé quando mudaram o sabor do Nescau, deixando só a versão 2.0. Um alívio quando a atendente me disse que iriam voltar a produzir o original, pois estavam tendo muitas queixas.

Mas só quem ama uma coisa que deixou de ser produzida vai entender o que estou falando: a frustração por nunca mais poder sentir o sabor de algo tão bom, e que tem uma baita memória afetiva. Você tem algo assim? Eu tenho: Supligen. Ah… meus verões na adolescência… regados à jogo de taco, vôlei, praia e Supligen, um alimento altamente engordativo, mas delicioso, ainda mais se fosse feito com leite. E a Nestlé não vai voltar a produzir. O mais próximo em sabor é a bebida láctea Alpino.

Este post não foi patrocinado pela Nestlé, juro!

Com a mesma força, do lado contrário, temos aquelas comidas aversivas. Não sou fã de maçã, pois minha mãe mandava na lancheira um sanduíche enorme e uma maçã argentina gigante, e a professora me fazia comer a maçã inteira. Peixe também não curto muito. Dona Dalva, também conhecida como minha mãe, adorava as modas dos anos 80: de Biotônico Fontoura a óleo de fígado de bacalhau. Menos mal que o óleo era em cápsula, mas aquilo causava muito mal estar no meu estômago, com arroto sabor peixe toda hora. Até o dia que eu descobri que podia guardar debaixo da língua e cuspir atrás da estante. No dia da faxina fui descoberto e apanhei muito.

Pra mim o peixe tem sido uma ressignificação dessa memória afetiva. Nutricionalmente é um bom alimento e tenho consumido mais. Simbolicamente, dentre muitas coisas, significa nascimento. E num momento de mudança fui lá e fiz uma tatuagem de peixe tribal no braço. É uma das que mais gosto.

Quando falamos de memória afetiva lembramos de quem? Dos complexos, que foram gerados após impacto de uma grande carga de afeto! Uma pausa para mandar um salve pro Carl Jung!

Frase de Carl Jung: fonte - Google Imagens

Os complexos estão dentro de nós, e Jung mencionando os acontecimentos interiores nos remete ao autoconhecimento, este processo de tomada de consciência de tudo o que acontece dentro de nós, na esfera da psique, para assim transformar, amadurecer.

Tomar consciência de um complexo é um passo, conhecer como ele funciona e constela em nós, tomando conta de nós, tal qual uma personalidade autônoma é outro passo. Quando acessamos essa carga afetiva, essa memória afetiva, podemos ficar tomados pela nostalgia e comer algo desenfreadamente, diariamente, ou renegar alimentos que são necessários para a nossa saúde.

Aquele menino do comercial que pede brócolis para a mãe tem uma boa relação com o verdinho. Mas quantos tiveram uma boa experiência com verduras e legumes? São muitas vezes evitados, e isso denuncia que talvez haja um complexo e uma memória afetiva ali, que pode sabotar a reeducação alimentar.

E a memória afetiva traumática das aulas de educação física?! Quanta carga afetiva não esteve presente ao lado de muitos adolescentes, gerando complexos e mais complexos? A turbulência típica da adolescência pode incluir no combo o bullying, incompreensão das mudanças do corpo, administração da irrupção da sexualidade e sensualidade, entre várias outras coisas, e no meio do caminho pode haver um afastamento aversivo da atividade física e uma aproximação da comilança engordativa.

Certa vez fiz uma avaliação com um professor na academia, e quando ele descobriu que sou psicólogo, comentou que fez uma monografia sobre a adesão (ele usou outro termo que não recordo) aos treinos, mas que até hoje fica pensando o que dá errado. Eu já dei aula de psicologia na graduação de Educação Física, e hoje, com outra visão, eu incluiria uma aula sobre “aspectos psicológicos que influenciam no treino de adaptação”.

Este tipo de treino é o primeiro que nos é dado na academia, para que possamos nos acostumar com a nova rotina. Treinos longos de musculação com muitos exercícios podem não ajudar nesse momento. Obviamente um obeso ainda precisa organizar sua agenda e adaptar seu interior à nova rotina: destinar umas duas horas e meia para cada vez que faz um treino (alimentação pré-treino, deslocamento até a academia, troca de roupa, alongamento, aquecimento, musculação, aeróbio, alongamento novamente, banho, retorno à casa e alimentação pós-treino). Isso não se muda de um dia pro outro! Ainda mais com complexos gravitando ao redor, lembranças traumáticas e sentimentos, a.k.a. memória afetiva.

A academia, então, passa a ser um ambiente hostil, dificultando a adesão. A mentalidade é “resultado! Resultado! Resultado!”. Então a lógica seria quanto mais exercício, melhor. Será? A pessoa nem se adaptou direito à rotina. O corpo dói. Paralelo a isso a pessoa ainda está lidando com a reeducação alimentar. Aí surge a frase “pra ter resultado é 70% alimentação”. Não acho! Divida 100% em três: alimentação, exercício e trabalho psicológico, 33,33% pra cada!

E os saradões colocam no Facebook a piadinha “em janeiro academia vira igreja – todos à procura de um milagre”, com ares de vencedores superiores. Já vi até uma página de academia compartilhando isso (!!!). Então academia é uma local apenas para pessoas que saem do útero saradas? Isso pode broxar. A pessoa que sofria na aula de educação física na adolescência passa a reviver aquela memória afetiva de isolamento social.

A motivação é interna e o incentivo é externo. Ao deixar a vida sedentária nos deparamos com um misto de motivação e desmotivação. Temos o movimento de saída da zona de conforto, mas com uma corda elástica invisível que nos puxa à ela, e seu rompimento leva tempo, só que às vezes ela afrouxa e do nada nos puxa com tudo: efeito sanfona – sucumbimos a algo, a ser compreendido, trazido à consciência e se assim desejarmos, buscar a transformação alquímica desse movimento.

Este é o prato do dia! Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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Ressignificando a arte e o hábito de cozinhar

Dizem que cozinhar é uma arte, e é, mas de repente cozinhar vira uma chatice sem tamanho. É legal cozinhar com todo mundo junto ajudando, uma comida diferente, apetitosa e engordativa, naqueles jantares que geralmente extrapolamos o limite do que devemos comer.

Todo mundo se junta pra fazer aquela macarronada, aquele monte de pizza, aquela feijoada ou aquele churrasco, tudo com direito a pudim, arroz doce, sorvete caseiro, bolo gelado, bolo quente, doce de abóbora, bebidas alcoólicas, sucos cheios de açúcar e refrigerantes.

Ok, quem está de dieta terá uma imensa dificuldade de conseguir vencer esse campo de batalha da refeição em reuniões de família ou amigos, mas até que consegue, mesmo não saindo ileso aos danos do excesso de pudim da Dona Maria, feito com os segredos mineiros.

Mas uma vez que as portas fecham e a rotina retorna, cozinhar para um ou para dois pode ser #tenso. Quem cozinha para o cônjuge e filhos também tem direito a ficar #tenso/a.

Tenso! - Fonte: montagem feita com imagem do Google Imagens

A praticidade então fica resumida a pratos fáceis ou semi-prontos, não raro com ingredientes ultra-mega-hiper processados (tipo steak bovino de frango sabor peixe, manja?). Recentemente publiquei na página do Facebook um artigo do Buzzfeed sobre a quantidade de sal e açúcar nos alimentos, e já que o texto trazia as fotos das tabelas nutricionais de 1o comidas prontas, pedi para os leitores atentarem também na quantidade e percentual de gordura. Essa praticidade processada atinge a todos e no shopping hoje ouvi uma criança dizer: “não quero frango, quero nuggets!”. Sim, é triste.

E parece que a única coisa prática na cozinha é o microondas. Realmente é um eletrodoméstico importante, mas existem vários outros que podem nos ajudar a ressignificar a arte e o hábito de cozinhar.

Quem nunca estava faminto e correu fazer um macarrão instantâneo por preguiça de lavar 5 panelas, 27 tipos de facas, liquidificador e 4 colheres de silicone? Há as variações: delivery por telefone ou aplicativo. “Ah, mas o yakissoba vem com bastante carne e legume!”. Quanto de sódio tem no shoyu, que vem no exagero?

Não dizem que comida é amor? Então cozinhar para si é se amar (momento piegas do post). A gente é o que come, então tem dia que a gente quer ser um lanche de drive-thru de fast food. Não vou ser hipócrita, e vou confessar que eu adoro uma comodidade na cozinha, e acho que não estou sozinho nessa. Bota aí o pessoal do “não sei nem fazer ovo cozido” no meu time. A mudança comportamental que envolve o emagrecimento não está somente ao “coma saudável e faça exercícios”. Formando a tríade temos o “organize as refeições”. Emagrecer é mais que fazer dieta ou regime: é fazer reeducação alimentar.

Organizar as refeições não está somente ligado ao comer saudável. É planejamento mesmo:

  • Escolher um dia da semana para cozinhar: se você é quem prepara as refeições para a semana toda, deve obrigatoriamente deixar um espaço na agenda, TODA SEMANA, senão isso não vai durar mais que uma ou duas quinzenas.
  • Planejar um cardápio variado para não enjoar: se você segue a galera fit no Instagram ou Snapchat já deve ter reparado que frango com batata doce é consumido no café da manhã, almoço, jantar, pré e pós treino, seja cozido, batido no liquidificador com whey protein, recheando tapioca ou em forma de pudim e sorvete. Haja criatividade (e coragem) para comer frango com batata doce de tantas maneiras diferentes (e algumas bem esquisitas). Eu fico me perguntando: ok, comeu proteína, mas e os outros nutrientes? Estar alimentado é diferente de estar nutrido. Cuidado com o uso de suplementos! Podem trazer danos à saúde. Não é porque uma galera toma whey com pasta de amendoim que essa é a melhor opção. Tem gente musculosa que não toma suplemento algum. Consultar um nutricionista bacana ajuda (aliás, cuidado com aqueles que prescrevem suplementos sem critério algum)!
  • Estocagem de alimentos frescos e congelados: os potes plásticos têm uma vida útil, e se forem usados no microondas com frequência vão se deteriorando, ainda mais se tiver molho de tomate ali. É interessante planejar a quantidade ideal de recipientes para que consiga fazer o congelamento de alimentos em porções. Isto requer investimento, e se a verba estiver curta, sugiro priorizar por aqui, e depois partir para outros itens. As marmitinhas e alimentos bem estocados economizam e facilitam a mudança do hábito de cozinhar e se alimentar bem. Sobre o congelamento você pode procurar no YouTube aulas de como fazer adequadamente. Dá pra congelar inclusive verduras frescas!
  • Higienização dos recipientes de armazenamento: enfim, ficar deixando coisa amontoando na pia não dá, muito menos ficar usando só sacos descartáveis. O meio ambiente e seus bisnetos agradecem.
  • Compra dos ingredientes: dispensa vazia significa abrir o armário e ter de opção pipoca de microondas com macarrão instantâneo. Separar um dia da semana para as compras é interessante. No começo ainda não temos a noção de quanto comprar, então compramos menos ou mais do que precisamos, por isso gerenciar o estoque é um aprendizado que vem com a prática.

Para facilitar nosso dia a dia na cozinha e no emagrecimento, e assim, começar a pensar e agir diferente, podemos contar com alguns itens que ajudam na praticidade:

  • Marmitas com alguns compartimentos removíveis: retire aquele compartimento de salada que não vai ao microondas. Se puder comprar 5 já tem como congelar almoço pra semana toda. A marmita deve ser do tamanho do que precisa comer, nem mais nem menos. Já vi muita gente levando um potinho pro serviço e depois ficando com fome.
  • Potes plásticos ou de vidro que ajudam a congelar e transportar alimentos. Tem potinhos que são para levar porções de castanhas para o trabalho. Não usou toda a cebola? Nada de desperdício: acondicione num desses potes pequenos.
  • Mini coador de café: tem gente que usa as máquinas, mas os preços das cápsulas têm subido consideravelmente. Existe coador de pano e de papel que fazem apenas uma dose, já em cima da xícara! Assim você evita o desperdício e evita tomar aquele café encorpado de açúcar. Comprei pra casa e pro trabalho. No trabalho é uma alternativa para fazer o próprio café, com o pó que mais gosta e adoçar como convém.
  • Panela elétrica de arroz pequena: eu evitava usar porque a minha era enorme, e fazer uma porção de arroz ali me desesperava, pois aquele trambolho ocupava muito espaço na bancada. Providenciei uma nova que além de tudo permite que eu cozinhe legumes no vapor enquanto faço o arroz. Confesso: não sei fazer arroz soltinho na panela convencional, além de só conseguir dar o ponto do arroz multi-grãos na elétrica.
  • Fritadeira elétrica a ar (air fryer): eu não sou dado a frituras, mas achei interessante variar o preparo de alimentos e ao invés de comer bife todo dia, faço umas almôndegas. O modelo que eu tenho é um dos mais baratos e dispensa o uso daquela colherzinha de óleo que algumas outras pedem. Já testei várias coisas, dentre elas, pastel: fica igualzinho, e nem besuntei com óleo.
  • Mini-liquidificador: uma vendedora me perguntou se era de criança (oi? E a segurança dos pequenos?); só achei de duas marcas, e vou citá-las para facilitar a vida de quem vai procurar pra comprar: Black & Decker e Hammilton Beach. A base é pequena, tem um copo pequeno (você bebe nele mesmo!), com tampa que facilita inclusive para você levar por aí e beber no caminho. Prático para quem toma suplementos ou vitaminas, mas acha o liquidificador normal não muito prático. Sem contar que sendo mini gasta menos água para lavar, menos eletricidade (mas não bate gelo). Bom para quem não consegue usar o mixer sem fazer lambança.
  • Kit de facas: cada tipo de faca corta melhor um alimento, e isso agiliza bastante o preparo, mas talvez não seja algo essencial.
  • Tábua de bambu: dizem que esse tipo de tábua não favorece muito a proliferação das bactérias, além de não estragar o fio das facas.
  • Maleta térmica: existem umas pequenas para transportar a marmita com facilidade, favorecendo a conservação da refeição.
  • Maleta com compartimentos: um certo luxo que facilita o acondicionamento de diversos portes de marmitas, algumas térmicas. Bom para quem faz várias refeições na rua, e muitas vezes dentro do carro. Tem espaço para a marmita de comida, para a bebida, um outro compartimento para guardar o lanche, outro para frutas.
  • Marmita que esquenta a comida: não requer microondas, apenas uma tomada e um pouco de água – esquenta em banho-maria.
  • Descascadores: são vários tipos, para frutas, legumes, alho…
  • Centrífuga que seca salada: você higieniza as folhas, coloca ali dentro, gira sem parar e as folhas saem sequinhas! Armazene a salada na geladeira e vá consumindo no decorrer da semana, pois assim ela dura mais e não há desperdício! Enfim, lavar salada a cada refeição é uma tarefa chata, irritante, pelo menos pra mim.
  • Frigideira de ferro: ótima para fazer grelhados no fogão!

Dar uma de megalomaníaco desesperado e sair comprando todos os utensílios e eletrodomésticos provavelmente nos fará gastar com o que não precisamos, pois somente avaliando bem nossa rotina e o que costumamos comer é que vamos identificando as prioridades do que comprar. Tem gente que não precisa de nenhum desses utensílios e se dá super bem, e eles não são requisitos necessários para o sucesso do emagrecimento. São apenas recursos que facilitam principalmente a preparação das refeições, seja para congelar ou não, e facilidade ajuda na aquisição de um novo hábito.

Tem gente que sabe cozinhar e tem gente que não. Os iniciantes muitas vezes correm atrás de temperos industrializados que fazem muito mal à saúde. Até quem tem anos de cozinha usa daquele caldo de galinha ou carne cheio de componentes químicos. Tem quem fuja de descascar alho, mas já tem tutoriais no YouTube para fazer essa tarefa sem que as mãos fiquem cheirando depois.

É importante lembrar que uma comida não saudável costuma trazer alegria, mas é um auto-engano – e na maioria das vezes – consciente. Você sabe que faz mal, mesmo estando feliz e satisfeito. Se estiver tentando emagrecer além disso ainda é autossabotagem. É auto-ódio tratar mal o corpo, é uma espécie de punição/auto-castigo, e qual o motivo (in)consciente para isso? Comer mal pode ser fuga, desistência, um reforço ao sentimento de fracasso num processo de vitimização. Forte, né? Juro, já percebi esse mecanismo em mim e em outras pessoas.

Sabe o que mais faz parte da ressignificação do hábito de cozinhar? O dia do lixo. Aquele dia que nos permitimos não cozinhar e comer fast food, pizza, e toda sorte de pajelança alimentar. Eu prefiro pensar no dia do lixo como um recurso no processo de transição entre a má alimentação e a alimentação saudável. É ir desapegando aos poucos. Mas com o tempo o dia do lixo apenas nos deixa mais letárgicos, e se um dia fizerem uma pesquisa estatística, aposto que ele é um elemento que dificulta a manutenção do peso saudável pós emagrecimento – a reeducação alimentar não foi completa. Falando em termos psicológicos comer uma pizza aqui, um almoço em confraternização ali, fazer um happy hour acolá é uma coisa; ficar na fissura esperando semanalmente o dia do lixo é outra: te condiciona a não saber se controlar diante de gostosuras engordativas. É um passo para o auto-descontrole alimentar.

Por fim não poderia deixar de mencionar os codependentes do viciado em comer. Codependente é aquele que está junto com o adicto e que infelizmente, na maioria das vezes, ao invés de ajudar na recuperação, ajuda a reforçar o vício. Traduzindo: familiares.

Vamos supor que uma criança de 7 anos esteja obesa e todos na família são magros “de ruim”: comem porcarias e não engordam. Aí o pediatra pede que a criança faça reeducação alimentar. A coitada da criança é a única a ter que comer quiabo. O restante se esbalda em biscoito recheado e refrigerante no café da manhã. Ou o adolescente ou jovem adulto precisa emagrecer e a mãe tem que cozinhar algo diferente para ele e acha ruim. Que tal toda família entrar no ritmo? É mais difícil, é. Mas é importante a família estar ciente de seu papel no auxílio ao emagrecimento do familiar. O buraco é mais embaixo se todos forem obesos. Ou não funciona mais ou menos assim em casos de colesterol alto, hipertensão e diabetes?

Conhece mais algum utensílio que facilita a vida culinária? Deixe nos comentários aqui ou no Facebook. E voilá e bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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