Odeio segundas

Eu estava ávido pelo novo seriado do casal Alexandre Machado e Fernanda Young. Adoro os roteiros deles, e sou fã declarado de Os Normais. Estreou faz pouco tempo no GNT o novo seriado: Odeio Segundas (quartas, 23h).

Seriado Odeio Segundas. Fonte: Google ImagensE quem é que não nutre ou nutriu esse sentimento de ódio pelas segundas-feiras? Como é o pique para enfrentar o restante da semana? Numa escala de 0 a 1000, qual o seu grau de sonolência, tédio e desânimo?

Seriado Odeio Segundas. Fonte: Google ImagensO seriado é narrado pela Segunda, na voz de Fernanda Young. E logo na abertura do primeiro episódio, a personagem de Marisa Orth exclama: “Maldita segunda-feira!” E a própria Segunda se defende, em tom irônico: “É, a culpa é MINHA se você teve um fim de semana de merda! O cara bebe demais na sexta, vomita sábado, come demais no domingo e… o problema sou eu? Casais odeiam a segunda porque é o dia que eles voltam à rotina. Gays odeiam a segunda porque é o dia que eles voltam ao armário: ‘Tchau, tatuagens, até sexta!’ Gordos odeiam a segunda porque é o dia que eles começam as dietas. Solitários odeiam a segunda porque é quando eles descobrem que todo mundo teve um final de semana melhor que o deles.”

A expressão facial dos personagens, no elevador do trabalho, na segunda-feira, é representativa.

Cena do seriado Odeio Segundas. Fonte: Print do aplicativo Now da NetO nome da empresa, Ashauhsa & Shuasha, que em internetês significa risada, já sugere diversas interpretações: fica a seu critério e imaginação o significado.

Ashauhsa & Shuasha, prédio do seriado Odeio Segundas. Fonte: print do aplicativo Now da Net

Não dá nem pra argumentar com a defesa da Segunda, transcrita logo acima. O texto é genial, e nos leva a uma identificação com os personagens, seja no momento atual da nossa vida, ou em momentos anteriores. O seriado nos faz rir da nossa própria desgraça (ou falta de graça, leveza) e da nossa própria tragédia (erro de trajeto); nos leva a uma reflexão sobre a nossa própria vida, sobre nossa trajetória.

Um ciclo vem se fechando na minha vida, e outro se iniciando. Culpei por muito tempo algumas pessoas ou situações, e até mesmo o destino, que havia me levado para algumas situações e atividades que eu julgava serem das tragédias e desgraças mais importantes da minha vida. Me vi de mãos atadas, sem ter pra onde correr. De repente eu vi que as pessoas não são culpadas – e sim, são pessoas maravilhosas; vi que as atividades não eram horrendas. Então, o que aconteceu?

Eu percebi o tamanho da projeção que eu estava fazendo em cima desse contexto. E que a angústia toda que eu sentia é porque eu estava me afastando de mim, do meu eu, da minha alma, do meu ser. Engraçado como o desânimo, mencionado lá em cima, é frequente quando a gente se afasta da gente. Ânimo vem de anima, alma. Desânimo é falta de alma. No contexto da Psicologia Junguiana isso significa que estamos inanimados, sem paixão pela vida, longe do nosso Self, que é o centro da nossa psique e a psique como um todo ao mesmo tempo. O Self é todo o potencial daquilo que podemos ser. Nele está nosso daimon, nosso chamado, nossa missão, nosso significado, nosso mito de significado.

Bonito dizer: “estou me afastando de mim”! E quantos amigos e/ou terapeuta(sss) não disseram “você está se afastando de você!”. Entendemos o que isso quer dizer pois entendemos o significado das palavras ali ditas, entendemos o idioma. Mas e a dimensão disso na nossa existência? O que ecoa dentro de nós?

Ouvimos dizer – e repetimos – que o trabalho é nosso “ganha pão”, nosso “sustento”, a “dignidade do homem”. Por definição, trabalho é tudo aquilo que transforma algo. Por isso empregamos a palavra em tantos contextos.

Grande parte de nós costuma passar a maior parte do tempo envolvido com o trabalho. E se não temos motivação em estar lá, isso afeta nossas vidas de maneira significativa. Surgem os adoecimentos psicossomáticos, o stress ocupacional, também chamado de burn out, a angústia e a depressão.

Então que saibamos dar significado a esses sintomas e adoecimento. Uma gripe põe a gente de cama, e podemos usar o tempo para refletir na vida, no motivo dessa pausa forçada. E por que depois de tantas gripes – e pneumonias – não consegui visualizar uma saída para minha vida, tempos atrás? Porque eu não ouvia a mim mesmo, apenas ouvia as minhas reclamações. Acusações, defesas, discussões, auto-ódio, desgosto, infelicidade. Esse cenário cega e ensurdece. Nos desconecta de nós.

A terapia vem me ajudando muito; feedbacks dos outros também. Leituras idem. E a soma disso, junto com tempo para pensar na vida durante uma internação hospitalar devido a problema nos discos lombares, culminou em reflexão e decisões. Recentemente tive um sonho onde entrava em um palco e tinha que tomar uma decisão. O palco da minha vida, onde sou o ator, diretor e roteirista. O que eu deveria fazer (atuar/ação), dirigir (tomar as rédeas) e roteirizar (planejar, determinar)?

A resposta estava ali, diante da minha cara, há anos. Por que não se permitir? Por que ficar preso a algo que a gente mesmo fez questão de se amarrar, com muitas amarras, pra ficar bem preso? Esse algo não necessariamente é ruim. Damos o significado de ruim porque não percebemos que aquilo não é o que nosso Self quer.

Eu estava incomodado (e acomodado). Vou mudar de casa em breve, e programas de decoração na TV me despertaram interesse, em especial o Olho Mágico (GNT, segunda à sexta, 19h30). As decoradoras com prazer no que fazem. Os participantes do programa demonstram bem estar. Todos os episódios no lindo Rio de Janeiro. Aquelas casas com vistas para as belezas do Rio. Não sou inocente ao ponto de achar que ninguém ali tem problemas na vida, ou que todos encontraram o significado da vida. Mas comecei a colocar atenção na leveza das coisas. Em como a natureza é linda, e a gente fica preso dentro de uma sala, sem vista nenhuma. O que eu estava escolhendo para mim? Quais seriam os meus planos? Como trazer aquela leveza (a graça, o antônimo da desgraça)? Como retomar a rota? Como resgatar o ânimo (alma)?

A inveja foi decisiva: não pela reforma em si, mas pelo que a reforma representa: mudança, construção, reconstrução, melhoria, busca de objetivos melhores. O peso que eu vinha colocando em tudo me deixava sonolento igual a foto que coloquei lá em cima. E ao dormir, acordava mais cansado. E esse peso também é real à medida que fui comendo mais do que devia, e abandonei o processo de emagrecimento.

As coisas não acontecem instantaneamente no tempo do cozimento de um miojo. Sair da tão falada zona de conforto é amedrontador, gera ansiedade. Mas como disse meu primo marombado, “nada cresce na zona de conforto”. É preciso dar o primeiro passo. E como no ciclo do herói, há a negação do que deve ser feito, fui buscar algumas coisas que vinha negando; negação esta que foi cristalizada por medos, inseguranças, autojulgamento austero e avareza pelo viver. E gostei do que decidi que quero buscar. E já estou buscando. Sugestão do chef: o prato “vamos buscar”. Bon appétit!

 

PS: Este post foi agendado para ser publicado às 0h de uma segunda feira.

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