O gordo e o magro: integração dos opostos no emagrecimento

O gordo e o magro. Fonte: Google Imagens
Atores do seriado “O gordo e o magro”. Fonte: Google Imagens.

Já contei em uma postagem anterior que a minha terapeuta propôs responder à pergunta: “Por que ser gordo?” e eu ampliei também para “Para que ser magro?” (sempre atente para “por que” e “para que”, são diferentes).

E fui fazer a lição de casa, e respondi. E sabe a que conclusão cheguei? Que todos os motivos para ser magro não me convencem muito não. Não me dão aquela força, aquele motivo, aquele tchan pra mudança. Mas mesmo assim me empolguei e fui tentar conhecer o gordo e o magro dentro de mim, num início de trabalho de integração de opostos, e de tentar trazer o magro, que está na sombra, à luz.

A lista não ficou grande, mas vou ressaltar os pontos principais:

– Por que gosto de ser gordo: comer é muito bom; existem várias possibilidades de doces e comidas, e sempre tem algo novo e diferente; comer acalma; estar com as pessoas conversando e comendo é muito bom.

– Coisas de gordo que faço ou penso: se estou comendo um pedaço e gosto, já quero comer outro pedaço, pois senão acho que vou ficar com fome.

– Para que ser magro: saúde física; aparência; não ficar nervoso quando experimento roupa; mostrar que venci; não morrer de alguma doença relacionada à obesidade.

– Sentimentos e pensamentos ruins pela comida de dieta/saudável: quantidade regulada é muito chato; nem sempre gosto de comidas frias (saladas ou frutas); não sou de comer carne todos os dias; a tensão de sair para passear e só comer coisa saudável, porque se comer porcaria uma vez já perco o controle.

– Sentimentos e pensamentos bons pela comida de dieta/saudável: me sinto leve; me sinto em melhor funcionamento; esperança de ser magro um dia.

Olhando tudo isso, nada me convence a ser magro, nem mesmo a incoerência de nem sempre gostar de frutas e saladas, e ter ocasiões que amo frutas e saladas. Nem mesmo a possibilidade de morrer de algo em função da obesidade me assusta ao olhar a lista. Aí que está: a lista mostra razões conscientes, e é preciso buscar as questões inconscientes.

Assisti uma entrevista da Dra. Ercilia Simone Magaldi, analista junguiana, uma das fundadoras do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa), e vou comentar alguns pontos a seguir.

Entrevista com Dra. Ercília Simone Magaldi

Ela começa a entrevista dizendo: “A dependência é a perda da liberdade que o ser humano tem, e o sofrimento que causa a si próprio, ao entorno familiar, é muito profundo. O co-dependente é o indivíduo mais próximo deste dependente, que sofre e vive exclusivamente regrado pela conduta do dependente. […] Se o dependente faz o tratamento e o co-dependente não faz o tratamento, a recaída é muito provável”.

Bom, aqui já podemos abordar o que já falei em postagens anteriores sobre a obesidade enquanto sintoma psicológico. Na minha especialização em Psicologia Hospitalar, abordei um pouco esse assunto, com o enfoque psicanalítico, e agora vou dar o enfoque junguiano. Lembra que numa postagem anterior falei de complexo materno? E que iria abordar a questão da sombra familiar?

A nossa psique é formada por diversos complexos; para Jung, o ego é um complexo; então não existem apenas complexos negativos; todo complexo tem um núcleo arquetípico, e todo arquétipo é um padrão, uma matriz de comportamento, e existem tantos arquétipos quanto existirem situações de comportamento. Assim sendo, podemos pensar no arquétipo do comportamento gordo, e no arquétipo do comportamento magro.

Rabisquei um esboço logo no começo do texto sobre um pouco do gordo e do magro em mim. Um dos itens diz respeito à fome social, aquela que “temos” quando estamos em encontros com amigos e familiares (comemos 12kg de amendoim, mesmo sem fome, pois todos estão comendo, antes do churrasco do domingo, por exemplo). Este é um padrão de comportamento social presente em muitas relações, de amigos ou famílias. Circula pelo facebook um vídeo (ou várias versões deste vídeo) sobre um neto passando as férias na casa da avó, chegando magro, e voltando para casa gordo. Podemos pensar num aspecto de sombra familiar, ou seja, qual o significado da obesidade (ou de ter que entupir um ou mais membros da família de comida)? Qual o significado da obesidade desta(s) pessoa(s) para esta família? Muitas vezes não nos damos conta que este pode ser sim, um sintoma familiar, um aspecto sombrio. Uma sombra familiar. Sombra no sentido junguiano da palavra.

Quer ver como aparece? E como a família pode ser co-dependente no tratamento da obesidade? Minha mãe, que foi tema do post sobre complexo materno, agia assim: toda vez que eu anunciava que estava em regime, ela desandava a fazer receitas de bolos e doces. Detalhe: ela é diabética. Quando eu era pequeno, ela me entupia de abacate com açúcar, maçã argentina (aquela imensa) e óleo de fígado de bacalhau (este eu cuspia atrás da estante, e um dia tomei uma surra por causa disso. Odeio peixe até hoje). E claro que brinco com ela a respeito disso, e ela diz: “ih, que tonteira isso! Imagina se isso tem influência?!”. Posso absolvê-la das situações da infância, já que eu era magro. Desses doces da vida adulta… ela acaba sendo a co-dependente. Mas posso absolvê-la também, pois um dia sentei e expliquei TODA a dieta do nutricionista, o que eu podia e o que eu não podia comer. E ela tomou jeito quando percebeu que eu precisava do apoio dela. E ela deu.

Lembra da vó que também falei no post de complexo materno? Pois bem, essa sim gostava de me entupir de comida. Colocava chocolate escondido na minha mochila. Só parou quando eu inventei que estava com glicemia de 600. Mas ela não pode me ver que me acha magro. Eu sou o neto caçula, e era muito apegado a ela, acho que fui o neto que ela realmente aproveitou mais o tempo, pois nasci quando ela já era aposentada (sou raspa de tacho). Já havia dito que meus primos são magros, e eu nunca consegui. Não estou acusando ou me vitimizando, mas ilustrando um processo, que aconteceu comigo, que envolve sombra familiar e complexo materno. Minha avó sempre me impediu de “ir para o mundo”, de enfrentar as situações, pois tinha medo que o mundo me prejudicasse (3 minutos de atraso e ela já achava que eu tinha morrido. SEM EXAGERO). O meu erro foi aceitar. Ela, com o complexo materno dela, e eu incubando o meu. Claro que deu ruim.

Com a personalidade formada, temos os vícios e virtudes já beeeem instalados dentro de nós. E comer pode ser um vício, e pode ser uma uma compulsão (leia A droga da comida, artigo da Prof. Andreza Wurzba, do IJEP).

O Dr. Waldemar Magaldi, psicólogo e analista junguiano, co-fundador do IJEP, escreveu este artigo, Transitando entre os vícios e as virtudes, e nos explica que os vícios e as virtudes são opostos complementares, e nos diz “Nascemos com fortes tendências aos vícios, por conta da nossa estrutura cerebral de gratificação e recompensa e de toda a fisiologia bioquímica. Somado a isso temos várias carências, desde as materiais até as espirituais e para suprir essa sensação de vazio e nossas deficiências tendemos aos excessos” (Magaldi, W.).

Pegando esse gancho do texto do Waldemar, e ligando com a entrevista da Simone (aliás, formam um casal maravilhoso, sou fã), ela diz no vídeo “todo dependente é abusivo e compulsivo; essa tríade faz parte da mesma patologia; o dependente sofre, não tem liberdade porque tem excessos, não tem controle sobre a própria a vida, tem algo que o impulsiona de maneira absolutamente desregrada para esse comportamento que leva ao sofrimento, que não é só para drogas, é uma coisa muito mais ampla”.

Como já falamos em outros posts, a dependência pode ser de drogas, internet, sexo, jogos, álcool, compras, comida e o próprio exercício físico (vigorexia); o vício é um comportamento repetitivo que é prejudicial, e pode ser compulsivo, isto é, sem controle. Ela ainda nos diz: “o sofrimento é muito grande [para todos os tipos de vícios], e normalmente existem comorbidades, é difícil o indivíduo ter só um tipo de compulsão, tem uma coisa conjunta”.

Por que estou então colocando a minha obesidade enquanto dependência? Em alguns momentos ela me assustou, com episódios de comer compulsivo (binge eating), e quando estou de dieta, vem aquela tensão, aquela mesma, que grifei lá em cima: a tensão de ao sair pra passear, comer uma porcaria e perder o controle. E a refeição off, vira o dia off (ou o dia do lixo), e aí passa a ser a semana off, o mês off, e tudo mais off. É um descontrole, um tombo no qual temos dificuldades de nos levantar.

E quem está atuando ali? Os complexos, que na visão junguiana, são autônomos, ou seja, são praticamente personalidades dentro da nossa personalidade. Assumem o controle, e quando vemos, já fizemos. Por isso a necessidade de conhecer o meu gordo interno, ou esse complexo do glutão, que toma conta de mim, e me impede de conseguir a magreza. Esse é mais fácil de conhecer. São todos os defeitos, todos os vícios que estão aí, escancarados. Aquele passar no drive-trhu e pegar o lanche escondido. Escondido de quem? Hoje em dia tem câmera em todos os estabelecimentos. Ah, a geladeira não tem câmera? Os modelos mais modernos tem quase tudo, até wi-fi, e logo vão denunciar os comedores noturnos rsrsrs. Já imaginou no dia que chegarmos do lado de lá, e passar todas as mensagens do WhatsApp num telão e todas as vezes que achamos que estamos comendo escondido? “E durou quase uma eternidade…” Quaquaraquaquá quem riu… Quaquaraquaquá NÃO fui eu. Ai, dona Elis Regina

Mas como fazer a integração com a virtude, ou seja, o magro, o comedido. Claro que um magro patológico é o anoréxico, mas acho que olhando no espelho, estou longe disso. Para integrar o magro, tem que conhecê-lo. Estou buscando conhecer mais esse magro. Enfim, esse cara também sou eu. Posso dizer que já tive sonhos com ele. Hmmmm como assim? Pois bem, quem está mais à mostra é o gordinho, e quem está na sombra é o magro. O gordinho tem aspectos sombrios também, mas estou me referindo a quem está mais lá no fundo do fundo do fundo (do fundo, lá no fundo). Quando sonhamos todos os personagens que estão ali no sonho somos nós (quer saber mais? O Waldemar Magaldi tem um curso maravilhoso sobre sonhos no IJEP, e não, não estou ganhando comissão). Assim, quando sonhamos com alguém do mesmo sexo, essa pessoa acaba representando a nossa sombra. E foram alguns sonhos que me indicaram que estou começando a ficar pronto para trazer esse magro à luz.

Mas o importante é saber que mesmo após o emagrecimento, ambos continuarão ali dentro. Por isso que disse, há um bom tempo, que uma vez que emagrecemos, não somos magros, somos pessoas emagrecidas. Pois ali no nosso corpo está nossa história. Seja esse emagrecimento fruto de reeducação alimentar, cirurgia e/ou exercícios físicos.

Pra ilustrar rapidamente e caminhar para o fim do post, todos sabem que sou fã do seriado Friends, e toda vez que faço um daqueles testes pra saber qual personagem sou, sempre sai a Monica. Ela era obesa, e certa vez disse: “eu devo isso à gorda dentro de mim, eu nunca a deixo comer!”. Claro que o gordo dentro da gente não vai morrer de inanição, ele estará lá, mas teremos conhecido ele, saberemos como ele age, e quem sabe, dar um nó nele para ele não nos enrolar, empanar, fritar e engordar mais (e olha que o meu gordo nem gosta de fritura!).

E por fim, nos diz o mestre Carl Jung: “Se quiser trilhar seu próprio caminho, então será um caminho a se construir, que não é prescrito para ninguém, que não se conhece de antemão, mas que surge simplesmente por si mesmo quando se dá um passo depois do outro” (só para complementar o post do complexo materno, onde abordo a questão do sentido deste complexo na nossa vida).

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