Meu poço, minha não vida

Poço. Fonte: Google Imagens

Em época de personal trainer, personal stylist, personal nutricionista, personal dog walker, eu tenho o personal poço. Aquele buraco que caímos e recorremos sempre que queremos nos afundar mais e mais e mais. E na época de seca em que vivemos, nem tem água para amortecer a queda. E estando no fundo, até o balde lá de cima cai na nossa cabeça.

Assumir a responsabilidade por estar no fundo do poço, ou responsabilizar alguém ou situação ou até mesmo questão social, é o mais simples: identificamos uma possível causa para um sintoma. Aprofundando, vemos que as coisas tomam outra dimensão, provocando talvez impacto e influência onde nem imaginamos (e talvez o impacto e influência são menores do que julgamos). Estamos passando por uma situação, percebemos ou nos dizem que: “isso é auto-sabotagem!”. Pode até ser uma espécie de clichê, do tipo “auto-sabotabem, quem nunca?” ou em formato hashtag: #autosabotagemquemnunca.

Por exemplo, tomamos consciência de que quando não damos conta de lidar com uma situação, tendo uma espécie de surto, desespero total, crise quase convulsiva de choro, com direito a audião de 27 minutos no Whatsapp. Traduzindo, este é um exemplo de auto-sabotagem do nosso amadurecimento e fortalecimento: achamos que não vamos dar conta e nos entregamos. Não estamos sabotando um projeto diretamente, como esquecer de entregar um documento, ou nos enrolando em horários. Sabotamos o amadurecimento, o fortalecimento, o desenvolvimento da perseverança e persistência, e essas sim são as características que nos ajudam a conquistar tal projeto.

Mas vamos falar de auto-sabotagem num quadro de obesidade, também conhecida popularmente como “precisa ter ‘controle sobre o descontrole’ na hora de comer”. Qual é o gordo que nunca ouviu: “precisa se controlar”? E quando não se controla na hora de comer, toma o rótulo “isso é auto-sabotagem”. Não adianta focar somente a superfície, o ato de comer na refeição. Existem casos em que a depressão associada à ansiedade leva aos episódios de comer compulsivamente (binge eating). Vamos sempre descrevendo quadros, dando nomes, enumerando critérios diagnósticos, e esquecemos muitas vezes de ver todo o contexto da vida da pessoa. Ou até vemos: “com uma família dessa, a coitadinha precisa comer mesmo”, “esse trabalho nos consome tanto, que só comendo pra aliviar a tensão que temos”, “vou tomar sorvete pra curar a desilusão amorosa”. Hmmmm…. Tomar sorvete para curar desilusão amorosa; será que é para esfriar o calor de tanta emoção? De repente também é pra adoçar o amargor da frustração e desilusão. Mas, ei! Talvez a desilusão seja boa, pois quebra a ilusão de uma fantasia, de uma idealização.

Mas o que está por trás disto? Acredito que vivemos numa época em que nunca se teve tanta consciência e conhecimento do funcionamento do corpo e da psique. Temos desde os estudos avançados de Medicina, Psicologia, Psicossomática e áreas correlatas, até as revistas populares que abordam estes temas (essas que na capa tem artista, chamada para as matérias de dentro, pro horóscopo, simpatia e resumão da novela). E mesmo com tanta informação, nós, gordinhos fofinhos que queremos emagrecer, não aprendemos a “ter controle sobre o descontrole”, com o bônus da frustração inteiramente grátis, e para tentar lidar com isso, comemos MAIS, e DE NOVO.

Nessa derrocada, vamos para o fundo do nosso personal poço. Existe o funcionamento de algo latente, ali, rodando um app no background do celular. Algo que nos faz engordar ou permanecer gordos, e é um mecanismo psicossomático. Já falei em outros posts que a obesidade pode ser um sintoma psicológico, um sinal de que algo não vai bem na vida ou na psique da pessoa, lembrando que estudos apontam que as causas biológicas para a obesidade são menos frequentes, ou seja, o hipotireoidismo não desencadearia um quadro de obesidade mórbida.

Ver a obesidade como sintoma nos faz desenvolver um pensamento sobre complexos e fatores inconscientes, sendo o norteador, neste blog, a Psicologia Analítica de Carl Jung.

Então vamos começar a pensar nas questões inconscientes e já que estamos no fundo do personal poço, vamos lançar olhos para o inconsciente, que, veja só, a coincidência, também é “lá no fundo”!

Quando achamos que não vamos dar conta, ou até mesmo não damos conta de verdade, tem um complexo ali. E o complexo, para Jung, é autônomo, isto é, pode tomar conta da gente, ter “vida própria”; é quase uma personalidade dentro da nossa própria personalidade. E o complexo do auto-sabotador atinge vários níveis, e não tomamos consciência, pois geralmente focamos só no mais aparente.

O descontrole na hora de comer fica evidente pois temos o foco no emagrecimento, então só pensamos naquilo. Mas vamos passear por outros contextos na vida do obeso. Pode haver descontrole no gastar (o inverso também é verdadeiro: quando há um descontrole no não gastar, não, não me refiro aos econômicos, e sim aos avarentos, que não controlam a rigidez em não gastar). Pode haver descontrole nas relações pessoais e profissionais; descontrole ao dirigir imprudentemente, etc. Melhor dizendo, ocorrem excessos. Não há o equilíbrio.

O excesso de entrega numa relação, com submissão ao outro, também denuncia uma forma de descontrole, e se a pessoa alivia as tensões através da comida, é certo que toda a angústia e ansiedade da relação vão levá-la a comer muito. Então a frase “precisa se controlar pra não comer tanto doce” foca somente o controle no ato de comer, mas não vai na causa, que é o desequilíbrio emocional por conta da relação, e o corpo na busca pela homeostase, vai procurar aliviar essa tensão através do comer, se o padrão utilizado para aliviar a tensão para essa pessoa for através da comida, mas pode ser através de qualquer outro vício.

E aí os cenários (casa, trabalho, etc.) variam e os personagens coadjuvantes também (namorada, chefe, mãe, etc). Resolver um conflito, uma relação, pode ajudar a aliviar a ansiedade, mas se não for feito um trabalho para mudar o mecanismo de alívio das tensões, ou seja, se não trabalharmos o complexo do comilão/glutão, quando resolve a situação no trabalho, naquela semana não come muito, mas quando briga com a mãe, volta a comer. Ou quando sente o cheiro do bolo que está assando no forno, o complexo vem e nos toma de súbito, e o final da história já conhecemos. A psique é dinâmica, e os mecanismos são interligados; o modus operandi é o mesmo, só muda o cenário e o coadjuvante.

Todos estes fatores são satélites num quadro de obesidade efeito sanfona, pois conserta uma coisa, emagrece; fica ansioso com outra, engorda; faz bariátrica, volta a engordar; e assim vai. Eu emagreci 20kg, saga descrita neste blog, e por questões importantes que aconteceram há alguns meses, voltei a engordar. Perdi o ânimo de escrever no blog, perdi o ânimo de emagrecer. Tudo perdeu o sentido. A palavra ânimo tem a mesma origem da palavra alma. Fiquei sem ânimo. Inanimado. Sem alma. E isso, em termos junguianos, significa estar sem tesão pela vida, sem vontade de viver, sem sentido para a vida. Essas são características da depressão, correto?

A depressão é tratada com remédios e/ou terapia. O remédio vai cuidar das questões bioquímicas, mas na bula não vem escrito qual é o sentido da vida. A terapia muitas vezes vai ajudar a lidar com as situações do dia-a-dia, e também se o paciente e o analista estiverem “aptos”, buscarão esse sentido da vida. E buscar esse sentido muitas vezes assusta, e a pessoa foge da terapia e fica só com os remédios, e aceita o efeito sanfona, ou passa a bradar “sou gordo e amo isso” (e esquece das complicações de saúde por conta da obesidade, pois sua atitude “rebelde” é apenas contra o padrão de beleza das top models). Dica: sobre fuga da terapia, leia este texto: Complexo materno, relação transferencial e o Puer/Puela Aeternus, de Waldemar Magaldi. O Puer é sempre mencionado por aqui.

E esse sentido tem a ver com ele, ninguém mais, ninguém menos, que o Self. Neste texto do blog Café com Jung tem uma explanação maior sobre o Self. Mas vamos traduzir de uma forma simples para este texto: o Self, também chamado de Si-Mesmo é o centro da psique, e a própria psique como um todo ao mesmo tempo; é uma imagem arquetípica do potencial mais pleno do homem. O ego é o centro da consciência e lida com os aspectos disponíveis na consciência; o ego é um complexo, criado a partir do Self. O Self ativa arquétipos e complexos e assim forma a personalidade, e abrange consciente e inconsciente.

Quando vamos falar de potencial mais pleno do indivíduo, estamos falando do mito de significado; a que veio aquela pessoa; qual o daimon, ou seja, qual a missão daquela pessoa. Daimon também assume outras palavras como vocação, chamado, anjo protetor. A Dra. Ercilia Simone Magaldi explica melhor neste artigo aqui o que é daimon.

O daimon é um chamado para a realização existencial; e quando negamos ou protelamos esse chamado? É uma auto-sabotagem também. Mas também adoecemos.

Meu Self decidiu se manifestar há quase um mês. Mandou-me uma dor lombar horrorosa. Escrevi parte deste texto enquanto estava internado em um hospital. A medicação pra dor foi bem forte: morfina. E os médicos todos olharam com uma cara de “xi… vou ter que dizer…” e me orientam a emagrecer. O excesso de peso já afetou a coluna, teve um excesso de carga nas vértebras lombares.

E a que isto está associado? Senta que lá vem história. Estar no local errado na hora errada faz a gente chegar no fundo do poço, e ter uma não vida. Não vivemos, apenas sobrevivemos. Quando existimos APENAS pela sobrevivência, despertamos instintos que nem desconfiávamos; traduzindo, quando estamos focados numa só coisa, como no apego de não perder um emprego, ou no apego a um relacionamento, complexos agem em seus aspectos negativos; aspectos sombrios negativos emergem. E criamos aquele padrão energético negativo ao nosso redor.

Aí tudo de bizarro e ruim acontece; desde aparelhos eletrônicos que queimam, secadora que quase incendeia a casa, até chuveiros que caem da parede e te dão choque, passando por problemas elétricos no carro, e até o atropelamento de uma pessoa que entra na frente do seu carro. Esses são só alguns fatores ilustrativos de que, somando tudo, é uma maré bem ruim. Que culmina com as vértebras L5/S1 pedindo socorro, pois estão esmagando o disco. Um parêntesis, leia aqui um artigo sobre a manifestação do Self.

Quando o Self nos põe de molho, é melhor prestar atenção na vida. E o molho é uma espécie de solitária. E é solitário também. Aproveitamos o período para fazer uma avaliação. Internado no hospital vi que no quarto eu tive a privacidade para ficar comigo. Morri de saudades do meu cachorro. Fiquei 12 dias internado, e a festa que ele me fez foi grande e durou dias. Mas ali, no hospital, sem um wi-fi que funcionasse direito, com poucos canais de TV, refleti na vida. Tive a sorte de estar num quarto climatizado, então nem a janela abri. Foi como estar num útero, ou melhor ainda, foi fazer um útero. Onde gestei planos, tomei decisões, e tive o apoio de pessoas fantásticas. E assim, dar início a uma nova fase. E esse blog, que hoje ganhou um domínio .com.br, é apenas um dos planos. Em breve, teremos novidades!

E bon appétit!

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