Metanóia (ou meia-idade)

Assistindo ao Congresso Junguiano do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa), que pode ser acessado neste link, com meus mestres queridos e amados, e mais especificamente na palestra da Maria Cristina Mariante Guarnieri (linda! S2), me dei conta que nunca falei sobre metanóia aqui no blog!

Mandala - fonte: Google Imagens

Há exatamente 5 anos eu estava passando por um período doloroso e decidi procurar uma terapeuta nova. Já havia algum tempo que eu não fazia terapia, mas queria alguém com uma nova perspectiva. Eu tinha uma amiga que sempre me contava da terapeuta dela, e eu curtia muito o que a psicóloga falava para ela, então iniciei meu processo com a Janete Angelino, que me apresentou a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Comecei a participar do grupo de estudos dirigido por ela. Comecei a compreender um pouco mais sobre Puer Aeternus (figura mitológica, que pode dar origem a um complexo de mesmo nome; leia mais aqui).

E aquele psicólogo que eu era, que adorava Gestalt-Terapia, foi se encantando mais e mais com Jung. As coisas começaram a tomar outra dimensão, começaram a ficar mais profundas, e (parte) da busca pelo mito de significado começaram a ganhar, de fato, um alicerce mais estruturado. Digo isto porque já comentei aqui que eu sempre busquei compreender o significado existencial, mas foi a partir da psicologia junguiana que as coisas começaram a fazer mais sentido para mim.

Fui então fazer a Especialização em Psicologia Junguiana do IJEP, e fiz um trabalho acadêmico em grupo sobre o Puer, e em seguida fiz uma monografia, com o título: “A sombra na contemporaneidade – Aspectos sombrios do Puer na metanóia em relação ao sucesso profissional”. E tanta água passou por baixo da ponte, que sou muito agradecido por ter tido esse capítulo na minha trajetória, inclusive à análise com a Simone Magaldi e às sincronicidades com as amigas Elaine Bombicini e Talita Rodrigues (juro que comentarei sobre isso noutro momento!).

Na semana passada estava assistindo ao Congresso, e uma das palestras, de Andreza Wurzba, trouxe o assunto da dor; a dor enquanto recado do Self para se pensar na grandeza do significado da nossa vida, da nossa trajetória, para onde gostaríamos de estar indo e para onde de fato estamos indo. Recentemente fiquei internado por conta de uma protrusão lombar, e na internação repensei diversos aspectos da minha vida e comecei a tomar atitudes de mudanças, de retomada de projetos antigos.

Como um testemunho deste ponto de vista junguiano posso dizer: ficar acamado é uma ótima oportunidade para passar a vida à limpo, mentalmente; como propõe James Hillman, contar a nossa história de trás pra frente, encontrando não o por quê das coisas terem acontecido de determinada maneira, mas alcançando o para quê as coisas aconteceram daquela forma; a finalidade, o objetivo – isto significa dar um significado ao que nos acontece, na direção de um crescimento pessoal.

Mas parece que para começar a alcançar essas reflexões íntimas a gente precisa estar mais inclinado às questões fundamentais da vida, e para Jung, esse momento costuma chegar na meia-idade, na metanóia. Para explicar um pouco sobre o assunto, transcrevo um trecho da minha monografia:

“Para Jung, entre os 35 e 40 anos, há o começo de um movimento importante, inicialmente inconsciente, podendo ser mudanças no caráter, traços da infância que retornam, ou ainda, novos interesses aparecem. Pode ocorrer uma preocupação com um significado para a vida, com um senso de utilidade e com questões espirituais, contudo, princípios de ordem moral podem causar endurecimento, podendo beirar o fanatismo e a intolerância.”

Mais adiante escrevi “Hillman então propõe a revisão da vida em busca do caráter, que descreve como o conjunto de traços e qualidades, hábitos e padrões que nos faz diferente dos demais, fazendo parte do nosso processo de diferenciação, isto é, o que ao longo da vida, nos difere dos outros. O caráter é a força viva e orientadora que dá à velhice valor e significado”.

Todo aquele movimento de revisão da vida, que me exigia uma nova postura para não ter mais aquela dor emocional, há 5 anos, no alto dos meus 31 anos, seria então o embrião da metanóia? Mas Jung não nos diz que o início é entre 35 e 40 anos? Pois bem, a M. Cristina Guarnieri, na palestra do Congresso, menciona que não se atrela tanto à idade em si, mas sim ao “momento em que as questões se tornam fundantes”, nas palavras dela. Ufa! Me deu um alívio porque pensava algo semelhante e ela, autoridade no assunto, ao falar sobre isso, me deu a certeza que estava seguindo uma boa lógica de raciocínio.

O si-mesmo, ou self (a nossa psique em totalidade) nos dá recados através das dores emocionais e/ou físicas; nos coloca para pensar e revisar a vida. Eu experimentei as duas possibilidades, num crescente. E ao recorrer à minha monografia para pegar a definição de metanóia, me deparei com o título. Foi a primeira coisa que vi (está no nome do arquivo). E parei pra refletir nos últimos 10 meses. Caraca, já terminei a especialização há 2 anos, e várias outras fichas caíram agora. Ao amadurecimento e crescimento podemos chamar de processo de individuação.

Pois é; vivi um momento importante profissional na época de escrita da monografia, mas 2 anos depois, meu self me manda uma protrusão discal lombar para me deixar de cama para pensar mais um pouquinho, só mais um pouquinho, um pouquinho de nada na vida, e que fez toda a diferença, e me levou a um caminho de auto-realização, algo que me faltava e que eu fico pensando hoje: “puxa, era só ter feito isso, ter tido essa pequena iniciativa, por que demorei tanto?”. A resposta: medo do que os outros iam pensar. Clichê… Mas quando contei que comecei a fazer o curso de teatro, recebi apoio da maior parte das pessoas!

Em psicologia junguiana costumamos refletir no deus mítico que está por trás de um sintoma, através do complexo “[…] cujo cerne é um arquétipo. Não se busca a ampliação mítica, e sim o conteúdo significante. O processo de individuação é natural e autônomo, desde que nos permitamos a transformação (esta permissão advém do ego, através da vontade). Em seu decorrer, com o conhecimento do mito que se vive, o reconhecimento da sombra e da conscientização de nossas projeções sombrias […] Nesta linha de raciocínio, […] para desenvolver a liderança é necessário o autoconhecimento, e a abertura para a transcendência, desenvolvendo a visão de futuro e a intuição, com a força arquetípica do senex, o Velho Sábio, conectar-se com o humano e não humano, com a vida passada, presente e futura, ou seja, através de uma atitude espiritual, de maneira inspiradora, dinamizadora e unificadora, provocar uma reflexão para a tomada de consciência nesta jornada do processo de individuação e cura do complexo do puer. […] A sombra tem um papel criativo e importante na meia idade: ao chegar nesta fase, segundo Brennan e Brewi[1] , a pessoa que está fixada em padrões psicológicos e acomodada, inclusive no trabalho, depara-se com uma crise. A sombra começa a emergir quando as partes inconscientes da personalidade, ignoradas ou rejeitadas pelo ego começam a aparecer.”  (Como indiquei antes, para compreender melhor o complexo do puer, clique aqui, e lá também falo sobre o arquétipo do senex; menciono estes dois arquétipos pois são o foco do meu estudo sobre metanóia. Menciono como característica a liderança, a liderança da própria vida, tomar as rédeas da própria vida).

Na meia-idade vamos nos deparar não só com a beleza poética e filosófica de pensar no sentido da vida; vamos também nos deparar com a sombra, aquela parte nossa que negamos, que deixamos escondidinha debaixo do tapete. Nem sempre a sombra é coisa ruim; podemos esconder nossas qualidades, não reconhecer nossas potencialidades. É preciso pensar na integração dos opostos, como propus aqui.

Na minha monografia enfoquei o lado profissional pois acredito que parte do nosso mito de significado (o motivo útil da nossa existência) vem através do trabalho, da profissão, que devolve ao mundo, seja em qual ofício for, o servir. E também quando nos doamos, quando damos o melhor de nós, o carinho, o amor, por mais simples que seja a tarefa. A arte transmite mensagens; a palavra científica transmite mensagens; a palavra religiosa transmite mensagens. Porém, enquanto sociedade precisamos uns dos outros. Mas é preciso valorizarmos uns aos outros (e a nós próprios também). Costumo dizer que de nada serve o trabalho do neurocirurgião num centro cirúrgico sem o trabalho da equipe de higienização; teríamos muitas infecções. Todos somos importantes. E todos podemos buscar o servir através do nosso trabalho.

Se para Jung na primeira metade da vida buscamos a conquista das coisas materiais, na segunda metade da vida, i.e., a partir da meia-idade, vamos nos atentar mais para o ser do que para o ter. Podemos nos deparar com nosso chamado, nossa vocação, o chamado da alma, o chamado do self, aquilo que precisamos realizar, e se não realizamos, adoecemos fisicamente e/ou emocionalmente. Repare quantos casos de depressão estão associados à perda do sentido da vida, ao distanciamento da vocação. Mas ao usar nossos símbolos internos para a construção, usar nossa riqueza simbólica para nos aproximar do chamado/vocação nos traz uma devoção semelhante à de um sacerdote, preenche nosso existir, nos traz sentido para a vida.

Por fim, como psicólogo, desejo profundamente que possamos começar a refletir sobre isso desde cedo, para que enquanto sociedade possamos construir um mundo melhor, nos habituando ao movimento de recolher nossas projeções sombrias e buscando, cada vez mais, o servir, através da busca da realização das potencialidades do self, do nosso daimon (missão/mito de significado/vocação), utilizando como ferramenta o processo de individuação.

Que os chamados sejam escutados. Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

[1] As autoras do livro “Arquétipos Junguianos”, Anne Brennan e Janice Brewi, são Doutoras em Crescimento Espiritual e Psicológico na Vida Adulta. São fundadoras e diretoras da organização sem fins lucrativos Direções da Meia-Idade Inc.

 

Compartilhe:

Esta entrada foi publicada em Carl Jung, Daimon, James Hillman, Processo, Psicologia, Psicologia Analítica, Self e marcada com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta a Metanóia (ou meia-idade)

  1. Rodrigo! que bacana a maturidade do texto, demonstra claramente seu percurso, com todas as dores e amores! Que benção a protrusão lombar. Como disse Andreza Wurzba na palestra: a dor é um presente do Self.
    E saber utilizar o que atormenta em benefício para o outro, é ter o bom uso do conhecimento, é transformar a informação em sabedoria. Os aprendizados oferecendo oportunidade de narrativa! Realmente a palavra cura! Que excelente texto.
    Parabéns!! <3

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *