Memória afetiva na alimentação e na atividade física

Todo mundo tem uma lembrança de uma comida deliciosa, mas que a delícia não é apenas a comida em si, mas todo o contexto: por quem era feita, em que situações era feita, com quem era saboreada…

Tem também as comidas aversivas, a exemplo da canja, ódio de muitos adultos que ficaram internados em hospitais quando crianças.

O fato é que a relação com a comida é aprendida desde cedo, e o ser humano, através de um aprendizado social, vai desenvolvendo atitudes e comportamentos associados às emoções no contexto alimentar.

Ao longo dos anos os hábitos alimentares podem mudar, entretanto a memória afetiva é nostálgica, cheia de afeto. Mas é tão gostoso lembrar da minha avó fazendo bolinho de espinafre! Ah, a sua fazia bolinho de chuva? Tá vendo, é disso que estou falando! Dessas recordações que envolvem comida. Não é apenas o bolinho de espinafre ou de chuva que ninguém faz igual, pois de repente até faz, mas é da afetividade que envolve a situação.

Mas onde está o problema disto? Quando essa memória está presente sempre e faz mal pra saúde física, psíquica ou ambas. Pra saúde física vamos tomar por exemplo uma senhora diabética e obesa que faz uma receita bomba duas a três vezes por semana: fritada de ovo batido com batatas fatiadas. Na infância ela só comia arroz com essa fritada, tudo feito pela avó. E até hoje esse hábito se repete, e sempre que faz a receita deixa claro que é por conta da Nona, o que nos mostra também uma fixação psicológica em uma determinada fase.

Toda vez que eu como fogazza de presunto e queijo eu lembro da minha época de colégio. A cantina do Rui era especialista! O queijo derretendo misturado com o presunto… Ah, que lembrança boa! E como eu comia! Uma ou duas por dia, e ela aliviava minha tensão sofrida pelo bullying escolar. É, dificilmente alguém alivia as tensões comendo alface com pepino, então matematicamente, o corpo começa a engordar. Toda vez que como uma fogazza de presunto e queijo, o sabor daquela do Rui me vem à memória.

Leite, para mim, é um item indispensável. A nutricionista me convenceu a deixar o leite integral e ir para o desnatado, mas eu só fiz a mudança mesmo quando coloquei as três caixas lado a lado e comparei as tabelas nutricionais do integral, semi e desnatado. Mas o leite tem que vir junto com achocolatado. Toddy me lembra minha tia, pois era o que ela e meus primos usavam. Nescau, aqui em casa. Cheguei a ligar para a Nestlé quando mudaram o sabor do Nescau, deixando só a versão 2.0. Um alívio quando a atendente me disse que iriam voltar a produzir o original, pois estavam tendo muitas queixas.

Mas só quem ama uma coisa que deixou de ser produzida vai entender o que estou falando: a frustração por nunca mais poder sentir o sabor de algo tão bom, e que tem uma baita memória afetiva. Você tem algo assim? Eu tenho: Supligen. Ah… meus verões na adolescência… regados à jogo de taco, vôlei, praia e Supligen, um alimento altamente engordativo, mas delicioso, ainda mais se fosse feito com leite. E a Nestlé não vai voltar a produzir. O mais próximo em sabor é a bebida láctea Alpino.

Este post não foi patrocinado pela Nestlé, juro!

Com a mesma força, do lado contrário, temos aquelas comidas aversivas. Não sou fã de maçã, pois minha mãe mandava na lancheira um sanduíche enorme e uma maçã argentina gigante, e a professora me fazia comer a maçã inteira. Peixe também não curto muito. Dona Dalva, também conhecida como minha mãe, adorava as modas dos anos 80: de Biotônico Fontoura a óleo de fígado de bacalhau. Menos mal que o óleo era em cápsula, mas aquilo causava muito mal estar no meu estômago, com arroto sabor peixe toda hora. Até o dia que eu descobri que podia guardar debaixo da língua e cuspir atrás da estante. No dia da faxina fui descoberto e apanhei muito.

Pra mim o peixe tem sido uma ressignificação dessa memória afetiva. Nutricionalmente é um bom alimento e tenho consumido mais. Simbolicamente, dentre muitas coisas, significa nascimento. E num momento de mudança fui lá e fiz uma tatuagem de peixe tribal no braço. É uma das que mais gosto.

Quando falamos de memória afetiva lembramos de quem? Dos complexos, que foram gerados após impacto de uma grande carga de afeto! Uma pausa para mandar um salve pro Carl Jung!

Frase de Carl Jung: fonte - Google Imagens

Os complexos estão dentro de nós, e Jung mencionando os acontecimentos interiores nos remete ao autoconhecimento, este processo de tomada de consciência de tudo o que acontece dentro de nós, na esfera da psique, para assim transformar, amadurecer.

Tomar consciência de um complexo é um passo, conhecer como ele funciona e constela em nós, tomando conta de nós, tal qual uma personalidade autônoma é outro passo. Quando acessamos essa carga afetiva, essa memória afetiva, podemos ficar tomados pela nostalgia e comer algo desenfreadamente, diariamente, ou renegar alimentos que são necessários para a nossa saúde.

Aquele menino do comercial que pede brócolis para a mãe tem uma boa relação com o verdinho. Mas quantos tiveram uma boa experiência com verduras e legumes? São muitas vezes evitados, e isso denuncia que talvez haja um complexo e uma memória afetiva ali, que pode sabotar a reeducação alimentar.

E a memória afetiva traumática das aulas de educação física?! Quanta carga afetiva não esteve presente ao lado de muitos adolescentes, gerando complexos e mais complexos? A turbulência típica da adolescência pode incluir no combo o bullying, incompreensão das mudanças do corpo, administração da irrupção da sexualidade e sensualidade, entre várias outras coisas, e no meio do caminho pode haver um afastamento aversivo da atividade física e uma aproximação da comilança engordativa.

Certa vez fiz uma avaliação com um professor na academia, e quando ele descobriu que sou psicólogo, comentou que fez uma monografia sobre a adesão (ele usou outro termo que não recordo) aos treinos, mas que até hoje fica pensando o que dá errado. Eu já dei aula de psicologia na graduação de Educação Física, e hoje, com outra visão, eu incluiria uma aula sobre “aspectos psicológicos que influenciam no treino de adaptação”.

Este tipo de treino é o primeiro que nos é dado na academia, para que possamos nos acostumar com a nova rotina. Treinos longos de musculação com muitos exercícios podem não ajudar nesse momento. Obviamente um obeso ainda precisa organizar sua agenda e adaptar seu interior à nova rotina: destinar umas duas horas e meia para cada vez que faz um treino (alimentação pré-treino, deslocamento até a academia, troca de roupa, alongamento, aquecimento, musculação, aeróbio, alongamento novamente, banho, retorno à casa e alimentação pós-treino). Isso não se muda de um dia pro outro! Ainda mais com complexos gravitando ao redor, lembranças traumáticas e sentimentos, a.k.a. memória afetiva.

A academia, então, passa a ser um ambiente hostil, dificultando a adesão. A mentalidade é “resultado! Resultado! Resultado!”. Então a lógica seria quanto mais exercício, melhor. Será? A pessoa nem se adaptou direito à rotina. O corpo dói. Paralelo a isso a pessoa ainda está lidando com a reeducação alimentar. Aí surge a frase “pra ter resultado é 70% alimentação”. Não acho! Divida 100% em três: alimentação, exercício e trabalho psicológico, 33,33% pra cada!

E os saradões colocam no Facebook a piadinha “em janeiro academia vira igreja – todos à procura de um milagre”, com ares de vencedores superiores. Já vi até uma página de academia compartilhando isso (!!!). Então academia é uma local apenas para pessoas que saem do útero saradas? Isso pode broxar. A pessoa que sofria na aula de educação física na adolescência passa a reviver aquela memória afetiva de isolamento social.

A motivação é interna e o incentivo é externo. Ao deixar a vida sedentária nos deparamos com um misto de motivação e desmotivação. Temos o movimento de saída da zona de conforto, mas com uma corda elástica invisível que nos puxa à ela, e seu rompimento leva tempo, só que às vezes ela afrouxa e do nada nos puxa com tudo: efeito sanfona – sucumbimos a algo, a ser compreendido, trazido à consciência e se assim desejarmos, buscar a transformação alquímica desse movimento.

Este é o prato do dia! Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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