Então é natal… a batalha interna

Natal - fonte: Google Imagens

Então é natal… Época de ceias e almoços, com direito à música da Simone, à piada do pavê, ao amigo secreto com meia de presente e, para mim, ao pior de tudo: as frases dos familiares. Frases ativadoras de complexos, dos que desencadeiam a compulsão alimentar aos que te levam a soltar um palavrão mental.

Vamos lá? “E a namoradinha?”, “Quando você vai casar?”, “Você tem um rosto tão bonito, já pensou em emagrecer?”, “Você não estava de dieta?”, “Deixa de bobagem, hoje não é dia de dieta!”, “Pra que fazer academia? Come uma fruta que emagrece”, “A Joana está ótima, fez bariátrica”, “A Joana está péssima, fez bariátrica, está horrorosa!”, “Você deu uma engordadinha, né? Não estava fazendo regime?”, “Comprei G, mas se precisar a loja troca!”.

Na semana passada comecei a ler o Bhagavad Gítâ, pois gosto de ler sobre religiões, e quero entender melhor o Budismo. Já me perdi logo no começo, ainda na explicação sobre o livro sagrado, pois são muitos nomes difíceis, que não tem semelhança alguma com o português, só que a essência de um parágrafo me mobilizou:

“A batalha começou, quando Bhishma, o comandante dos Kurus, deu o sinal, tocando a sua cometa ou concha, sendo seu toque imitado pelos seus partidários, e respondido pelos Pândavas. Arjuna pediu a Krishna, ao princípio da batalha, que deixasse parar o carro no meio do espaço entre os dois exércitos inimigos, para ver de perto as principais pessoas que tomavam parte na luta. Vendo, então, seus parentes e amigos, tanto de um como do outro lado, ficou horrorizado por constatar que se tratava de uma guerra fraticida, e declarou a Krishna que antes queria morrer inerme e sem se defender, do que matar seus parentes. Krishna respondeu-lhe com um notável discurso filosófico que forma a maior parte do Bhagavad Gîtâ, fazendo Arjuna reconhecer a necessidade dessa luta, em que êle e os seus partidários, finalmente, alcançariam completa vitória sôbre os Kurus.” (Bhagavad Gîtâ, Edição da Editora Pensamento, p. 14-15).

O processo de emagrecimento e manutenção de um peso saudável pode nos deixar mais vulneráveis emocionalmente e a relação com o outro pode nos atingir, nos desmotivar, e muitas vezes deixamos passar as situações, engolindo o sapo. Não, não acho que é preciso arrumar confusão nos encontros familiares, ainda mais na época reconciliadora que é o natal; apenas acho que o diálogo pode ser importante. Porém, a batalha, a meu ver é interna.

O outro, muitas vezes, funciona como um espelho do que pensamos; ficamos tristes ou com raiva do que o outro nos disse; mas provavelmente por causa de uma projeção, enfim, vasculhando internamente, quem sabe não pensemos o mesmo?

Tentar convencer o outro que é necessário que eu faça dieta, ou que um assunto nos deixa ansiosos, e isso nos leva a comer, nos afasta do caminho que é convencer a si próprio. Claro que se o outro joga lixo, nos sujamos, como bem esclarece este texto do blog Sábias Palavras, do qual tiro este trecho a seguir:

“Não há nada mais esgotador do que escutar uma pessoa criticar e falar mal de tudo o que se move. Além disso, viver cercados deste negativismo acaba fazendo com que nos sintamos mal, pois as palavras e as atitudes de um ‘crítico’ são como um vírus que entra em nossa mente e a devasta. É melhor se afastar das pessoas que criticam, pois elas nos intoxicam e nos afogam de tal maneira que causam um desequilíbrio em nós. O preço de viver em tranquilidade é incalculável, por essa razão não devemos permitir que ninguém prejudique nosso espaço físico e psicológico” (Blog Sábias Palavras).

Por coincidência (ou sincronicidade?) o autor ainda cita Buda, depois dê um clique aqui e leia na íntegra. Mas vamos retomar o que estávamos dizendo. Pessoas negativas – mesmo que não tenham tal intenção – nos intoxicam. Porém, e quando nós fazemos isso com nós mesmos?

Podemos também ser a pessoa que intoxica o outro, criticando tudo e todos, nos achando o padrão máximo de perfeição – assumindo um ou dois erros, mas só para os íntimos. Mas o quanto NOS julgamos e condenamos? Só vamos nos incomodar muito com a crítica vinda do outro, se talvez pensarmos da mesma forma.

Fazemos o nosso próprio julgamento, com direito à sentença, às vezes num processo inconsciente, que nos leva ao adoecimento, às doenças psicossomáticas. A obesidade pode sim ser de fundo psicossomático. E falando em obesidade, quem está de mãos dadas com ela? O “Mr. Lover Lover” da dona Obesidade, sim, ele, o Efeito Sanfona! E então batalhamos arduamente, com muito suor, mas uma frase do OUTRO, ativa um complexo NOSSO. E voltamos a comer, desistindo no início, na retomada, ou no caminho.

Então, a luta, como eu vejo, é interna, pensando neste contexto, no trecho explicativo do Bhagavad Gítâ acima; consideremos os nossos complexos como os tais familiares citados no texto sagrado: estamos frente a uma batalha interna, mas não vamos deixar pra lá! Diante de todas as influências que recebemos no decorrer da vida, e diante dos  nossos complexos que nos tomam e constelam, o autoconhecimento e o desenvolvimento da perseverança e busca pela ação são a luta que travamos dia após dia, como quando eu digo sobre o self-service. Conhecer como o complexo funciona é começar a despotencializá-lo, e assim, vamos começando a ter outras atitudes, sem sucumbirmos a ele.

Ho ho ho e bon appétit!

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