Economia de percurso?

Em psicologia junguiana dizemos que persona é a máscara que usamos para nos relacionar com os outros. Ela é útil, sim, e digamos, necessária. Ora somos filhos, ora pais, ora profissionais, etc. Mas o que ela tem a ver com a economia de percurso de vida?

Embora eu acredite que estamos sim buscando constantemente um significado para a vida – compreender o mito de significado – inicio com uma citação de Joseph Campbell, que abre o livro O poder do mito:

“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos”.

Com essa citação, que embora contradiga no início dela que estamos buscando um sentido para a vida, acredito que podemos integrar ambas as visões: buscar um sentido para a vida e também a experiência de estarmos vivos. O que coloco no texto como economia de percurso se refere tanto à experiência de estar vivo como o aprendizado até chegar no sentido da vida.

Frase - "Todos nós precisamos enfrentar perdas, renúncias, fracassos e desafios para que a vida faça sentido" - Fonte: Facebook

Você já se perguntou se em algum momento da sua vida você perdeu tempo, batendo numa tecla ou investindo em algo? Provavelmente já. E o caldo entorna se você desde o início sabia que aquilo ali não ia render, que ia ser um atraso de vida.

É como se nessa máscara que usamos, a persona, fôssemos colocando badulaques e lantejoulas, aplicando camadas e mais camadas de tinta, tentando encorpar algo, e que na realidade não nos representa de maneira alguma. E a máscara vai ficar tão pesada que uma hora vai cair no dedão do pé e machucar feio.

Posso falar por mim que a segurança em seguir um caminho ou outro me fez querer fortalecer tanto a persona em um ou outro aspecto, que a persona deixou de servir, e se tornou um invólucro folgado em alguns pontos, apertado em outros, mas que causou um grande incômodo e – por que não – uma série de machucados.

Me refiro a situações tão antigas, mas tão presentes. Situações que já passaram, já finalizaram, mas que deixaram uma cicatriz que teima em não cicatrizar por completo. Eu sei que o ideal é a busca pela resiliência e superação. E o intuito não é ficar escrevendo mimimis. É fazer as pazes com o nosso eu lá do passado, bem, no caso, com o meu eu e cada qual com seu cada eu.

Caindo no lugar comum “se você pudesse dizer algo ao seu eu jovem, que conselho daria?”, eu diria pra ter mais segurança. Pra confiar mais naquilo que quer. Porque quando a gente não confia no que quer, fica dependente do que o outro vai dizer pra gente. Eu tive uma pessoa importante na minha vida que me ensinou muito, mas que também me levou a um processo de auto-des-conhecimento gigante. Julgava a pessoa ser mais experiente, inteligente e detentora de uma sabedoria que o jovem de 17, 18 anos que eu era, não tinha.

Eu tinha certeza que eu sentia X, ou que pensava Y. Mas a pessoa me convencia que eu estava errado e que tinham processos inconscientes e que eu sentia Z e pensava K, que eu estava em auto-engano. A inexperiência e a confiança me levaram a acreditar que eu devia seguir alguns caminhos, ditos e intuídos pela pessoa, os mesmos que o dela, pois eram caminhos bonitos e nobres – pelo menos eu achava.

Quando comecei a amadurecer e a perceber que aquele ciclo já não me pertencia mais, fui seguir outro rumo. E ao invés de corrigir a rota como um todo, fui colando mais lantejoulas naquela máscara que eu achava que seria a minha. Fui colando mais tiras de papel machê, sabe como é? Em cima da lantejoula. Foi ficando um remendo tão medonho – tão medonho quanto esta metáfora que estou tentando escrever aqui, mas que acho que traduz o que aconteceu.

Algumas coisas foram se encaixando, outras nem tanto, e aí chega a crise existencial. Que porra (existe outra palavra?) eu fiz da minha vida?! kkkk Um adoecimento aqui, outro ali, um quilo aqui, 22 ali, e a gente começa a pensar no sentido maior da nossa vida, na nossa missão, no nosso significado no mundo.

Sabe o que é mais engraçado? Lá pelos meus 20, 22 anos, época que comecei a refletir sobre aquela sandice e ver que aquilo ali não estava bom, o que eu mais procurava entender era sobre missão na vida. Sobre o sentido da minha vida. Fui lendo o material que eu tinha em mãos, recorrendo à filosofia de vida que eu acreditava na época, e sempre triste por estar colando camadas na máscara, pra tentar fortalecê-la, e triste por deixar de lado algo que eu sempre quis – mas que me foi dito que não era nobre, ou não era importante.

A porcaria é que quando a gente não tem a tal da segurança, a gente acredita nos malucos que aparecem na nossa vida. E acreditamos neles porque gostamos deles. São pessoas legais, não são vilões. Apenas estão vivendo como acreditam, e a gente compra bilhete pra mesma sessão. E aí nos tornamos os vilões da gente mesmo. Mas bola pra cima, que não é autoflagelo isso aqui não.

O tempo passa, e você se torna cônscio desse processo, e luta contra. Só que algo tão típico da personalidade não muda de uma hora pra outra. Você só contorna a situação. E é claro que vai cair nos mesmos erros.

Não, não estou sendo pessimista. Na vida é preciso lidar com os aspectos negativos também. E é preciso aprender a lidar com a nossa sombra, no sentido junguiano da palavra (leia um pouco mais aqui e aqui).

Só estou escrevendo o que eu gostaria de ter dito pra mim há muito tempo, para ter a tal economia de percurso, pois é como bem disse o mestre Carl Jung, “aqueles que não aprendem nada sobre os fatos desagradáveis de suas vidas, forçam a consciência cósmica que os reproduza tantas vezes quanto seja necessário, para aprender o que ensina o drama do que aconteceu. O que negas te submete. O que aceitas te transforma”.

É claro que nos caminhos andados conhecemos muitas pessoas queridas – e que se não tivéssemos errado a rota, provavelmente não teríamos conhecido. Essa é a beleza. Uma beleza sublimada, porque na verdade é dolorido… Mas essas pessoas queridas nos acolhem e nos ajudam a ver as coisas de uma outra maneira. Existem pessoas que fazem parte de um processo de sincronicidade, que foi descrito por Carl Jung como sendo a relação entre dois eventos, que aparentemente não tem nada a ver, mas que depois você descobre que fez a diferença total. Aí vem o crescimento.

Tem aquela frase: “faria tudo outra vez”. Honestamente, eu acho que não faria tudo outra vez, olhando pra minha história. Se fizesse tudo igualzinho seria masoquismo e indicaria a falta de aprendizado. Foram erros que me custaram. Então preferi assumir o que quero, buscando esse algo para aí sim, dizer “faria tudo outra vez”. E não é que esse algo estava ali, o tempo todo? Quando a gente assume isso, se pergunta “por que demorei tanto?!”. Talvez a tal economia de percurso não exista, vamos aprendendo com os erros, mas talvez daí comece a surgir o embrião da sabedoria que vamos gestando no decorrer da vida.

Frase - "a vida é curta demais pra viver o mesmo dia duas vezes" - Fonte: Facebook

Ah! E o que isso tudo tem a ver com o blog? É que colar tanto papel machê nessa máscara, pode simbolizar a obesidade usada como mecanismo inconsciente para se preencher o vazio sentido pela não realização de algo que nos é desejado, e/ou a busca por um fortalecimento simbólico através do alimento real. É a tentativa de fortalecer aquilo que sabemos que somos em essência quando ficamos refém do que o outro nos diz.

Pegando carona na música Índios, “nos deram espelhos e vimos um mundo doente”: não, não devemos incorporar a maluquice alheia. Já basta a nossa luta interna entre insegurança e segurança. Não importa se teremos 20 anos ou apenas 1 dia pela frente. Importa dar ouvidos à voz da nossa alma. E assumir que ela quer algo que certamente nos fará viver o nosso mito de significado.

Por enquanto é isso, “vamos viver tudo o que há pra viver”, como diria Lulu, e bon appétit!

PS: Após ter escrito este post e tê-lo agendado para publicação, recebi uma mensagem linda da Elaine Bombicini, minha amiga, também terapeuta. E claro, vou compartilhar aqui, porque sintetiza uma série de sincronicidades que a Elaine trouxe pra minha vida nos últimos meses. E sintetiza também o que sinto nessa nova jornada que venho construindo, e que a contento vou abrir aqui no blog. Vamos à mensagem, que transcrevo tal e qual:

História do bonequinho de Sal – uma história para simbolizar

Certa vez, na distante terra dos bonecos, nasceu um lindo bonequinho, mas, que tinha uma diferença com relação aos outros de sua espécie. Ele, por obra divina não nasceu de algodão ou de pano como os outros bonequinhos. Ele era feito de sal. Era único em sua terra. Quando criança sempre perguntava a seus pais por que sou de sal? Papai e mamãe bonecos não sabiam responder à pergunta. E assim, com esta dúvida, o bonequinho cresceu. Certo dia, quando jovem, decidiu sair pelo mundo, a fim de encontrar a resposta para sua dúvida. Começou a andar… A cada boneco que encontrava fazia a pergunta; Você sabe por que eu sou feito de sal? Por que eu nasci de sal? Porém a resposta sempre era negativa aos seus anseios e duvidas. Continuou a andar. Andar e andar. Andou por muitos anos. Por toda a terra. E fez as mesmas perguntas; Você sabe por que eu sou feito de sal? Por que eu nasci de sal? Não obteve a resposta. Um dia, deparou-se com o inesperado. Estava diante do MAR. Não havia mais terra para percorrer e nem bonecos a quem questionar. Entristecido em frente ao mar, pensou; As terras acabaram não consegui obter minha resposta. Vou retornar para minha casa. Ao dar meia volta, neste instante ouviu uma voz forte e poderosa que disse; BONEQUINHO. BONEQUINHO. O bonequinho, um tanto assustado, perguntou; Quem está falando? A voz respondeu; SOU EU BONEQUINHO. O MAR. O que você deseja poderoso mar? APROXIME-SE. APROXIME-SE BONEQUINHO. O bonequinho aproximou-se e uma pequena onda veio e dissolveu seu pé. Assustado o bonequinho desejou fugir. Mas o MAR insistiu; APROXIME-SE BONEQUINHO. NÃO TEMAS. ENTRE AQUI. ENTRE AQUI. O bonequinho teve coragem e começou a entrar no mar. A cada centímetro mais o seu corpo Sumia. Sumia. Sumia. Antes, porém, de sumir por completo, o bonequinho, satisfeito disse:

AGORA SEI QUEM SOU. EU SOU O MAR.

Para saber:

BONEQUINHO DE SAL nos foi contada – para a turma de Educação Especial da UFSM – pelo Professor Jorge Luiz da Cunha no primeiro dia de sua disciplina “História da Educação”. O ano era 1998 – 1999. Já perdi a conta de quantas vezes eu já a contei em Congressos e Palestras. Apesar dos anos BONEQUINHO DE SAL sempre esteve e ainda está comigo! Alex Garcia – Pessoa Surdocega.


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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2 respostas a Economia de percurso?

  1. Bom dia Mar!!!
    que belo depoimento/processo/percepção da Vida você nos trouxe hoje!
    Fiquei feliz por você e muito comovida pela bio em letras.
    Quando recontamos nosso processo ele se configura em imagens e estas pelos símbolos nos amplificam o “fazer alma”.
    Gostei de perceber a sua percepção! O mundo é mais que razão – é SENTIR! com isso a vida ganha sentido e veracidade.
    Ou se quisermos metaforizar: nada como um bom chá de bússola para achar o norte! rsrs

    Ler seu post, vaelu cada (lonnnnngo) áudio de nossas trocas.
    Que os dias sejam: leves – lindos e pelnos.
    beijos, Elaine

    • rcesarc disse:

      Bom dia Mar!!!!
      Amei o chá de bússola! Amo nossos chás bussolianos (?!) bussolínicos (?!) em áudios que começaram a nortear minha nova etapa. Etapa esta que alguns meses após ter se iniciado me trouxe uma completude que vinha buscando há pelo menos 20 anos.
      Como é bom quando o universo nos traz as ondas desse Mar, e você, uma ondona linda que me abraçou!
      Gratidão eterna!
      Beijão!

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