Descida ao Hades usando as incoerências como corrimão

Fonte: http://conhecendoamitologiagrega.blogspot.com.br/2013/01/o-deus-do-mundo-inferior-e-da-mortehades.html
Hades – o Deus do mundo inferior e da morte – Fonte: Conhecendo a mitologia grega

Muitas vezes precisamos chegar ao fundo do poço. Só assim pra sacar que não dá pra ir mais fundo, e então é hora de subir.

Faz quase um ano que não escrevo por aqui, embora tenha compartilhado alguns links na página do Facebook.

De lá pra cá posso dizer que o grupo no WhatsApp foi bom para a Sra. B, e para mim não. Mas a culpa é… bom, não tem culpa.

Acontece que minha vida virou de cabeça pra baixo há mais ou menos uns dois anos, e passei por provas hercúleas para estar de pé hoje.

Decisões importantes a serem tomadas, planos e mudanças de planos, viagens, saúde física e psíquica foram temas vividos – e beeeeem experimentados, com dulçor e amargor.

São tantas coisas pra dar conta e pra gerenciar que claro, não conseguimos dar sustentabilidade a tudo, e o caminho mais fácil é a mesma válvula de escape de sempre, ou seja, o comportamento que traduz o vício. O vício é um comportamento repetitivo e prejudicial. Comumente associamos ao cigarro e bebidas alcoólicas, mas pode ser comida, jogo, sexo, trabalho, etc.

Claro que o foco deste blog é o vício em comida, e a dificuldade na manutenção ou na sustentabilidade do emagrecimento.

Quem é que não sabe alguns dos passos pra emagrecer? Mas tendemos a buscar soluções mágicas e imediatas para isto.

Mas não fazemos um exame de quem somos, qual o nosso papel no mundo e qual o papel da obesidade na nossa vida. Já falei antes sobre a real beleza aqui, e sabemos que emagrecer não é apenas por beleza, e sim por saúde, e que achar que estar acima do peso e aceitar isso é a real beleza, pode ser um tiro no pé (segunda chamada para o post mencionado acima). Engraçado que vi esses tempos um texto no face que era preciso ouvir sim que estava gordo, pra sair da zona de conforto e correr atrás do emagrecimento.

Nesse caminho todo entre outubro do ano passado e hoje fui pesquisar muitas coisas. E só acho o aspecto psicológico da obesidade em mulheres. É como se os homens não tivessem uma psique para ser trabalhada no que tange ao emagrecimento. Acho que isso se deve porque nossa cultura sempre evidencia o emagrecimento apenas para mulheres, que buscam, muitas vezes, na beleza magra a auto-estima perdida. Claro que ser magro(a) traz auto-estima, mas a obesidade não pode gongá-la (vai, terceira e última chamada de verdade, os portões vão fechar, embarque no post mencionado acima AQUI).

É como se os homens, para emagrecer e continuarem magros, tivessem mais facilidade, ou fosse um assunto fácil.

Quando você segue um perfil no instagram, o aplicativo sugere fotos que talvez você possa gostar. E numa dessas cliquei numa foto cuja legenda era algo como “estou indo para a academia, elaborar o luto pela perda do corpo infantil”. Isso me lembrou das teorias de Arminda Aberastury, uma fofa da Psicanálise que só estudei um ou outro texto na época da faculdade, há mais ou menos uns 15 anos.

Nem me dei ao trabalho de levantar e pegar o livro empoeirado na prateleira, enfim, com o tempo seco é bom não dar pala pra alergias respiratórias. Dei um google e pronto, achei algo a respeito. Mas não era o texto de origem da Aberastury, era alguém falando sobre. Em suma: na transição para a adolescência, o jovem se despede do corpo infantil ou fica preso à ele, como uma forma de não entrar na adolescência e permanecer na infância. Vibrei até aqui, pois tem tudo a ver com o tema do Puer que estudei tanto para a pós em Psicologia Junguiana.

Um parêntesis: o Puer é a eterna criança, uns chamam erroneamente de síndrome de Peter Pan, mas é mais que isso. O Puer Aeternus é o cara (ou a cara, chamada Puella) que não sai da infância. Que tem dificuldades de lidar com os assuntos da vida madura. Ele é tomado pelo complexo do Puer Aeternus, e por exemplo, no alto dos 40 anos ainda está patinando nos assuntos que deveriam ter sido resolvidos no início dos 20 anos.

Puer Aeternus em imagem do AstroAtelier

Fechando o parêntesis e voltando para o texto sobre a teoria da Aberastury, me deparo com os dizeres: e o homem que fica se exercitando muito está usando este artifício como um jogo da infância para ficar preso ao corpo infantil.

Mas vem cá, o corpo infantil não seria aquele do franzino ou mesmo do gordinho fofinho menininho da vovó (complexo materno negativo)? Pra mim, o cara musculoso tem mais a ver com o Apolo. Mas enfim, toda teoria que vejo por aí sempre enfatiza o lado ruim de qualquer coisa. Seja da musculação, seja do próprio Apolo, seja do Puer, seja da busca pelo emagrecimento (que colocam como cabeça vazia, preocupação com a estética, futilidade, e blá blá blá). Sim, entendi que o texto dizia que ficar obsessivo com a musculação também evita a entrada na fase adulta.

Foto: Haris vythoulkas / Shutterstock.com
(Apolo na Academia de Atenas, Foto: Haris vythoulkas / Shutterstock.com)

Quieralho, mas custa pegar o lado bom? Caminhar faz bem, mas logo lembramos da outra que tem uma patologia e precisa andar tantos mil passos por dia, ou daquela que tem o transtorno alimentar. Parece que estamos reproduzindo as fogueiras da idade média, onde tudo o que é diferente de nós, merece ser queimado. Antes de seguir, preciso dizer que o Puer também tem o lado bom, tá? Ele tem toda a força criativa, que nos impulsiona, e se for integrado ao par complementar dele, o Senex (velho sábio), fica, ó, receita nota 10 da Namariabraga.

E o ovo, que já foi um bom alimento, um mau alimento, um bom alimento, um mau alimento, o mundo não decide se é bom ou não. Glúten passou a ser vilão mundial. Tapioca passou a ser a salvação. Pra evitar pensar que as coisas todas também possuem um lado bom, evidenciamos demais o lado ruim, assim, não precisamos sair da zona de conforto, e surgem mais desculpas que o número de resultados que o google traz em 0,36 segundos para uma pesquisa feita.

Jung nos ensina a integração dos opostos, luz e sombra, bom e mau. Então custa ver o lado bom do emagrecimento? Custa entender que se exercitar faz bem, e que tem muito musculoso inteligente (meu primo é um). Mas custa entender também que o excesso faz mal?

Andei assistindo por aí umas palestras sobre musculação e os novos avanços em atividade física (sim, falo sobre HIIT, HIIRT). Não sou profissional da área, mas me sinto esperto para reproduzir: de nada adianta fazer atividade intensa todo dia, se o corpo precisa de um tempo de repouso para se recuperar e aí sim mostrar resultados. Assim, o excesso de academia faz mal. E o excesso de intelectualidade nos afasta muitas vezes das ações físicas. Ou a aparência “pálido biblioteca” não existe?

Men sana in corpore sano, é a integração entre a mente e o corpo. Mas somos, o tempo todo, levados a cindir isso: “Não pode se exercitar muito, pois senão você fica vazio. Academia só tem gente superficial” (isso me dá sono). Mas e os intelectuais que se escondem atrás do saber pra se colocarem superiores aos que menos sabem? Superficialidade da alma do mesmo jeito.

O que escrevi acima eu já pensava antes, mas fiquei muito na dúvida, duvidei de mim porque o meu mecanismo é igual ao de muita gente: pra tentar achar algo dentro, olhamos para fora. E lá fora não tem a integração entre um lado E outro, mostram apenas um lado OU outro. E cada qual se achando melhor. E qual a referência interna? Até achá-la, vamos apanhar. Terapia ajuda, mas um bom terapeuta ajuda mais. Aliás, um péssimo terapeuta só estraga tudo. Sou contra aquele lance de “só de escutar você já está ajudando”. Mentira. Papo pra boi dormir. Um bom terapeuta não se usa disso como recurso pra bunda molismo de medo de fazer intervenções.

Só fui escrever sobre isso pois a página no face tem tido novas inscrições, e ela está tão quieta e sem atualizações… Decidi pensar um pouco a respeito, porque claro, estou no efeito sanfona, e neste exato momento, uma sanfona gorda.

Enquanto não tivermos a integração do gordo interno com o magro interno, vamos no efeito sanfona. Precisamos conhecer o gordo interno, sim, um dos nossos lados, e o magro interno, sim, outro dos nossos lados. Saber porque o gordo sempre sabota o emagrecimento. Saber porque o magro fica sempre na sombra, lá escondido, e esse gordo rolando e sufocando o magro.

Acho que é mais do que pensar só na teoria dos ganhos secundários, ou apenas da obesidade enquanto sintoma psicológico de que algo não vai bem, ou de que é apenas uma dificuldade de lidar com a sensualidade ou sexualidade.

É descer ao Hades (ou ao inferno, ou ao mundo dos mortos, ou mesmo ao inconsciente), usando as incoerências que temos e que encontramos como corrimão. E lá, no fundo da nossa sombra inconsciente, começar a tomar consciência e juntar os cacos, os traumas e complexos, e começar a entender a nossa biografia. Entender qual o sentido de cada deslize, de cada queda, de cada recaída. Não o por quê caí. E sim o para que caí. Que sentido tem essa queda na nossa história. Não acho que seja só um ganho secundário. Mas que fraqueza que ela revela, que precisa ser fortalecida? Que traço deve ser melhorado? Que ferida na alma é esta, que tentamos fechar e não cicatriza nem a pau? Como diria James Hillman, olhar a vida de trás pra frente, entendendo cada coisa na nossa vida como tendo uma finalidade para nosso crescimento, amadurecimento, superação. Simplifiquei muito a teoria dele, mas procure o livro O código do ser, ele é fabuloso. Jung e James Hillman são os caras. Hillman tem livros muito bons, como A força do caráter e O livro do Puer. (Sobre Puer, leia também Puer Aeternus da Marie-Louise Von Franz).

Minha analista está de férias, e o assunto nas últimas sessões era um. E este vai ter que entrar. Porque esta ferida está ligada com a outra que estava sendo tratada nas últimas sessões antes das férias.

Mas pra fechar, passei por um momento depressivo nos últimos meses, que não foi fácil. Mas que mudou em parte quando me deram um toque e eu vi uma situação bem específica de uma outra maneira. E por mais que a gente saiba que basta olhar de uma outra maneira, temos o olhar viciado. Mas esses são os dias de nossas vidas. E é isto que nos resta viver: a nossa história. E cada uma é diferente. Nosso dia a gente que faz. Como dizem Mark e Ethan, no Youtube, “Today’s gonna be a great day and you know why? Because everyday is a great day!”. Toma, aprende também com uns guris de 20 e poucos anos (o Senex deles já estão integrando com o Puer? Um dia falo mais sobre Puer e Senex).

http://markandethan.com/blogs/news/18989675-we-made-merch

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