A dança, de Klauss Vianna

Nos últimos meses conheci na prática, através da Atriz e Preparadora Corporal Livia Vilela, a técnica de Klauss Vianna, e à ela deixo, desde já, meu agradecimento.

Klauss, bailarino, coreógrafo e professor de dança (um dos melhores – se não o melhor – do Brasil), escreveu um livro chamado A dança, de leitura agradável, no qual ele conta, no início, sua biografia até então: o despertar da curiosidade de observar e entender o funcionamento motor do corpo, sua relação com o balé clássico, com a dança contemporânea, sua trajetória de Minas Gerais até São Paulo… E na segunda parte, Klauss discorre sobre muitos aspectos técnicos.

Klauss Vianna - fonte: Google Imagens

O mais interessante é que num livro chamado A dança você encontra várias informações que sobrepõem a dança em si e alcançam a atuação, a interpretação, a relação com o corpo e a individualidade.

Já mencionei em outros posts que eu estava me envolvendo com um outro projeto, que a contento, eu mencionaria. E chegou a hora! Sim, resgatei o projeto ATOR, que foi engavetado em 1996. Como pretendo ter o canal no YouTube do blog, decidi me aperfeiçoar na comunicação. Futuramente vou mencionar as sincronicidades que aconteceram no ano passado, que me deram força e coragem para retomar. E olha que é uma história com muitas, mas MUITAS sincronicidades, aquele conceito descrito por Carl Jung: dois eventos distintos acontecem e aparentemente não possuem relação entre si, mas depois você percebe que tinham tudo a ver – não é coincidência, existe uma relação de significado.

Bem, aqui no blog já expus tanto da minha própria história, e já expliquei como a nossa psique influencia no nosso corpo, tanto em aspectos da postura corporal – e das couraças, como nas somatizações.

O obesidade vem sendo há bastante tempo um dos meus objetos de estudo, bem como a minha trajetória e busca pela resiliência. E entrar para um curso de teatro significaria ter aulas de Expressão Corporal! Num momento em que estou acima do peso e com a coluna em tratamento!

Mas posso dizer? Me joguei nas aulas, estava predisposto a fazer todas as atividades! Apenas umas duas vezes minha coluna chiou e tive que dar um breque. Mas foi muito interessante. Foi um redescobrir. A técnica utilizada foi a de Klauss Vianna, muito bem empregada pela Livia. Alongamentos de maneiras diferentes, conhecimento dos apoios do corpo, conscientização corporal, conhecimento do funcionamento das articulações, e em uma das últimas aulas, a indicação para fazer tratamento com quiropraxista, ao qual dei início e mudou minha vida: depois de 8 meses tomando remédios para coluna, só estou com homeopatia e quiropraxia!

E agora vamos falar um pouco do que li no livro, e como isso se relaciona multidisciplinarmente com a Psicologia.

“[…] ao desequilíbrio emocional corresponde um desequilíbrio postural, provocado por tensões de toda ordem. No entanto, a tensão em si não constitui um problema, pois sem ela não conseguiríamos nos manter em pé ou suportar o peso de nossa estrutura […] Na verdade, o problema está no acúmulo de tensões, nas tensões localizadas que restringem a capacidade de movimento das articulações e dos grupos musculares, obstruindo o fluxo energético que atravessa o corpo” (p. 106).

Sim, Klauss estudou Wilhelm Reich, e aborda um pouco da teoria dele. Mas quando você começa a fazer um trabalho corporal na prática, e vai tomando consciência corporal, você pode revisitar mentalmente algumas épocas da sua vida. Foi o que aconteceu comigo, durante a retomada de um projeto engavetado há 20 anos. A relação com o corpo muda: tomando consciência das articulações você se sente diferente, você começa a fazer coisas de maneira diferente. Diferente daquilo que você vinha fazendo há muitos anos!

Você se senta, levanta, gesticula, observa, se apoia, ocupa o espaço de uma nova forma. Você está mais vivo, as articulações mais flexíveis – e quem é que não precisa lidar com flexibilidade os adventos da vida? Essa flexibilidade física ajuda na flexibilidade psíquica.

“Quando iniciamos um trabalho corporal da maneira como proponho, esteja ele voltado para a dança, o teatro ou qualquer outra atividade, a primeira necessidade que se impõe é a derrubada da parede que separa a sala de aula, onde exercitamos nosso corpo, do mundo exterior, onde vivemos nossa vida cotidiana. Não podemos nos esquecer de que o corpo que queremos exercitar é o mesmo com o qual nos acostumamos a correr, brincar, amar ou sofrer” (p. 110-111).

É ou não é? É! Quantas vezes nos dedicamos a uma atividade física, seja musculação, aula de ginástica, dança, zumba, crossfit, ou o que seja, e nos lesionamos? Achamos que pegamos pesado, exageramos na carga, que estamos “velhos”… Eu sempre busquei uma resposta para as minhas lesões. Já falei no blog que sempre que retomo as atividades, me lesiono. Cheguei a uma resposta recentemente: a progressão no aumento da carga na musculação estava rápida demais e olha que estava fazendo conforme fui orientado. E essa progressão rápida não respeita o que? A história do nosso corpo. Que por anos a fio foi se moldando e criando couraças e enrijecimentos. Como Klauss mencionou, há um acúmulo de tensões que obstruem o movimento. Não sou fisioterapeuta, mas creio que esse acúmulo de tensões possa favorecer uma lesão aqui ou ali…

Estou tentando aqui desenvolver uma ideia que é complexa e que engloba diversos aspectos. 1) Para fazer exercícios é importante respeitar a história do corpo – e por isso seguir treino de famoso do Instagram não dá; 2) Conhecer a história do corpo e saber dos percalços não dá alforria para fugir da atividade física; 3) Mas conhecer a história do corpo facilita na adesão da atividade física: você irá se deparar com movimentos que nunca fez, vai colocar o corpo em uma situação que ele não está acostumado: quem no dia a dia faz movimentos de musculação fora da academia? Ou quem sai correndo mantendo velocidade coordenada com respiração por mais de 10 minutos? Aliás, a corrida se resume a alcançar o ônibus no ponto. Conhecer a história do corpo vai nos ajudar a lidar com as amarras físicas que boicotam a adesão (psicológica) ao exercício físico.

Esse trabalho do qual fui aluno me fez começar a conhecer como me movimento, quais músculos estão envolvidos num movimento, quais articulações mexo; foi um acordar do corpo. Percebi o como me levanto errado, usando os apoios errados, sobrecarregando determinadas regiões. Mas são coisas que não adianta passar a receita: cada um faz de uma forma, cada um vai pesquisar em si como é isso, no decorrer das aulas.

“Quando soltamos nosso corpo – o que não significa despencar -, o movimento que executamos flui livremente, obedecendo a uma forma de organização natural, a uma linguagem gestual que, de algum modo, já constitui parte de nossa dinâmica e está em harmonia com nossa capacidade anatômica e funcional, com nossa capacidade de movimento” (p. 113).

Esse soltar engloba também espaçar as articulações. Como nos deixa bem conhecer a movimentação das articulações! Como é bom espaçar as articulações! Como é bom espaçar os ossos do pé! Massageie seus pés, conheça os ossos através do toque. Massageie espaçando os dedos, os ossos. Como reflexologista digo: massagear os pés ajuda no equilíbrio do corpo!

“Ainda é bom ressaltar que a preservação do espaço corporal atua para garantir uma boa relação de equilíbrio, pois quando se subtrai o espaço corporal, surge a tendência à diminuição da capacidade de equilíbrio e quando se consegue preservar e ampliar esse espaço, o equilíbrio alcança um ponto satisfatório. […] Como homens e seres naturais, deveríamos considerar e procurar respeitar as leis da natureza também inerentes a nós. O fato de sermos indivíduos culturais não elimina essa verdade, apesar de nos afastar cada vez mais dela. O que proponho é a retomada das leis naturais que regem toda existência, exatamente por meio do trabalho consciente” (p. 117-118).

Quando a gente fala de conscientização das questões inconscientes, psicologicamente, muitas vezes deixamos de lado a conscientização das questões inconscientes corporais. A obesidade é só um fator. Mas e as questões posturais? A forma como pisamos, como nos movimentamos. Tudo isso diz muito da nossa história de vida. Vamos considerar também os momentos que vivemos, conhecendo as inflamações, as entorses, as lesões. Muito papo “psi”, né? Mas olha o que diz Klauss:

“O que não podemos esquecer é que as pernas com as quais danço são as mesmas com que ando, corro, caio ou brinco desde criança. Nesse sentido, a experiência de uma vida pode ser traduzida, por exemplo, no simples gesto de erguer um braço ou uma perna” (p. 125).

Mais ainda sobre adesão, nesse contexto: “Não é à toda que certas pessoas são tomadas de grande ansiedade ou acabam abandonando as aulas quando se vêem diante de uma imagem que não corresponde mais ao que elas são, diante de novas possibilidades e potencialidades até então completamente desconhecidas ou esquecidas” (p. 124). “Existe um medo muito grande do autoconhecimento e a maioria das pessoas não resiste ao processo inicial, que sem dúvida requer uma grande dose de vontade e despojamento” (p. 130). Viu? Como disse acima, conhecer a história do corpo não significa carta branca para fugir dos exercícios. Mas isso também não se aplica aos desafios da vida? “Assim como o bambu, o corpo humano tem a propriedade de dobrar-se sem se quebrar – quando respeitamos sua natureza e colocamos em prática suas potencialidades” (p. 131). Pois é: potencialidades físicas E psíquicas. Não nos esqueçamos do Self, que é nossa totalidade, nossa potencialidade máxima enquanto existência. Falo sobre Self, sobre vocação, sobre nossa história (inclusive a do corpo!) e sobre mito de significado neste post aqui, não deixe de ler!

Por fim, quero deixar uma citação do Klauss para todos os que evitam o aquecimento antes das atividades físicas: “Volto, então, à questão do tônus: entre cada articulação existem cápsulas e essas cápsulas contêm um líquido que, conforme o aquecimento, começa a dar elasticidade à musculatura. Daí o valor de um aquecimento bem-feito, profundo e detalhado” (p. 140).

Bom, é isso. O aquecimento serve pro corpo e pra alma. Todas as nossas adversidades que vivemos até agora nos servem como aquecimento para o que vamos dar elasticidade na vida, ou seja a tal da resiliência. Bons exercícios pro corpo e pra alma! Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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