“Bonito burro ou feio inteligente?”

A busca pelo corpo perfeito… O padrão de beleza imposto pela mídia… Duas frases que estão sempre rondando o universo feminino, ainda mais em época de carnaval. Circulam pelos grupos de WhatsApp várias fotos de homens sarados segurando um cachorrinho, com a legenda “cachorrinho lindo”. Sempre defendi o corpo magro por questões de saúde, mas há quem busque a magreza (às vezes patológica) por razões estéticas.

Recentemente comentei que o setor de Recursos Humanos muitas vezes exclui um candidato acima do peso de um processo seletivo, e que isto é um processo velado. Há duas semanas assisti uma entrevista com um DJ que era obeso e que agora é todo saradão, e que disse que após emagrecer as pessoas passaram a confiar mais em seu trabalho, pois como ele é e como ele se veste passa confiança para quem ouve sua música.

Na mesma entrevista perguntaram a ele sobre quem ele iria preferir como parceiro: “feio inteligente ou bonito burro?”.

Parece que conquistar alguém bonito é um troféu. É como se eu, detentor da inteligência máxima suprema, fosse conquistar um burraldo lindo somente para ser meu escravo sexual. A versão feminina – e mais famosa – é a “lôra burra”.

Engajados militantes irão argumentar que importante é a beleza interior. Tá, mas de nada adianta QI e articulação política e filosófica se você morre de um problema cardíaco aos 32 anos por conta da obesidade.

A meu ver, o interessante é integrar as duas coisas. Explico a partir da tirinha abaixo:

Fonte: Google Imagens

O movimento que dissocia corpos musculosos de inteligência talvez seja a inveja. Nem todo feio é inteligente e nem todo bonito é burro. Enquanto sociedade partimos do pré-julgamento, do pré-conceito (aquela pré-concepção que fazemos acerca de algo ou alguém).

Mas isso nada mais é do que projeção. Ok, numa relação interpessoal captamos aspectos inconscientes do outro e vice-versa, daí surgem as antipatias e simpatizações, como bem explicou Carl Jung. Só que julgar pela aparência, rotular uma pessoa apenas pelo peso é complicado e perigoso, além de denunciar uma projeção.

Quando eu faço suposições baseadas em um aspecto, estou inferindo algo baseado em uma experiência anterior ou em uma ideia pré-conceituada minha. E ideia pré-conceituada está usando como referência a minha subjetividade, o meu inconsciente, e por que não dizer, a minha sombra, tudo aquilo que eu não aceito em mim, e escondo lá no fundo, inconscientemente.

Aí eu vejo pessoas criticando quem só exercita músculos. Tá, quem supostamente exercita o cérebro está deixando de exercitar músculos. Não está fazendo a integração men sana in corpore sano também! Mas acha que por compartilhar frases de efeito, piadinhas pseudo-intelectuais e críticas a este ou aquele partido político é o crânio. E transpassa isso no discurso, menosprezando todos os outros.

Ultimamente vejo no Facebook um menosprezo por quem gosta de carnaval, como se ser inteligente fosse apenas gostar de séries do Netflix. Ontem estava assistindo ao telejornal e uma reportagem mostrou os bastidores das escolas de samba, como as pessoas estavam felizes por suas realizações. Antes de mais nada, o carnaval é uma atração turística que traz dinheiro ao Brasil, assim como a bela Torre Eiffel e o Reveillon em Times Square em NY; e o melhor é que no carnaval estão começando a usar penas e plumas artificiais. Tinha um trabalhador na reportagem todo feliz, sorrindo, e quando percebeu que estava sendo filmado, fechou a boca, mas continuou sorrindo. O motivo? Não tinha os dentes da frente. Ele estava feliz pela realização dele! E essa sensação fortalece qualquer ser humano! É o mesmo sentimento de quem finaliza um projeto executivo com sucesso!

Vamos dissecar o carnaval: é um evento anual, e cada escola de samba trabalha em seu desfile por um ano. Ainda na apuração das notas já está definido o tema do próximo ano. Então eles montam projetos (ou jobs?). Cada um faz a sua parte, tem hierarquia, tem diretores, coordenadores. Há disciplina nos ensaios, chamada oral pra saber quem já decorou a letra do samba enredo. Mas surgem os críticos por conta da exposição dos corpos. E pintura e escultura de nus nos museus são de brincadeirinha, são café-com-leite?

Então sabe aquela alegria na festa de fim de ano da empresa? Ou na comemoração de um projeto bem sucedido? Era essa a alegria do rapaz. Que por seu esforço talvez tenha produzido muito mais do que pseudo-intelectuais que passam o dia na síndrome do impostor (achando que enganam bem todo mundo com um trabalho mediano). Mas ele, por não ter os dentes e por fazer um trabalho mais operacional, talvez poucos sejam os que validam a conquista dele, a alegria dele, e por que não dizer, a existência dele.

Só que assim é, infelizmente! Referente aos feitos profissionais e referente aos feitos pessoais. Este post é sobre tolerância e respeito. Antes de criticar é importante conhecer. Emagrecer não é só “fechar a boca”, é lidar com todo o aspecto emocional envolvido. Ficar musculoso não é só ir “puxar ferro”: tem todo um conhecimento para alcançar e principalmente otimizar os resultados. E ser inteligente não é só reproduzir conteúdo lido: é compreender e aplicar na prática.

Revisando o que escrevi até aqui dá a impressão de eu estar bravo – talvez eu esteja! Mas é com a hipocrisia. Vi no LinkedIn uma imagem de uma mandala de como deveria ser o profissional de RH: ser assim, assado, top, master, blaster. Faz-me rir. Deuses. E o pior, buscam Deuses – como se esses Deuses buscados fossem suprir todo o problema enfrentado pelas empresas, inclusive os de quem os selecionam.

É como no começo dos anos 2000 em que o importante era estar lendo um livro de romance por semana. Não servia muito um livro técnico – enfim, a pessoa tinha que demonstrar que tinha a leitura por hobby. E também só servia ler jornal impresso – quem lia notícias de internet não era bem visto – eram tidas como tímidas, com problemas sociais que só se relacionariam com máquinas.

Através de suposições e pré-conceituações que se define quem é bom e quem não é. Balela, tudo projeção.

Legal seria passar a régua e tirar uma média: nem tanto lá, nem tanto cá, ou seja, integrar inteligência (e cultura!) com saúde física, e sem crítica destrutiva nem de nem a ninguém! Elegância faz bem! Pra finalizar, veja o que o Jung diz:

Fonte: Google Imagens

É muita fofura numa pessoa só né?! Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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