Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais: complexos materno e paterno no emagrecimento

 

(Elis Regina e Maria Rita, em imagem encontrada no Google)

 

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais”

Nunca fui de ouvir Elis Regina (muito menos Belchior, o autor da música Como nossos pais), mas adoro Maria Rita, e fui ouvir o álbum que ela gravou em homenagem à mãe. Me deparei com essa música, que na semana passada ficou martelando na minha cabeça.

E comecei a encarar tanto o complexo materno quanto o paterno. Tá, o paterno acho que demora um pouco mais pra mexer, e vou ficar devendo um pouco neste post, mas achei que devia mencioná-lo no título. Oops, my bad. 😉

Saí em busca de artigos que falassem a respeito, e achei um muito interessante: O complexo materno não resolvido, no homem, causa dificuldade norelacionamento com sua anima. O primeiro parágrafo sintetiza toda uma reflexão que povoa minha cabeça nos últimos meses:

“Há casos em que o complexo materno tem uma influência velada, não sendo caracterizados como um desvio patológico propriamente dito, sua atuação é percebida de diversas formas e em diferentes fases da vida do homem, atrapalhando, senão impedindo, o seu relacionamento consigo mesmo e com outras pessoas” (Portillo, V. G.).

A anima é o lado feminino no homem, o lado do amor, do carinho, do fraterno. Relacionar-se com este lado implica também no autorrelacionamento, no autocuidado, no autoamor. A anima é a alma do homem, que dá vontade de viver, paixão pela vida e profundidade de existência.

Um homem com um complexo materno negativo, ou seja, a imagem interna de mãe negativa, ou que tenha tido más experiências com a mãe (ou quem a represente), ou que tenha tido uma mãe devoradora e castradora, provavelmente, sem elaborar estas questões, não vai ter um bom relacionamento com a anima.

Na crise da meia idade (ou metanóia) o homem passa a entrar mais em contato com sua anima. Essa crise geralmente acontece a partir dos 35/40 anos. Começam os questionamentos, as avaliações da vida, a busca por maturidade, e a espiritualidade começa a ter um foco diferente, já que geralmente as questões materiais e profissionais já estão encaminhadas. Algum problema de saúde também pode dar início a essa crise, colocar o homem de frente com seu mundo interior e como este se relacionou com o mundo exterior.

Temos tantas vertentes que é difícil generalizar num post de blog, mas podemos pensar no homem embrutecido que precisa lapidar-se para melhorar seus relacionamentos com a/o esposa/o e filhos; no homem que foi negligente com a saúde; no homem que desconhece a palavra autocuidado; no homem supostamente abnegado que a tudo renuncia em prol dos outros. Seja qual for o caso, a reflexão é importante. Mas o objetivo deste blog é o emagrecimento, e vamos passear por este caminho, carregando o porta-mala, neste post, com a psique masculina.

Qual o significado de um complexo materno negativo na história, biografia, de um homem?

“A anima poderá ser o próprio inferno na vida de um homem ou poderá ser seu verdadeiro paraíso aqui na terra, basta entender seu significado e não abandoná-la” (Portillo, V.G.).

Buscar este entendimento e significado requer olhar a vida de trás pra frente, como propõe James Hillman, no livro O código do ser. Para que me serve ter tido um complexo materno negativo, que afetou minha forma de me colocar no mundo, de ver o mundo, de me relacionar comigo, com minha missão e com as pessoas?

Pensar desta maneira tira a culpa da mãe por tudo aquilo que sou ou me aconteceu, mesmo porque a maioria das mães não é vilã, apenas tem complexos maternos atuantes também, e a maioria “age pelo bem dos filhos” (mesmo que isso possa trazer consequências não tão boas…). Pensar assim traz pra mim um desafio, uma lição, me dá um papel único no mundo, e porque não dizer, me dá uma identidade. “Sabe o cara que tem um complexo materno assim, assado, x, y e z? Então, esse cara sou eu”. É mais ou menos isso.

A Dra. Ercilia Simone Magaldi, analista junguiana e uma das fundadoras do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa) explica a singularidade de uma maneira bem clara:

“Singular não pode ser entendido como particular. Temos particularidades que uma a uma nos distinguem dos outros seres humanos, assim é que como ser humano temos particularidades próprias da espécie e também particularidades únicas que nos distinguem dentro da própria espécie; como mulher participo do gênero feminino, mas dentro dele possuo particularidades únicas; como mãe compartilho da experiência materna de todas as mães, mas a minha maternagem é particularmente especial e única dentre todas as mães, essas somatórias de particularidades, que ao mesmo tempo me possibilitam compartilhar grupos me distinguem dentro de cada qual, formam minha singularidade. O singular que eu sou pede uma realização plena, um sentido único. A individuação é isso, realizar o processo de nos tornarmos plenos e únicos” (Magaldi, E. S.).

Então conhecer o complexo materno, seja positivo ou negativo, conhecer a anima, faz parte do processo de individuação, que grosso modo, é o processo de evolução, com ampliação da consciência, e integração dos opostos internos.

Mas o que tudo isso tem a ver com Elis Regina, emagrecimento, anima e metanóia?

A metanóia é a época em que estou vivendo. Crises, reflexões, mudanças de ponto de vista, amadurecimento, blá blá blá. A anima…. ah…. essa vai me dar trabalho, e olha que eu achava que ela era bem integrada… Mas eu não percebia a extensão do complexo materno. E fui colocar mais atenção nisso por causa da dona Elis Regina, ou melhor, da filha dela.

Claro que já havia pensado sobre complexo materno. Me considero um Puer (ver mais neste post aqui), e todo Puer tem um complexo materno. E eu pensava que era apenas no contexto profissional. Mas o autocuidado, ou melhor, o autodescuido, precisa ser explorado. Conversei sobre isto em terapia e vamos ampliar.

Devo expor minha mãe? Bom, não tem jeito. Já adianto que ela tem qualidades, mas cresci assim: ao entrar na loja para comprar roupas, não adiantava querer procurar a melhor opção, era sempre a primeira que via, a da primeira arara (da C&A ou Mesbla) que devia ser levada (“Anda logo, pega essa aí mesmo”). Outras lojas eram território proibido, principalmente se fossem de shopping (“Demora muito”).

Corte de cabelo? Até o terceiro ano da faculdade usei o mesmo corte do meu pai (joãozinho meets capacete). Como bom Puer, fiquei nas barbas da mãe e pai até terminar a faculdade (e esse laço foi forte, olha, tô pra dizer que contra minha vontade consciente, ainda é). Gente, olha a construção da frase anterior: mãe não tem barba. Mas a minha é bem tomada pelo animus. Precisava desse parêntesis. Como fiquei nas barbas deles, foi um parto para convencer minha mãe a pagar academia, no meu terceiro ano de faculdade. Que aliás, foi a mesma época que mudei radicalmente o corte de cabelo. Frases da minha mãe: “não precisa pagar pra fazer ginástica, basta comer arroz e feijão”. Até hoje quando escuto a palavra “ginástica” me arrepia. Tudo isso – e mais – denunciam o autodescuido presente nos aspectos sombrios da família. Talvez em outra postagem eu escreva um pouco sobre sombra, e inclua uma parte sobre sombra familiar. Santo Jung.

Mas tudo isso que falei acima faz tanto tempo… 16 anos para ser mais exato. Tá longe, né? Já não moro com eles, já pago a academia com meu suado dinheirinho, já não preciso comer arroz com feijão, já sei que posso ir a restaurante (pois minha mãe é avessa a restaurantes), já sei que posso escolher o corte de cabelo e as minhas roupas.

Mas por que ainda ajo como aquele cara? Aquele cara AINDA sou eu. Quieralho! Vou lavar a roupa suja. Lavar ou não lavar? Minha avó paterna e minha mãe são adeptas da roupa eterna. Compraram uma roupa boa em 1913 e que dura até hoje. E usam somente elas (praticamente, tá gente, mas é quase isso mesmo, quase sem exagero rs). Minha mãe não usa maquiagem (e minhas irmãs também não). Meu pai se vangloria de cortar o cabelo a cada 6 meses, pois ele acha que tem o mesmo corte dos Beatles sensualizando na Abbey Road. O pai do meu pai morreu quando ele tinha uns 6 anos, então toda a noção de autocuidado dele vem da minha vó, aquela da roupa eterna. E eu, raramente compro roupas! E escolhi meu marido por ser super estiloso, ou seja, minha sombra.

São culpados? NÃO. N-Ã-O. Qual o papel disso tudo na minha vida? A que isto me serve? Cara, ainda não sei direito. Mas tudo isso pra dizer: preciso de autocuidado. E o autocuidado envolve o emagrecimento.

Cuidar de si significa cuidar da velhice também: um corpo saudável, firme e velho consegue se manter ereto, sem precisar de ajuda para usar o vaso sanitário, por exemplo. Cuidar de si significa dar continuidade, ou fazer a manutenção, ou ainda ter a sustentabilidade do emagrecimento e do peso saudável.

Se eu não consigo dar continuidade no uso de creme para acne, quem dirá dar continuidade no emagrecimento. Putz, deprimi agora. Mas… vigiai, orai, enfrentai, integrai, metanoiai, individuai rsrsrs.

Vou contar um causo antes de partir pra finalização.

Hoje fui almoçar no Subway. Estou na fila iniciando meu pedido e entram duas moças, e meu santo já não bateu com o delas. Ficaram atrás de mim, esbarrando a bolsa, me atropelaram, e eu quase olhei torto (sim, minha mãe me ensinou que se eu tropeçar na mesa devo pedir desculpas à mesa), mas sou reprimido e não reclamei, enfim, só brigo com quem já conheço. Tá, às vezes não. E aí a cena:

Atendente: Pão de 15 ou 30cm?

Espalhafatosa 1: Quero metade, o de 15cm. Tem que se cuidar, né?

Espalhafatosa 2: Está errado. Não é o de 15cm que é metade, ele já é um lanche inteiro. O de 30cm que é um lanche de porção dupla. Se você fala que come meio, está mandando a mensagem de que está comendo pouco para o cérebro.

Espalhafatosa 1: Ahhhhh, mas eu  vou querer MUITA, mas MUITA salada no meu lanche, tá?

Pronto. Fui tomado por vários complexos ali. Mas destaco o complexo do autodescuido. Talvez no relance de olhar as moças quando entraram, meu inconsciente já tenha captado que essas duas são espalhafatosas e espaçosas. Espalhafatosa significa exagerada, mas também significa soberana, ou ainda quem ostenta algo.

Olha o complexo de inferioridade atuando junto com o complexo materno negativo, este, agindo de maneira velada, como Portillo esclarece láááá no começo: mamis sempre me ensinou a ser mais do que comedido. A sempre pedir muitas, mas muitas desculpas, a passar sempre invisível, pois os outros não podem se incomodar comigo, ou melhor “não pode dar trabalho”, e também a nunca ostentar “não coma essa bala perto dos outros”. Tá, tem princípios de boa educação aí sim, mas fiquei muito…. qual palavra usar? Não dono de mim. Não dono do que é meu. Elas estavam donas da situação e se autocuidando. Não adianta fugir, a vida mostra o que precisamos trabalhar, até mesmo comprando lanche.

Quem me conhece sabe que tenho problemas pra me tornar dono do que é meu, de pegar as rédeas da vida na mão. Luto pra dar sustentabilidade no emagrecimento há pelos menos 16 anos.

Culpa dos outros? Não. A mim coube esse desafio. A mim coube essa história. A mim coube virar a mesa neste contexto. E reflexões sobre isto justo neste momento, de metanóia.

“Na meia idade, quando o homem encontra-se no auge de suas realizações masculinas, ele experimenta com mais intensidade seus complexos e possessões pela anima. Uma depressão, característica desta fase, poderá vir acompanhada de uma voz interna que o acusa de tudo o quanto ele não realizou, aponta seus pontos fracos no que se refere às suas emoções e sentimentos internos” (Portillo, V.G.).

Tá vendo como para emagrecer é preciso mais que só malhar por 3 meses? A sustentabilidade depende diretamente do que mudamos no nosso interior.

Ah, minhas não realizações, emoções, sentimentos e depressão? Já venho falando sobre isso. E muito. Um beijo do (ainda) gordo!

Ps: me expus muito? Desculpa, mas acho que na abordagem da psicologia analítica, a gente acaba sendo o próprio objeto de pesquisa…

Compartilhe:

Esta entrada foi publicada em Músicas, Psicologia, Psicologia Analítica e marcada com a tag , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *