Pulso – precisamos falar de Sylvia Plath

Este post é especial por 3 razões: é sobre Pulso, peça teatral sobre Sylvia Plath; é a consolidação do novo formato do blog; e também é a comemoração de 3 anos do blog.

Pulso é aquela peça que é um espetáculo completo: para os olhos, para o olfato, para os ouvidos e para a alma. Pulso é estrelada por Elisa Volpatto, dirigida por Vanessa Bruno, com preparação corporal de Livia Vilela. É um espetáculo do Vulcão [criação e pesquisa cênica].

Toda a produção esbanja profissionalismo: o som perfeito, a trilha sonora perfeita, a iluminação, cenário, projeções nas paredes, interpretação, tudo, absolutamente tudo nos mostra o carinho do Vulcão pelo trabalho realizado.

Elisa Volpatto em cena de Pulso - fonte: página do Pulso no Facebook

O que nos é contado no espetáculo é o último dia de vida de Sylvia Plath, poetisa e romancista norte-americana, com grande reconhecimento por sua obra. Também é bem sabida a luta de Sylvia contra a depressão, porém em 11 de fevereiro de 1963, a depressão venceu Sylvia, que cometeu suicídio, aos 30 anos.

A peça nos envolve, seja pela atmosfera, seja pelo olhar da atriz, e digo mais: se possível, assista na primeira fila, para sorver tudo o que ali acontece. Eu só sei que a peça me deu vontade de conhecer mais sobre Sylvia, mais sobre sua obra. Mas algo fez acender um alerta dentro de mim.

Enquanto psicólogo junguiano e leitor de James Hillman, eu não poderia negar o significado dessa depressão para Sylvia. Não, eu não li os diários dela – ainda. Mas tem uma série de respostas quero buscar, como por exemplo: por que uma poetisa renomada, fazendo algo que gosta, não via sentido na vida e se matou?

Hillman nos mostra que nem todas as histórias serão lindos contos de fada, de superação, e todas aquelas coisas que esperamos de alguém que não cogita o suicídio. Indico a leitura do livro dele, O código do ser, para ampliar o que proponho como discussão neste post. O que nos amplia o leque de reflexão é: e se a história daquela pessoa precisasse culminar com o suicídio? Talvez nunca venhamos a saber, mas dessa fatalidade podemos discutir vários pontos. Ah, e antes de continuar, quero dizer que assisti Pulso por duas vezes, e ambas em setembro deste ano. Sim, setembro. Setembro amarelo: campanha de conscientização sobre o suicídio.

O primeiro ponto que quero discutir é: depressão não é frescura. E não, depressão não “passa fazendo o que gosta”. Claro que muitas vezes achar o sentido vocacional, o chamado (como coloca Hillman) pode ajudar no processo de melhora dessa depressão. Mas nem sempre isso vai ser suficiente. A depressão assume um significado na vida da pessoa, é um sintoma de uma existência, algo que deve ser olhado com atenção. Cada vivência que temos vai sendo mais um item na bagagem que a gente acumula e carrega no decorrer da vida. E as vivências ruins podem ser devastadoras.

“Mas, ah! Por que a pessoa não deixa isso pra trás? Ela deve esquecer!”. Este é o segundo ponto que quero discutir. Conselhos, conselhos fresquinhos, olha aí, olha aí, freguesia, são os deliciosos conselhos! Todo depressivo estaria milionário se ganhasse um centavo pra cada conselho “dos bão” que recebe. Claro que a intenção do aconselhador é que a pessoa melhore! Mas além de tudo há um problema bioquímico. Mas então é só tomar remédio? Não. É importante um tratamento multiprofissional.

Mas o que tem de mal um conselho? “Se fosse bom, ninguém dava, vendia”. Terapia não é venda de conselhos. Terapia é passar a vida a limpo. É aprender a lidar com as feridas. Um conselho pode colocar a pessoa mais pra baixo ainda; ela vai ser incapaz de seguir o conselho, e vai se sentir fracassada. A depressão pode ter tido início com um fator (relacionamento, trabalho, luto), mas com o passar do tempo, vão ser tantos elementos que o depressivo nem vai lembrar mais do ponto em que a depressão surgiu.

O terceiro e último ponto que quero discutir neste texto é a rede de apoio ao depressivo. Sim, ele precisa suporte. Precisa ser entendido que nem sempre vai estar emocionalmente disponível para sair de casa, para ir ao aniversário dos amigos que tanto gosta, para as confraternizações. E sim, muitas vezes ele vai dar desculpas que soam esfarrapadas. Respeite o limite. E não, não deixe de convidá-lo na próxima vez, mesmo após sucessivas desculpas. Os depressivos se sentem mal por não conseguirem comparecer. Só tenha paciência.

Suicídio e tentativa de suicídio não podem ser classificados como egoísmo. Não é falta de amor. A pessoa busca apenas que a dor que ela sente, essa dor emocional, cesse. Alguns, espiritualistas, buscam uma vida melhor “do lado de lá” – e as religiões dizem que não vai ser bem assim nos casos de suicídio. Mas muitos são como as pessoas que estão no topo de um prédio pegando fogo; elas pulam. Sabem que vão morrer na queda. Mas não suportam o calor e a dor das queimaduras. Elas querem que essa dor acabe e pulam. Compreenda isto, busque ajudar a pessoa, leve-a para uma equipe. Sim, equipe: médico psiquiatra e psicólogo/analista, e outros profissionais que estes indicarem.

O medicamento leva uns dias até começar a fazer efeito; mas a mudança de comportamento, o enfrentamento não vem apenas com o remédio: vem do autoconhecimento, de um trabalho interno, terapêutico. Fique atento para efeitos colaterais dos remédios; muitas vezes é necessária a troca do medicamento ou ajuste da dose. Não se frustre com recaídas. Saiba que o depressivo é muito grato pelo apoio que recebe. Se possível, faça terapia também para se fortalecer no processo de ajudar.

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Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644. Rodrigo também é dramaturgo e ator em formação.

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3 coisas

A Juliana Esgalha, do Blog Miss American Pie, colocou uma lista e eu resolvi fazer também. A setinha no texto também é dela hihihihi.

3 coisas que me dão medo
➸ política brasileira
➸ fanatismo religioso
➸ aquecimento global

3 coisas que me dão preguiça
➸ fazer receitas muito detalhadas ou trabalhosas
➸ sair da cama muito cedo (na verdade, eu acordo cedo, mas não gosto de sair da cama)
➸ fazer a barba

3 coisas que eu gosto
➸ comer
➸ viajar
➸ animais

3 coisas que eu sei fazer
➸ datilografia (ou atualizado: digitação)
➸ o bolo de laranja mais gostoso do mundo
➸ nadar

3 coisas que eu não sei fazer
➸ nado borboleta
➸ artesanato
➸ trocar pneu

3 assuntos preferidos
➸ teatro
➸ Jung
➸ Madonna

3 assuntos que eu não curto discutir
➸ futebol
➸ a opinião alheia quando a pessoa não está aberta à discussão
➸ política com pessoas polarizadas em alguma opinião

3 cheiros preferidos
➸ meu bolo de chocolate
➸ mar
➸ grama cortada

3 cheiros que eu detesto
➸ cigarro
➸ fumaça de queimadas
➸ mofo

3 melhores comidas
➸ macarrão
➸ pizza
➸ chocolate

3 piores comidas
➸ atum
➸ peixes crus
➸ bacalhau

3 piores redes sociais
➸ facebook (e é a que eu mais uso!)
➸ linkedin
➸ hello (eu tinha tanta esperança… decepcionou…)

3 melhores redes sociais
➸ instagram
➸ twitter
➸ finado orkut (amava as comunidades!)

3 melhores bebidas
➸ água
➸ leite
➸ caldo de cana

3 piores bebidas
➸ cerveja
➸ leite puro
➸ suco de tomate

3 coisas que me acalmam
➸ músicas indianas para Ganesha e Shiva
➸ assistir Friends ou Os Normais
➸ brincar com bichos (cães, gatos, tigres – tá, esses só nos sonhos, então assisto vídeos)

3 coisas que levam todo o meu dinheiro
➸ shows da Madonna quando ela vem ao Brasil
➸ teatro
➸ doces (sim, eu tenho um blog sobre transtorno alimentar, este, por sinal)

3 coisas em que eu detesto gastar dinheiro
➸ pedágio de estrada ruim (pista ruim ou superlotada, tipo sistema Anchieta-Imigrantes)
➸ remédio
➸ estacionamento

3 coisas que me estressam
➸ trânsito
➸ motoqueiros que não deixam você mudar de faixa
➸ motoqueiros buzinando

3 coisas que eu vou fazer essa semana
➸ aula no núcleo de dramaturgia
➸ atender
➸ assistir filmes do Brecht

3 coisas que eu fiz na semana passada
➸ o cartão de visitas mais lindo que tive até hoje, com uma mandala
➸ comecei a ler a biografia da Fernanda Montenegro
➸ li “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues

3 coisas que eu quero fazer em breve
➸ escrever sobre as peças “Pulso” e “Vermelho” aqui no blog
➸ assistir alguma montagem de peça(s) do Nelson Rodrigues
➸ assistir novamente Flores Amarelas

3 coisas que eu deveria fazer em breve
➸ terminar de assistir Bates Motel
➸ viajar para o Rio (eu mereço!)
➸ conhecer um templo hindu

3 coisas que eu não quero fazer
➸ me desapegar do celular
➸ falar ao telefone (odeio! prefiro áudio gigante no WhatsApp – sim, de 29 minutos!)
➸ usar fio dental! (prefiro Waterpik)

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Terra de Deitados

No domingo 03/07/16 tive uma experiência sobre a qual posso afirmar: foi sincronicidade. A sincronicidade, conceito presente na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, pode ser entendida como dois ou mais eventos distintos que acontecem e aparentemente não possuem relação entre si, mas depois você percebe que tinham tudo a ver – não é coincidência, existe uma relação de significado.

Pois bem, fui guardar do DVD O poder do mito, de Joseph Campbell, que estava dentro do aparelho, e me deparei com um outro DVD que havia comprado e não assistido: Linda de morrer, com a Glória Pires. Separei pra assistir antes do almoço, já que é um filme curto, e eu tinha um tempo disponível.

Nesse meio tempo, estou trocando áudios com a Elaine Bombicini, e combinamos um café, e o diálogo foi mais ou menos assim:

Elaine: Aproveitamos e comemoramos o seu aniversário no nosso café.
Rodrigo: Então vamos comemorar o seu, que foi antes do meu! Aliás, vamos aproveitar e conversar sobre todos os assuntos pendentes desde outubro do ano passado. Aproveitamos e enterramos os mortos!
Elaine: Isso! Café da Terra! Que ato falho! Não é Café da Terra! É um café para enterrar os mortos, vou procurar se existe algum local chamado Café da Terra.

Nisso, o filme já está rodando e a Talita Rodrigues me convida para assistir ao espetáculo Terra de Deitados. E como tinha que chegar pelo menos 1h antes, para pegar o ingresso, declinei o convite, pois teria pouco tempo para almoçar, e fatalmente chegaria atrasado para a distribuição de ingressos. Ela havia me contado sobre a peça: uma senhora de 100 anos que conta algumas histórias, é uma peça documentário.

A certas tantas do filme, Gloria Pires está no cemitério, tentando um contato pós vida com um médium, que lhe ajudaria em uma missão: tirar de circulação o remédio perigoso para celulite que ela havia desenvolvido. Olhei para esta cena de Glorinha Rutinha Raquel Maria de Fátima Acioly Pires, e pensei na peça. Mais adiante, um personagem do filme aparece com nome e sobrenome: Leo Terra. Imediatamente lembrei do ato falho da Elaine, sobre o Café da Terra.

Terminei de ver o filme e uma inquietação tomou conta de mim: precisava ver a peça. Eis o flyer de divulgação:

Terra de deitados

As informações são: Terra de Deitados – até 17/07/2016, no Cemitério da Vila Mariana (Av. Lacerda Franco, 1967; entrada franca; sexta, sábado e domingo, às 15h30; retirar os ingressos com 1h de antecedência; apenas 25 ingressos por apresentação). Links: Página da Cia. de Teatro Documentário no Facebook e o Blog Teatro Documentário. Simplesmente assistam!

Não vou fazer spoiler da peça, mas posso afirmar: é incrível! Você pode ver a peça para conhecer a história de João e sua família, apenas, e pode também entregar-se para a experiência de uma peça em um cemitério, vivendo-a, de uma maneira aberta e reflexiva. Meus canais de percepção estavam abertos (não, não estou falando de mediunidade, e sim, dos canais de percepção do mundo segundo Carl Jung: pensamento, sentimento, sensação e intuição).

A peça tem atores excelentes, equipe excelente, direção e dramaturgia excelentes. Me proporcionaram uma reflexão, que é difícil traduzir em palavras. Posso até tentar enumerar algumas coisas, mas elas não vão ser justas com a experiência como um todo. Fiquei tocado, não só pela história de João, mas por tudo. Por tudo, inclusive pelo que ia além do texto e da atuação, das questões técnicas. O local, a respiração, o itinerário, a interação, a audição dos sons, o cheiro de flores, as lembranças, a poesia do texto e os símbolos utilizados, especialmente os que representaram a morte dos filhos de João. Por tudo também  que vai além, muito além disso, e que palavras não traduzem.

Foi uma experiência – posso dizer? – transcendental. Na semana seguinte voltei com a Elaine, e a experiência também foi ímpar. Para mim, teatro é isso: é transformador. Saí transformado. Essa é uma palavra que define a peça: transformadora. Não, não tem religião, nem menção à mediunidade. É tudo muito respeitoso, bonito. Mais uma vez me pego tentando atribuir adjetivos, mas a forma como essa transformação está constituída dentro de mim, não encontram palavras.

Mas posso pinçar um item, e falar a respeito. Logo no começo, o personagem João nos mostra o cemitério, e menciona as vozes que querem se fazer ouvir. Contemplando o cemitério, quantas vozes ali não nos dizem mensagens? Um ou outro até podem ouvir as vozes do lado de lá, mas não me refiro a elas. Me refiro à história deixada por cada um. O significado deixado por cada um, durante a vida, com sua existência, e até mesmo, com o significado deixado pela forma pela qual morreu.

Pensando na estrutura da psique, temos o Self/Si-Mesmo, que é a força organizadora, o centro e a totalidade ao mesmo tempo, e pensando que cada self tem uma vocação, um chamado, em busca da vivência de um mito de significado, quantas e quantas pessoas ali não estão, com suas vozes contando histórias? E quantos ali não abriram mão da vocação em detrimento de situações da vida?

Creio que o chamado é uma coisa, e o sonho é outra. Podemos ficar perdidos nos campos dos sonhos, imaginando tudo aquilo que poderíamos fazer e não fizemos e tudo aquilo que podemos fazer, mas não fazemos. Só sonhando, sonhando… O chamado vem e nos faz realizar. Como diria o poeta, com as dores e as delícias de ser quem se é.

Diante disso, tive um enorme respeito pela ancestralidade. Por todos aqueles que ali estão. E que em vida brigaram, pacificaram, causaram dores e foram machucados, alegraram e se alegraram, realizaram ou renunciaram. Cada um com sua própria história. E me vi na possibilidade de conquistar tudo aquilo que eu quero; vi que meu self pode ter tantas coisas para realizar! Enfim, o self é também toda a nossa potencialidade.

Na semana entre a primeira e a segunda vez que assisti à peça, outras sincronicidades aconteceram, algumas não convém mencionar aqui, pois são mais relativas à intimidade de outras pessoas. Mas após ter assistido a segunda vez, com a Elaine, fomos tomar uma sopa em uma padaria e conversamos a respeito. E ela me lembrou de uma frase do Jung: “alguns filhos vivem a vida não vivida ou mal vivida dos pais” (ou algo assim). Sincronicidade sobre um assunto discutido recentemente com uma pessoa!

Bom, mas é claro que um pai, uma mãe ou ambos podem desencadear umefeito desastroso na vida de um filho, como no clichê “ter que seguir a profissão tradicional do papai”. As projeções dos pais sobre os filhos pode ser danosa, com os filhos renunciando à vocação/chamado.

Por outro lado, temos pais que foram sufocados ou que abriram mão dos planos em função de ter que estruturar financeiramente uma família, e que adotam uma postura permissiva com os filhos, soltando-os no mundo numa liberdade sem um pingo de sabedoria, para que fiquem em tentativas e erros constantes, e os filhos ficam perdidos e pueris.

Traços da personalidade e experiências também são nossos antepassados, nossos mortos que nos assombram; experiências assombrosas, isto é, repletas de sombra. Sabendo que nossa sombra é formada por aquilo que não reconhecemos em nós, sejam coisas boas ou ruins, quantas potencialidades estão ali, mortas-vivas, dentro de nós, nos assombrando e perseguindo, sem que possamos dar voz à elas? Não importa o que aconteceu conosco; importa o que faremos do que aconteceu conosco.

Sobre o tema morte, não raro, vemos pensamentos de morte; na semana passada, outra sincronicidade foi o compartilhamento de um texto, por parte de um colega no Facebook: “A diferença entre querer morrer e querer que a dor pare“.  Só pelo título a gente já entende o que o texto quer dizer; tem pessoas que encontram no suicídio uma saída para acabar com a dor; mas vamos pensar no suicídio simbólico. Que parte de nós precisa morrer para conseguirmos seguir adiante? O que é preciso mudar? É disso que falei no parágrafo anterior. E na mesma semana me deparei com a frase do Marcos Quintaes, analista, no Facebook: “para se fazer o luto é necessário matar o morto”.

Enterrar os mortos é importante; mas eles podem sair feito zumbis, nos assombrando, feito clipe do Michael Jackson ou o seriado Walking Dead; mas é necessário também matar simbolicamente os mortos. Tem coisa que vive dentro de nós. Não estou falando de coisas que nos fazem bem, como as lembranças de um ente que se foi, que nutre nossa alma através de uma saudade gostosa; estou falando das coisas assombrosas. Talvez simbolicamente matar e enterrar não signifique socar sepultura abaixo; talvez seja dar voz, entender à que nos serve aquela experiência, comportamento, afeto, trauma, sintoma. Fazer o luto. Integrar aquilo que, mesmo morto, faz parte de nós. Integrar aquilo que mesmo na sombra, rejeitado conscientemente ou inconscientemente, faz parte de nós. Defeitos e qualidades. Sonhos, traumas, complexos e vocações.

A peça Terra de Deitados mostra uma poética (mas não menos dolorosa e reflexiva) exumação do que aconteceu com o personagem João; e nos apresenta também a definição da palavra exumação: “Desenterrar um cadáver para examinar em busca de vestígios de algo como a verdadeira causa da morte, ou a sua verdadeira identidade”. Dar voz aos mortos internos que nos assombram também é buscar a nossa própria identidade. Conhecê-los é tomar consciência de complexos e sombras, ressignificar cicatrizes, empoderamento das fortalezas internas. E nos prepararmos para o aprendizado e para usar toda a nossa potencialidade e resiliência.

Com este post eu enterro uma fase do blog, a que foca apenas transtornos alimentares e obesidade. E enterro também a freqüência semanal de publicações. Como mencionei no post anterior, a nova fase vai incluir muitas reflexões, principalmente com o pano de fundo das peças teatrais que são transformadoras. O nome do blog tem uma grande chance de mudar. E os posts vão ficar mais espaçados, pois sei que serão como receitas que precisam de um tempo para a massa crescer. E espero que quando eles cheguem, assim como agora, que vocês tenham um bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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A fermentação

O que seria da culinária sem um tempo para fermentação? O pão precisa ficar um tempo ali, crescendo, antes de ir pro forno. Pois foi isso que a Elaine Bombicini me disse hoje.

Já tem algumas semanas que não escrevo aqui no blog. Estou preparando também algumas entrevistas, que logo vão para a mesa. Andei refletindo e os textos no blog vão ser assim: após crescer, vão para o forno e depois serão servidos. É fácil falar sobre teorias e temas, mas quando pensamos na abordagem Junguiana, nos deparamos com temas relacionados ao nosso próprio processo. Por isso, se eu estiver num momento de intensa atividade de escrita, com posts semanais, assim será o blog naquele momento; se eu estiver dedicado a elaborar as questões internas que me são pertinentes, vai levar um tempinho a mais – não é assim em restaurantes slow food?

Eu que havia previsto uma série de posts a respeito do chamado do self e sobre sincronicidades, me deparei nos últimos dias com uma sincronicidade com um outro tema, que falarei em breve – prometo! Só não escrevo hoje pois quero ter um tempo adequado para relacionar as fontes bibliográficas corretas, e também as teatrais.

Aliás, ultimamente peças teatrais têm sido frequentemente mencionadas aqui, e creio que isso será a tônica para os tempos vindouros. Peças que nos transformam. Fui assistir ao espetáculo Terra de deitados, e vou falar dele ainda nessa semana. Só aguardem para que eu pesquise e faça as devidas referências, inclusive das redes sociais. Vale muito a pena! É gratuito e só vai até 17/07/2016. Corre! É gratuito.

Bom, é isso! Güenta mais um cadinho que a massa tá terminando de crescer! Logo vai pro forno! E então, bon appétit!

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Oportunidade e foco

Depois do post da semana passada, Metanóia (ou meia-idade), eu gostaria de escrever sobre o livro O código do ser, de James Hillman; mas para isso, quero fazer uma nova leitura do livro, já que o li há mais ou menos cinco anos. Como a semana que passou, as próximas duas me exigirão foco em um determinado projeto, então tive que sacrificar a leitura, para daqui quinze dias.

É que sou todo metódico em alguns aspectos, e queria fazer a sequência Metanóia, O código do ser, Sincronicidade. Já fica um spoiler dos próximos capítulos, que devem ser publicados a partir de 04 de julho.

Fiquei caçando assunto e numa breve conversa com a Elaine Bombicini, do blog Cartographias da Alma, ela me sugeriu que escrevesse sobre foco; sobre quando temos algo que nos acalenta a alma, acabamos não tendo a necessidade de consumir outras coisas.

E isso foi ao encontro de um rascunho de post que eu tinha. Fica o questionamento: o quanto nos dedicamos a buscar algo que nos acalenta a alma (self, na Psicologia Junguiana)? Isso tem a ver com o post da semana passada, onde explico um pouco sobre self também. Quando ouvimos o chamado para nossa vocação, buscamos aquilo que nos nutre, que nos preenche. Sincronicidade ter visto esta imagem hoje, no Facebook:

Madonna - If you cant say Ill die if I dont do it you should not do it. Source: Cosmopolitan.com

A imagem, que originalmente está no site da Cosmopolitan, traz uma frase da cantora Madonna: “Se você não pode dizer ‘eu vou morrer se não fizer isso’, então você não deve fazer”. E é essa a vibe do chamado: algo dentro de você te impulsiona a fazer algo. Algo que se você não fizer, vai morrer – literalmente (somatizando) ou simbolicamente (ficando apático, indiferente com a vida, deprimido – às vezes esquecendo que um dia teve um chamado para a vocação, nem se lembrando dele mais, num distanciamento de si).

E quando encontramos esse algo, nos envolvemos de tal forma, que o corpo pode não sentir mais aquela fome – a fome por algo que não sabemos o que é, e literalizamos com os alimentos. E de repente, literalizamos também nos alimentando de atividades que não nos preenchem, com empregos que não nos nutrem (e nem nos dá a chance de nutrir através do ofício – algo que falei semana passada). A lista de coisas com que nos alimentamos e não nos nutrimos vai muito além do fast-food, frituras e carboidratos simples. Coloque aí casamento infeliz, medos que nos impedem de sair do ostracismo, da procrastinação, do auto-abandono.

O quanto você quer algo? Como disse Waldemar Magaldi no Congresso Junguiano, enquanto houver dentro de mim alguém cuja vontade de não emagrecer for maior que a do outro alguém que quer, não vou conseguir emagrecer. Temos diversos “alguéns” dentro de nós; explico melhor neste post aqui.

Quando estamos dispostos a ouvir o chamado, as oportunidades aparecem. E aí começamos a fazer as escolhas de acordo com o cardápio; com o que vamos querer nos nutrir? Ao que vamos dirigir nosso foco? As sincronicidades surgem (falei sobre elas na semana passada). Claro que vamos encontrar pedras no caminho, e muitas vezes aquela voz dentro da gente diz pra desistir. Podemos até mesmo encontrar um período de grande escuridão. Mas as coisas podem se rearranjar e nos levar de volta ao pique da realização. Algo surge para nutrir e acalentar a alma, fortalecendo o chamado/vocação.

Pode ser que vamos encontrar pessoas que nos digam: “nossa! Você sumiu!”. Sobre isso eu sempre comento uma frase que um conhecido, Cassiano, dizia a quem estranhava os sumiços dele: “não é que eu sumi. Eu me ocupei com outras coisas!”. Desde a época do Orkut não o vi mais. Obviamente ele se ocupou com outras coisas. Mesmo com alguns sumiços, nossa sorte é que as redes sociais nos aproximam de uma certa forma. E nos propicia mais um canal para sincronicidades, reencontros, e descobertas de nutrientes para a alma… Saibamos nos sintonizar com aquilo que nos nutre.

Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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Metanóia (ou meia-idade)

Assistindo ao Congresso Junguiano do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa), que pode ser acessado neste link, com meus mestres queridos e amados, e mais especificamente na palestra da Maria Cristina Mariante Guarnieri (linda! S2), me dei conta que nunca falei sobre metanóia aqui no blog!

Mandala - fonte: Google Imagens

Há exatamente 5 anos eu estava passando por um período doloroso e decidi procurar uma terapeuta nova. Já havia algum tempo que eu não fazia terapia, mas queria alguém com uma nova perspectiva. Eu tinha uma amiga que sempre me contava da terapeuta dela, e eu curtia muito o que a psicóloga falava para ela, então iniciei meu processo com a Janete Angelino, que me apresentou a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Comecei a participar do grupo de estudos dirigido por ela. Comecei a compreender um pouco mais sobre Puer Aeternus (figura mitológica, que pode dar origem a um complexo de mesmo nome; leia mais aqui).

E aquele psicólogo que eu era, que adorava Gestalt-Terapia, foi se encantando mais e mais com Jung. As coisas começaram a tomar outra dimensão, começaram a ficar mais profundas, e (parte) da busca pelo mito de significado começaram a ganhar, de fato, um alicerce mais estruturado. Digo isto porque já comentei aqui que eu sempre busquei compreender o significado existencial, mas foi a partir da psicologia junguiana que as coisas começaram a fazer mais sentido para mim.

Fui então fazer a Especialização em Psicologia Junguiana do IJEP, e fiz um trabalho acadêmico em grupo sobre o Puer, e em seguida fiz uma monografia, com o título: “A sombra na contemporaneidade – Aspectos sombrios do Puer na metanóia em relação ao sucesso profissional”. E tanta água passou por baixo da ponte, que sou muito agradecido por ter tido esse capítulo na minha trajetória, inclusive à análise com a Simone Magaldi e às sincronicidades com as amigas Elaine Bombicini e Talita Rodrigues (juro que comentarei sobre isso noutro momento!).

Na semana passada estava assistindo ao Congresso, e uma das palestras, de Andreza Wurzba, trouxe o assunto da dor; a dor enquanto recado do Self para se pensar na grandeza do significado da nossa vida, da nossa trajetória, para onde gostaríamos de estar indo e para onde de fato estamos indo. Recentemente fiquei internado por conta de uma protrusão lombar, e na internação repensei diversos aspectos da minha vida e comecei a tomar atitudes de mudanças, de retomada de projetos antigos.

Como um testemunho deste ponto de vista junguiano posso dizer: ficar acamado é uma ótima oportunidade para passar a vida à limpo, mentalmente; como propõe James Hillman, contar a nossa história de trás pra frente, encontrando não o por quê das coisas terem acontecido de determinada maneira, mas alcançando o para quê as coisas aconteceram daquela forma; a finalidade, o objetivo – isto significa dar um significado ao que nos acontece, na direção de um crescimento pessoal.

Mas parece que para começar a alcançar essas reflexões íntimas a gente precisa estar mais inclinado às questões fundamentais da vida, e para Jung, esse momento costuma chegar na meia-idade, na metanóia. Para explicar um pouco sobre o assunto, transcrevo um trecho da minha monografia:

“Para Jung, entre os 35 e 40 anos, há o começo de um movimento importante, inicialmente inconsciente, podendo ser mudanças no caráter, traços da infância que retornam, ou ainda, novos interesses aparecem. Pode ocorrer uma preocupação com um significado para a vida, com um senso de utilidade e com questões espirituais, contudo, princípios de ordem moral podem causar endurecimento, podendo beirar o fanatismo e a intolerância.”

Mais adiante escrevi “Hillman então propõe a revisão da vida em busca do caráter, que descreve como o conjunto de traços e qualidades, hábitos e padrões que nos faz diferente dos demais, fazendo parte do nosso processo de diferenciação, isto é, o que ao longo da vida, nos difere dos outros. O caráter é a força viva e orientadora que dá à velhice valor e significado”.

Todo aquele movimento de revisão da vida, que me exigia uma nova postura para não ter mais aquela dor emocional, há 5 anos, no alto dos meus 31 anos, seria então o embrião da metanóia? Mas Jung não nos diz que o início é entre 35 e 40 anos? Pois bem, a M. Cristina Guarnieri, na palestra do Congresso, menciona que não se atrela tanto à idade em si, mas sim ao “momento em que as questões se tornam fundantes”, nas palavras dela. Ufa! Me deu um alívio porque pensava algo semelhante e ela, autoridade no assunto, ao falar sobre isso, me deu a certeza que estava seguindo uma boa lógica de raciocínio.

O si-mesmo, ou self (a nossa psique em totalidade) nos dá recados através das dores emocionais e/ou físicas; nos coloca para pensar e revisar a vida. Eu experimentei as duas possibilidades, num crescente. E ao recorrer à minha monografia para pegar a definição de metanóia, me deparei com o título. Foi a primeira coisa que vi (está no nome do arquivo). E parei pra refletir nos últimos 10 meses. Caraca, já terminei a especialização há 2 anos, e várias outras fichas caíram agora. Ao amadurecimento e crescimento podemos chamar de processo de individuação.

Pois é; vivi um momento importante profissional na época de escrita da monografia, mas 2 anos depois, meu self me manda uma protrusão discal lombar para me deixar de cama para pensar mais um pouquinho, só mais um pouquinho, um pouquinho de nada na vida, e que fez toda a diferença, e me levou a um caminho de auto-realização, algo que me faltava e que eu fico pensando hoje: “puxa, era só ter feito isso, ter tido essa pequena iniciativa, por que demorei tanto?”. A resposta: medo do que os outros iam pensar. Clichê… Mas quando contei que comecei a fazer o curso de teatro, recebi apoio da maior parte das pessoas!

Em psicologia junguiana costumamos refletir no deus mítico que está por trás de um sintoma, através do complexo “[…] cujo cerne é um arquétipo. Não se busca a ampliação mítica, e sim o conteúdo significante. O processo de individuação é natural e autônomo, desde que nos permitamos a transformação (esta permissão advém do ego, através da vontade). Em seu decorrer, com o conhecimento do mito que se vive, o reconhecimento da sombra e da conscientização de nossas projeções sombrias […] Nesta linha de raciocínio, […] para desenvolver a liderança é necessário o autoconhecimento, e a abertura para a transcendência, desenvolvendo a visão de futuro e a intuição, com a força arquetípica do senex, o Velho Sábio, conectar-se com o humano e não humano, com a vida passada, presente e futura, ou seja, através de uma atitude espiritual, de maneira inspiradora, dinamizadora e unificadora, provocar uma reflexão para a tomada de consciência nesta jornada do processo de individuação e cura do complexo do puer. […] A sombra tem um papel criativo e importante na meia idade: ao chegar nesta fase, segundo Brennan e Brewi[1] , a pessoa que está fixada em padrões psicológicos e acomodada, inclusive no trabalho, depara-se com uma crise. A sombra começa a emergir quando as partes inconscientes da personalidade, ignoradas ou rejeitadas pelo ego começam a aparecer.”  (Como indiquei antes, para compreender melhor o complexo do puer, clique aqui, e lá também falo sobre o arquétipo do senex; menciono estes dois arquétipos pois são o foco do meu estudo sobre metanóia. Menciono como característica a liderança, a liderança da própria vida, tomar as rédeas da própria vida).

Na meia-idade vamos nos deparar não só com a beleza poética e filosófica de pensar no sentido da vida; vamos também nos deparar com a sombra, aquela parte nossa que negamos, que deixamos escondidinha debaixo do tapete. Nem sempre a sombra é coisa ruim; podemos esconder nossas qualidades, não reconhecer nossas potencialidades. É preciso pensar na integração dos opostos, como propus aqui.

Na minha monografia enfoquei o lado profissional pois acredito que parte do nosso mito de significado (o motivo útil da nossa existência) vem através do trabalho, da profissão, que devolve ao mundo, seja em qual ofício for, o servir. E também quando nos doamos, quando damos o melhor de nós, o carinho, o amor, por mais simples que seja a tarefa. A arte transmite mensagens; a palavra científica transmite mensagens; a palavra religiosa transmite mensagens. Porém, enquanto sociedade precisamos uns dos outros. Mas é preciso valorizarmos uns aos outros (e a nós próprios também). Costumo dizer que de nada serve o trabalho do neurocirurgião num centro cirúrgico sem o trabalho da equipe de higienização; teríamos muitas infecções. Todos somos importantes. E todos podemos buscar o servir através do nosso trabalho.

Se para Jung na primeira metade da vida buscamos a conquista das coisas materiais, na segunda metade da vida, i.e., a partir da meia-idade, vamos nos atentar mais para o ser do que para o ter. Podemos nos deparar com nosso chamado, nossa vocação, o chamado da alma, o chamado do self, aquilo que precisamos realizar, e se não realizamos, adoecemos fisicamente e/ou emocionalmente. Repare quantos casos de depressão estão associados à perda do sentido da vida, ao distanciamento da vocação. Mas ao usar nossos símbolos internos para a construção, usar nossa riqueza simbólica para nos aproximar do chamado/vocação nos traz uma devoção semelhante à de um sacerdote, preenche nosso existir, nos traz sentido para a vida.

Por fim, como psicólogo, desejo profundamente que possamos começar a refletir sobre isso desde cedo, para que enquanto sociedade possamos construir um mundo melhor, nos habituando ao movimento de recolher nossas projeções sombrias e buscando, cada vez mais, o servir, através da busca da realização das potencialidades do self, do nosso daimon (missão/mito de significado/vocação), utilizando como ferramenta o processo de individuação.

Que os chamados sejam escutados. Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

[1] As autoras do livro “Arquétipos Junguianos”, Anne Brennan e Janice Brewi, são Doutoras em Crescimento Espiritual e Psicológico na Vida Adulta. São fundadoras e diretoras da organização sem fins lucrativos Direções da Meia-Idade Inc.

 

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A dança, de Klauss Vianna

Nos últimos meses conheci na prática, através da Atriz e Preparadora Corporal Livia Vilela, a técnica de Klauss Vianna, e à ela deixo, desde já, meu agradecimento.

Klauss, bailarino, coreógrafo e professor de dança (um dos melhores – se não o melhor – do Brasil), escreveu um livro chamado A dança, de leitura agradável, no qual ele conta, no início, sua biografia até então: o despertar da curiosidade de observar e entender o funcionamento motor do corpo, sua relação com o balé clássico, com a dança contemporânea, sua trajetória de Minas Gerais até São Paulo… E na segunda parte, Klauss discorre sobre muitos aspectos técnicos.

Klauss Vianna - fonte: Google Imagens

O mais interessante é que num livro chamado A dança você encontra várias informações que sobrepõem a dança em si e alcançam a atuação, a interpretação, a relação com o corpo e a individualidade.

Já mencionei em outros posts que eu estava me envolvendo com um outro projeto, que a contento, eu mencionaria. E chegou a hora! Sim, resgatei o projeto ATOR, que foi engavetado em 1996. Como pretendo ter o canal no YouTube do blog, decidi me aperfeiçoar na comunicação. Futuramente vou mencionar as sincronicidades que aconteceram no ano passado, que me deram força e coragem para retomar. E olha que é uma história com muitas, mas MUITAS sincronicidades, aquele conceito descrito por Carl Jung: dois eventos distintos acontecem e aparentemente não possuem relação entre si, mas depois você percebe que tinham tudo a ver – não é coincidência, existe uma relação de significado.

Bem, aqui no blog já expus tanto da minha própria história, e já expliquei como a nossa psique influencia no nosso corpo, tanto em aspectos da postura corporal – e das couraças, como nas somatizações.

O obesidade vem sendo há bastante tempo um dos meus objetos de estudo, bem como a minha trajetória e busca pela resiliência. E entrar para um curso de teatro significaria ter aulas de Expressão Corporal! Num momento em que estou acima do peso e com a coluna em tratamento!

Mas posso dizer? Me joguei nas aulas, estava predisposto a fazer todas as atividades! Apenas umas duas vezes minha coluna chiou e tive que dar um breque. Mas foi muito interessante. Foi um redescobrir. A técnica utilizada foi a de Klauss Vianna, muito bem empregada pela Livia. Alongamentos de maneiras diferentes, conhecimento dos apoios do corpo, conscientização corporal, conhecimento do funcionamento das articulações, e em uma das últimas aulas, a indicação para fazer tratamento com quiropraxista, ao qual dei início e mudou minha vida: depois de 8 meses tomando remédios para coluna, só estou com homeopatia e quiropraxia!

E agora vamos falar um pouco do que li no livro, e como isso se relaciona multidisciplinarmente com a Psicologia.

“[…] ao desequilíbrio emocional corresponde um desequilíbrio postural, provocado por tensões de toda ordem. No entanto, a tensão em si não constitui um problema, pois sem ela não conseguiríamos nos manter em pé ou suportar o peso de nossa estrutura […] Na verdade, o problema está no acúmulo de tensões, nas tensões localizadas que restringem a capacidade de movimento das articulações e dos grupos musculares, obstruindo o fluxo energético que atravessa o corpo” (p. 106).

Sim, Klauss estudou Wilhelm Reich, e aborda um pouco da teoria dele. Mas quando você começa a fazer um trabalho corporal na prática, e vai tomando consciência corporal, você pode revisitar mentalmente algumas épocas da sua vida. Foi o que aconteceu comigo, durante a retomada de um projeto engavetado há 20 anos. A relação com o corpo muda: tomando consciência das articulações você se sente diferente, você começa a fazer coisas de maneira diferente. Diferente daquilo que você vinha fazendo há muitos anos!

Você se senta, levanta, gesticula, observa, se apoia, ocupa o espaço de uma nova forma. Você está mais vivo, as articulações mais flexíveis – e quem é que não precisa lidar com flexibilidade os adventos da vida? Essa flexibilidade física ajuda na flexibilidade psíquica.

“Quando iniciamos um trabalho corporal da maneira como proponho, esteja ele voltado para a dança, o teatro ou qualquer outra atividade, a primeira necessidade que se impõe é a derrubada da parede que separa a sala de aula, onde exercitamos nosso corpo, do mundo exterior, onde vivemos nossa vida cotidiana. Não podemos nos esquecer de que o corpo que queremos exercitar é o mesmo com o qual nos acostumamos a correr, brincar, amar ou sofrer” (p. 110-111).

É ou não é? É! Quantas vezes nos dedicamos a uma atividade física, seja musculação, aula de ginástica, dança, zumba, crossfit, ou o que seja, e nos lesionamos? Achamos que pegamos pesado, exageramos na carga, que estamos “velhos”… Eu sempre busquei uma resposta para as minhas lesões. Já falei no blog que sempre que retomo as atividades, me lesiono. Cheguei a uma resposta recentemente: a progressão no aumento da carga na musculação estava rápida demais e olha que estava fazendo conforme fui orientado. E essa progressão rápida não respeita o que? A história do nosso corpo. Que por anos a fio foi se moldando e criando couraças e enrijecimentos. Como Klauss mencionou, há um acúmulo de tensões que obstruem o movimento. Não sou fisioterapeuta, mas creio que esse acúmulo de tensões possa favorecer uma lesão aqui ou ali…

Estou tentando aqui desenvolver uma ideia que é complexa e que engloba diversos aspectos. 1) Para fazer exercícios é importante respeitar a história do corpo – e por isso seguir treino de famoso do Instagram não dá; 2) Conhecer a história do corpo e saber dos percalços não dá alforria para fugir da atividade física; 3) Mas conhecer a história do corpo facilita na adesão da atividade física: você irá se deparar com movimentos que nunca fez, vai colocar o corpo em uma situação que ele não está acostumado: quem no dia a dia faz movimentos de musculação fora da academia? Ou quem sai correndo mantendo velocidade coordenada com respiração por mais de 10 minutos? Aliás, a corrida se resume a alcançar o ônibus no ponto. Conhecer a história do corpo vai nos ajudar a lidar com as amarras físicas que boicotam a adesão (psicológica) ao exercício físico.

Esse trabalho do qual fui aluno me fez começar a conhecer como me movimento, quais músculos estão envolvidos num movimento, quais articulações mexo; foi um acordar do corpo. Percebi o como me levanto errado, usando os apoios errados, sobrecarregando determinadas regiões. Mas são coisas que não adianta passar a receita: cada um faz de uma forma, cada um vai pesquisar em si como é isso, no decorrer das aulas.

“Quando soltamos nosso corpo – o que não significa despencar -, o movimento que executamos flui livremente, obedecendo a uma forma de organização natural, a uma linguagem gestual que, de algum modo, já constitui parte de nossa dinâmica e está em harmonia com nossa capacidade anatômica e funcional, com nossa capacidade de movimento” (p. 113).

Esse soltar engloba também espaçar as articulações. Como nos deixa bem conhecer a movimentação das articulações! Como é bom espaçar as articulações! Como é bom espaçar os ossos do pé! Massageie seus pés, conheça os ossos através do toque. Massageie espaçando os dedos, os ossos. Como reflexologista digo: massagear os pés ajuda no equilíbrio do corpo!

“Ainda é bom ressaltar que a preservação do espaço corporal atua para garantir uma boa relação de equilíbrio, pois quando se subtrai o espaço corporal, surge a tendência à diminuição da capacidade de equilíbrio e quando se consegue preservar e ampliar esse espaço, o equilíbrio alcança um ponto satisfatório. […] Como homens e seres naturais, deveríamos considerar e procurar respeitar as leis da natureza também inerentes a nós. O fato de sermos indivíduos culturais não elimina essa verdade, apesar de nos afastar cada vez mais dela. O que proponho é a retomada das leis naturais que regem toda existência, exatamente por meio do trabalho consciente” (p. 117-118).

Quando a gente fala de conscientização das questões inconscientes, psicologicamente, muitas vezes deixamos de lado a conscientização das questões inconscientes corporais. A obesidade é só um fator. Mas e as questões posturais? A forma como pisamos, como nos movimentamos. Tudo isso diz muito da nossa história de vida. Vamos considerar também os momentos que vivemos, conhecendo as inflamações, as entorses, as lesões. Muito papo “psi”, né? Mas olha o que diz Klauss:

“O que não podemos esquecer é que as pernas com as quais danço são as mesmas com que ando, corro, caio ou brinco desde criança. Nesse sentido, a experiência de uma vida pode ser traduzida, por exemplo, no simples gesto de erguer um braço ou uma perna” (p. 125).

Mais ainda sobre adesão, nesse contexto: “Não é à toda que certas pessoas são tomadas de grande ansiedade ou acabam abandonando as aulas quando se vêem diante de uma imagem que não corresponde mais ao que elas são, diante de novas possibilidades e potencialidades até então completamente desconhecidas ou esquecidas” (p. 124). “Existe um medo muito grande do autoconhecimento e a maioria das pessoas não resiste ao processo inicial, que sem dúvida requer uma grande dose de vontade e despojamento” (p. 130). Viu? Como disse acima, conhecer a história do corpo não significa carta branca para fugir dos exercícios. Mas isso também não se aplica aos desafios da vida? “Assim como o bambu, o corpo humano tem a propriedade de dobrar-se sem se quebrar – quando respeitamos sua natureza e colocamos em prática suas potencialidades” (p. 131). Pois é: potencialidades físicas E psíquicas. Não nos esqueçamos do Self, que é nossa totalidade, nossa potencialidade máxima enquanto existência. Falo sobre Self, sobre vocação, sobre nossa história (inclusive a do corpo!) e sobre mito de significado neste post aqui, não deixe de ler!

Por fim, quero deixar uma citação do Klauss para todos os que evitam o aquecimento antes das atividades físicas: “Volto, então, à questão do tônus: entre cada articulação existem cápsulas e essas cápsulas contêm um líquido que, conforme o aquecimento, começa a dar elasticidade à musculatura. Daí o valor de um aquecimento bem-feito, profundo e detalhado” (p. 140).

Bom, é isso. O aquecimento serve pro corpo e pra alma. Todas as nossas adversidades que vivemos até agora nos servem como aquecimento para o que vamos dar elasticidade na vida, ou seja a tal da resiliência. Bons exercícios pro corpo e pra alma! Bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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Um perigoso poder chamado desejo – sobre Blanche DuBois

Antes de falar sobre Blanche DuBois, vamos à definição de desejo segundo o Google: “1. aspiração, vontade, querer. 2. expectativa de possuir ou alcançar algo. 3. anelo, pretensão, propósito. 4. ambição, cobiça, sede. 5. instinto que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física. 6. o desejo de satisfazer certos apetites durante a gravidez; pica”. Para quem não sabe – e já está com a mente poluída – pica/picacismo é o transtorno que faz uma pessoa querer comer algo não nutritivo: tijolo, cabelo, etc. Pensei em suprimir o nome do transtorno que consta na definição, mas o termo “mente poluída” que usei pode denunciar a projeção da sombra patológica de muitos, e o que era pra ser um textão de Facebook virou post do blog.

Há mais ou menos três meses fui assistir à peça “Um bonde chamado desejo”, de Tennessee Williams, com a Maria Luisa Mendonça e com o Juliano Cazarré, no Tucarena.

Um bonde chamado desejo, com Maria Luisa Mendonça e Juliano Cazarré. Fonte: instragram oficial de @umbondechamadodesejo

O diretor dessa montagem, Rafael Gomes, idealizou o projeto pois percebeu que a atual geração não havia ainda tido contato com a estória de Blanche DuBois. Eu me incluo nessa geração: não havia visto nenhuma montagem, nem o filme com Vivien Leigh e Marlon Brando (no Brasil, “Uma rua chamada pecado”).

O título, para mim, sugeria uma estória romântica, com conflitos referentes aos desejos sexuais proibidos, e que a partir dali teríamos um casal fofo. Ledo engano. No começo da peça tem algumas piadinhas que dão a impressão de que aquilo vai se tornar algo romântico. Blanche chega para uma temporada no apartamento da irmã, Stella, que mora com o marido Stanley. Blanche, com ar meio “sapeca”, e Stanley provocando-a, questionando os fatos que conta. Blanche, alcoolista e adoradora de Coca-cola, ganha simpatia da plateia, mas Stanley também, pois não cai nas estórias de Blanche. Porém, ele começa a ficar agressivo. Sem querer fazer spoiler, vamos percebendo um Stanley “justiceiro” e uma Blanche com a alma repleta de dor, que talvez tenha tido o primeiro grande machucado emocional diante do motivo do suicídio do marido (que no filme não foi dito, devido a censura da época, mas na peça, sim).

Você já parou pra tentar sentir o que é uma alma dolorida? Provavelmente sim. Já deve ter pensado nas dores da sua alma, inclusive. Já parou pra pensar como cada um de nós lida com a dor da alma? Com cada cicatriz que insiste em não fechar? Como é a forma que cada um busca para fechar cada cicatriz? E nesse momento, quando já estamos cientes de todo o drama, dor e culpa de Blanche, Stanley a estupra. Se estiver lendo este post e a peça da Maria Luísa ainda estiver em cartaz, corra pra assistir. Peça muito premiada, e a Blanche que ela constrói é fabulosa. O final dessa montagem de Rafael Gomes, fiel à peça original (o filme teve uma adaptação no final, por conta da censura), adiciona no instante final a tradução máxima do ferimento da alma humana, com uma beleza poética dolorida e dolorosa. Elenco maravilhoso, com destaque para Maria Luísa, que pra mim, foi a melhor atuação que já vi na vida, e para Juliano, que vestiu Stanley magistralmente.

Pra mim, teatro é isso: a arte conversa com o nosso racional/consciente, nosso irracional/consciente, nosso racional/inconsciente, nosso irracional/inconsciente (me dei licença “poética” para categorizar desta forma, mesmo que para os psicólogos possa ter uma discussão técnica acerca dessa categorização). Digo isso porque saí da peça atônito. Fiquei mudo por quase duas horas, não conseguia falar, estava dispneico. Saí em choro convulsivo da peça. Cogitaram me levar para um pronto-socorro. Fiquei tomado. Não, não vivi situação semelhante à de Blanche. Mas aquilo me doeu. Me doeu porque na minha carreira clínica atendi tantos e tantos casos de violência física e sexual a crianças, adolescentes e adultos, do sexo feminino e masculino, desde a época de estagiário.

O tempo passou e eu ainda não tive muita compreensão do que ocorreu comigo assistindo à peça. Pra mim é uma aula sobre a vida; uma aula de psicologia; uma aula de atuação. Só sei que a peça conversou diretamente com meu consciente e inconsciente.

E aí o universo concatena para que além dessa montagem de “Um bonde chamado desejo”, tenhamos à mesma época, na capital paulista, “Blanche”, com direção geral de Antunes Filho. A peça é toda falada em fonemol, uma linguagem única. Do que conseguimos depurar estão os nomes próprios, a Coca-cola, um “merci” aqui, um “thank you” ali, um “happy birthday” acolá. A intenção, segundo a própria explicação dada antes da peça é que cada um construa a própria dramaturgia, o próprio entendimento da peça. Para os psicólogos isso funciona à moda do Teste de Apercepção Temática – TAT, como uma grande prancha pronta para receber projeções psicológicas. A peça, com ingressos esgotados, está no SESC Consolação. Quem quiser tentar assistir pode chegar umas 2 horas antes e colocar o nome numa lista, diretamente no 7º andar, no CPT (Centro de Pesquisas Teatrais), e caso alguém não compareça, você consegue assistir – e de graça. Foi assim que fiz: o primeiro da fila de espera, que na sexta-feira 27/05, contava com mais de 25 pessoas na espera. Valeu a pena a espera.

Com todos acomodados, recebemos o programa da peça e um mini-roteiro, para nos localizarmos na estória.

Na Cena 8, Stanley tranca a porta da casa, ameça agressões, acua e assusta Blanche. Abaixo, foto feita pela equipe da peça, para divulgação, do momento em que Blanche telefona pedindo socorro:

Marcos de Andrade interpreta Blanche. Foto: divulgação.

Esta é a Blanche interpretada pelo ator Marcos de Andrade. Olhe bem para o rosto, para a posição corporal, para a situação. Qual a sua reação? Como você está por dentro? Imagine como você reagiria a esta cena, no começo de maio de 2016, antes da notícia de que uma garota foi estuprada por 30 homens (sim, eu sei que infelizmente existem outros casos, mas nesta semana temos um agravante gravitando as conversas). E pense na sua reação hoje, ou melhor, como se tivesse assistido a essa peça na semana em que essa notícia foi divulgada massivamente em todos os noticiários e redes sociais. Acredito que sua reação possa ter sido semelhante à minha, empatia com a dor e angústia da personagem. Choro, ódio, raiva, dor.

Ok. E na plateia? Algumas pessoas rindo. Rindo a cada agressão, a cada ameaça. Rindo de uma mulher acuada, se escondendo debaixo de uma mesa! De uma mulher que tenta abrir a porta para fugir e não consegue. A peça é com luz de ensaio, ou seja, tudo claro, luz branca incandescente, no palco e na plateia. Foi possível observar que as pessoas que riram eram gays, lésbicas e heterossexuais. Gays e lésbicas, que inclusive sofrem perseguições.

Nesse momento, confesso: desejei que a Terra explodisse. Que a humanidade acabasse. “Cara, você está na semana em que um estupro foi filmado e divulgado! E mesmo assim, você não consegue se colocar na pele de outra pessoa? Que prazer sádico é esse de se deleitar com a perseguição a uma pessoa frágil? Quanta projeção de sombra patológica!”. Maneira semelhante como quando querem culpar as vítimas de estupro, seja porque ela flertou, teve desejo sexual e/ou usou álcool ou drogas, como se isso fosse a permissão justificada para a brutalidade criminosa do estupro.

Antes da peça, como disse, nos é pedido que leiamos o mini-roteiro. A cena 8, diz: “Algumas horas mais tarde, na mesma noite – Stanley surpreende Blanche ao chegar do hospital sem Stella. Explica que a mulher ficará lá nos preparativos do parto: os dois passarão então sozinhos, esta noite, em casa”. Por mais que você não saiba que a peça tenha um estupro e suponha que vá surgir algo romântico por conta do que está escrito vagamente na sinopse da cena, desde o início há o claro comportamento agressivo de Stanley – quebra de objetos e agressão física à esposa; a cena do estupro se desenrola claramente, anunciando que algo ruim está para acontecer. Não é preciso entender as falas do fonemol. Blanche não está gostando, está com muito medo, como nos mostra a imagem acima. É frágil. É vítima. Sempre deu indícios de sua vulnerabilidade física, emocional e social.

Durante a peça, Blanche dá indícios de que – na nomenclatura da época – sofre dos nervos (talvez fique menos evidente na versão de Antunes Filho) e após a cena do estupro, notamos um colapso emocional de Blanche, o que talvez hoje possamos classificar como dissociação, numa mistura de fantasia para enfrentar a realidade com delírio. Como psicólogo digo: ela entrou em erupção emocional, mas a Stanley quis que ela parecesse louca, errada e culpada (comportamento típico da cultura do estupro, tanto do estuprador como os defensores da “moral e dos bons costumes”).

Durante a cena do estupro, a plateia ficou em silêncio e, preferi acreditar, repensou no próprio comportamento de rir da desgraça alheia. Cheguei a acreditar que para essas pessoas a arte tenha servido como um espelho para a projeção da sombra patológica, mas isso não durou muito: quando chega a equipe médica para levar Blanche para o hospício, algumas pessoas ainda riram; riram de uma mulher acuada no banheiro e medicada. Ó céus. Citei Renato Russo outro dia e repito “nos deram espelhos e vimos um mundo doente”.

Digo tudo isso porque quantas pessoas (crianças, adolescentes, adultos, do sexo feminino, masculino, cis ou trans – e a montagem de Antunes Filho nos apresenta uma Blanche travesti) não sofreram essa violência? E que essa violência lhes causou danos irreparáveis e imensuráveis à alma e ao corpo? A pessoa que sofreu violência sexual pode desencadear uma série de transtornos psicológicos, além de questões psicossomáticas. Coloque aí depressão, ansiedade generalizada, confusão com orientação sexual, confusão com identidade de gênero, transtornos alimentares, ideação suicida, tentativa de suicídio, suicídio, imagem corporal distorcida, dificuldades de relacionamento, dificuldades sexuais, sexualidade exacerbada, embotamento emocional e outras formas que a psique encontra pra tentar lidar com o trauma. Também: gravidez e doenças sexualmente transmissíveis.

Importante saber que a vítima de violência sexual pode – e deve – ser atendida em serviço médico o quanto antes, para que possa tomar as medicações necessárias, para evitar a gravidez e a infecção pelo HIV, com a contracepção de emergência (pílula do dia seguinte) e a Profilaxia Pós-Exposição Sexual (PEP), respectivamente. O SUS faz este atendimento gratuitamente. O prazo são 72h após a violência, mas o quanto antes, melhor. E existem políticos que querem dificultar o atendimento médico, achando inclusive que deve ser feito primeiro o boletim de ocorrência para “comprovar”. Não, primeiro deve ser o atendimento em saúde. Não é preciso comprovar violência sexual para receber o atendimento de saúde, que fique claro.

Para fazer um mundo melhor, é preciso olhar para nós mesmos, que é quem está mais perto. Vamos entender que o poder enquanto mecanismo acontece na violência sexual, mas também no trabalho, na vida familiar e conjugal, na opinião contrária que não aceito sobre política no Facebook. Como diria Jung, onde há amor, não há poder. Onde há poder, não há amor.

Jung: Onde o amor impera, não há desejo de poder, e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro. Fonte: Google Imagens

Uma amiga, Iaga Véssela, escreveu no Facebook, nos dando mais um complemento à mudança interna: “Tudo tem seu valor. E olhar para si nem sempre é a melhor forma de evoluirmos… Olhar para o próximo, e com ele se preocupar, talvez seja o melhor ponto de partida para nos reformarmos intimamente… Nos preocuparmos com a felicidade do outro, nos trará felicidade por consequência… quando pararmos de olhar para nós mesmos, encontraremos o equilíbrio com mais serenidade…”. E é verdade. Amor é doação. É empatia, se colocar no lugar do outro. Não é egoísta. Não é egocêntrico. Não é nem o meu nem o seu umbigo. Amor é doação, entrega. E isso nos transforma intimamente.

Mesmo tendo escrito algumas poucas palavras sobre estupro neste post, deixo os próximos parágrafos para que você crie uma reflexão/debate sobre o assunto com conhecidos.

Tennessee Williams, autor da peça, disse “o grande tema em toda minha obra é o impacto destrutivo da sociedade no indivíduo sensível e inconformado (inadaptável)”; “o estupro de Blanche por Stanley é o ato mais vital de toda a peça, sem o qual a peça perderia todo o seu sentido, que é a violação do sublime pelas forças selvagens e brutais da sociedade moderna”. A peça é de 1947. Estamos em 2016, e aparentemente “politizados no Facebook”, mas fazendo uso desenfreado do poder, e alguns usam do poder incutido na cultura do estupro para justificar a ação do estuprador. E essa sociedade que é retratada em 1947 permanece em 2016.

As frases acima do T. Williams foram retiradas do programa da peça “Blanche”, assim como o trecho a seguir, de Virginie Despentes: “o estupro é um programa político preciso: esqueleto de um [sistema] opressor, é a representação crua e direta do exercício do poder. Designa um dominador e organiza as leis do jogo para que possa exercer seu poder sem restrições. Roubar, arrancar, extorquir, impor, se assegurar de que sua vontade se exerça sem entraves e de que possa gozar de sua brutalidade sem que a outra parte manifeste resistência. O gozo da anulação do outro e da sua palavra, da sua vontade, da sua integridade. O estupro é a guerra civil, a organização política através da qual um sexo declara ao outro: tenho todos os direitos sobre você e te forço a se sentir inferior, culpada e degradada”.

“Há certas coisas imperdoáveis. Crueldade deliberada, por exemplo” (Blanche DuBois). Bem, procure a definição de deliberado e conclua sobre a cultura do estupro. Luto.


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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Aquele abraço…

Vamos lá, cantando… “Aquele abraço”… Ontem, 22 de maio, foi o dia do abraço. E eu quero compartilhar um texto bem bacana que recebi da Elaine Bombicini que fala sobre a gordura. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Vou voltar uma semana. Estava conversando com uma amiga e o assunto era a maneira como nos fortalecemos emocionalmente. E eu falei que às vezes a gente vai buscando meios de se fortalecer e que fica igual quando alguém usa hidrogel. Sabe quando a pessoa usa hidrogel pra fins estéticos, para parecer musculosa? E que com o passar do tempo aquilo deforma e fica esquisito? Então. Emocionalmente corremos esse risco. Podemos nos apegar a algo que nos fortaleça, mas na verdade, é só aparência. Igual ao hidrogel: parece forte, mas na verdade, geralmente, tem muita flacidez.

Isso foi no domingo passado. Na segunda o post “Economia de Percurso?” foi publicado, a Elaine fez um comentário interessante e me mandou um texto em inbox, que transcrevo abaixo.

“GORDURA: A gordura é o casulo que a pessoa cria, inconscientemente, para se proteger e se esconder dos problemas externos. Pessoas muito sensíveis, que se deixam magoar com facilidade, buscam se proteger atrás da gordura, que representa a maciez de um abraço. Muitas vezes, a gordura é uma forma convenientemente usada para se conseguirem certos benefícios, como atrair a compaixão de outras pessoas, deixar de trabalhar naquilo que não gosta, escapar de certas obrigações que limitam sua liberdade e até mesmo testar o amor e a fidelidade do cônjuge ou dos pais. Mais uma vez vemos que o perigo está em nossa mente, não no mundo em que vivemos, e nem nos alimentos que comemos. Faça um ‘regime’ nos seus pensamentos e limpe toda essa amargura. Viva tranquilamente e sem se sentir ameaçado. Ame profundamente a todos e você perceberá que, como resposta, receberá mais amor dos outros. Saia já desse casulo e participe ativamente do mundo, de peito aberto e acreditando que você está sendo protegido pelas mãos do Grande Pai. Pare de guardar mágoas e ressentimentos. Apenas aja com docilidade e poder e não deixe que as diferenças de vida e opiniões o aflijam. Atenção: quanto mais você ‘engolir’ e guardar mágoas, mais seu corpo engordará.” (Ronaldo Cardim – massoterapeuta).

Então comemorando o dia do abraço, compartilho o texto do Ronaldo que fala da gordura como abraço metafórico. Esse pequeno texto, de um autor que eu não conhecia, sintetiza muito do que ocorre nos mecanismos inconscientes psicossomáticos da obesidade. Vamos então começar a lapidar algumas coisas.

Homem se esculpindo - fonte: Google Imagens

Uma das coisas que ocorre nos transtornos alimentares é a tensão psíquica. E a psique encontra diversas formas de válvula de escape para lidar com essa tensão. Ao mesmo tempo que o transtorno alimentar possa ter sido desencadeado por uma tensão psíquica anterior, ele continua gerando mais tensão assim que foi instalado. E é disso que o texto do Ronaldo trata. E o meu post da semana passada também.

Não preciso nem dizer que me identifiquei totalmente com o texto, né? Recentemente venho abordando no blog as questões pessoais profissionais, passando a limpo algumas coisas importantes. Impressionante como voltar no tempo tem aquela sensação de “hoje sou quem sou em função do que vivi, dos erros e acertos”, mas também pra mim tem a sensação de “era tão simples, por que não fiz antes?”. Ainda estou preparando o texto que vou falar mais sobre isso, que provavelmente levará o título de Sincronicidade.

A obesidade pra mim funcionou como uma fuga de tudo aquilo que eu poderia realizar. Desde aquele menino de 16, 17 anos que estava com leve sobrepeso de 3 a 4kg, até o trintão com 40kg acima do peso, muita água passou por baixo da ponte. Muita sanfona no corpo!

A obesidade é o meu calcanhar de Aquiles. Meu ponto fraco. É o complexo que perpassa por vários outros, e é aquele que tenho que ser mais atencioso. Olha que foi jogo duro decidir entre a obesidade e o ciúmes, mas o ciúmes já foi dissolvido em grande parte.

Aqui no blog eu abordo a obesidade e os transtornos alimentares como foco principal, mas não quer dizer que a vida gira em torno apenas da obesidade. Procuro sempre colocar o mecanismo, o enredo, e o cenário muda de acordo com cada versão da peça. Pra mim, a obesidade é o complexo que constela diante de algumas dificuldades emocionais. Para outros, é a coluna; a enxaqueca; a hipertensão; a diabetes; etc.

Esse é o meu convite para reflexão para o autoconhecimento. Como é a sua válvula de escape? Já parou pra pensar? Sinta-se abraçado(a) e bon appétit!


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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Economia de percurso?

Em psicologia junguiana dizemos que persona é a máscara que usamos para nos relacionar com os outros. Ela é útil, sim, e digamos, necessária. Ora somos filhos, ora pais, ora profissionais, etc. Mas o que ela tem a ver com a economia de percurso de vida?

Embora eu acredite que estamos sim buscando constantemente um significado para a vida – compreender o mito de significado – inicio com uma citação de Joseph Campbell, que abre o livro O poder do mito:

“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos”.

Com essa citação, que embora contradiga no início dela que estamos buscando um sentido para a vida, acredito que podemos integrar ambas as visões: buscar um sentido para a vida e também a experiência de estarmos vivos. O que coloco no texto como economia de percurso se refere tanto à experiência de estar vivo como o aprendizado até chegar no sentido da vida.

Frase - "Todos nós precisamos enfrentar perdas, renúncias, fracassos e desafios para que a vida faça sentido" - Fonte: Facebook

Você já se perguntou se em algum momento da sua vida você perdeu tempo, batendo numa tecla ou investindo em algo? Provavelmente já. E o caldo entorna se você desde o início sabia que aquilo ali não ia render, que ia ser um atraso de vida.

É como se nessa máscara que usamos, a persona, fôssemos colocando badulaques e lantejoulas, aplicando camadas e mais camadas de tinta, tentando encorpar algo, e que na realidade não nos representa de maneira alguma. E a máscara vai ficar tão pesada que uma hora vai cair no dedão do pé e machucar feio.

Posso falar por mim que a segurança em seguir um caminho ou outro me fez querer fortalecer tanto a persona em um ou outro aspecto, que a persona deixou de servir, e se tornou um invólucro folgado em alguns pontos, apertado em outros, mas que causou um grande incômodo e – por que não – uma série de machucados.

Me refiro a situações tão antigas, mas tão presentes. Situações que já passaram, já finalizaram, mas que deixaram uma cicatriz que teima em não cicatrizar por completo. Eu sei que o ideal é a busca pela resiliência e superação. E o intuito não é ficar escrevendo mimimis. É fazer as pazes com o nosso eu lá do passado, bem, no caso, com o meu eu e cada qual com seu cada eu.

Caindo no lugar comum “se você pudesse dizer algo ao seu eu jovem, que conselho daria?”, eu diria pra ter mais segurança. Pra confiar mais naquilo que quer. Porque quando a gente não confia no que quer, fica dependente do que o outro vai dizer pra gente. Eu tive uma pessoa importante na minha vida que me ensinou muito, mas que também me levou a um processo de auto-des-conhecimento gigante. Julgava a pessoa ser mais experiente, inteligente e detentora de uma sabedoria que o jovem de 17, 18 anos que eu era, não tinha.

Eu tinha certeza que eu sentia X, ou que pensava Y. Mas a pessoa me convencia que eu estava errado e que tinham processos inconscientes e que eu sentia Z e pensava K, que eu estava em auto-engano. A inexperiência e a confiança me levaram a acreditar que eu devia seguir alguns caminhos, ditos e intuídos pela pessoa, os mesmos que o dela, pois eram caminhos bonitos e nobres – pelo menos eu achava.

Quando comecei a amadurecer e a perceber que aquele ciclo já não me pertencia mais, fui seguir outro rumo. E ao invés de corrigir a rota como um todo, fui colando mais lantejoulas naquela máscara que eu achava que seria a minha. Fui colando mais tiras de papel machê, sabe como é? Em cima da lantejoula. Foi ficando um remendo tão medonho – tão medonho quanto esta metáfora que estou tentando escrever aqui, mas que acho que traduz o que aconteceu.

Algumas coisas foram se encaixando, outras nem tanto, e aí chega a crise existencial. Que porra (existe outra palavra?) eu fiz da minha vida?! kkkk Um adoecimento aqui, outro ali, um quilo aqui, 22 ali, e a gente começa a pensar no sentido maior da nossa vida, na nossa missão, no nosso significado no mundo.

Sabe o que é mais engraçado? Lá pelos meus 20, 22 anos, época que comecei a refletir sobre aquela sandice e ver que aquilo ali não estava bom, o que eu mais procurava entender era sobre missão na vida. Sobre o sentido da minha vida. Fui lendo o material que eu tinha em mãos, recorrendo à filosofia de vida que eu acreditava na época, e sempre triste por estar colando camadas na máscara, pra tentar fortalecê-la, e triste por deixar de lado algo que eu sempre quis – mas que me foi dito que não era nobre, ou não era importante.

A porcaria é que quando a gente não tem a tal da segurança, a gente acredita nos malucos que aparecem na nossa vida. E acreditamos neles porque gostamos deles. São pessoas legais, não são vilões. Apenas estão vivendo como acreditam, e a gente compra bilhete pra mesma sessão. E aí nos tornamos os vilões da gente mesmo. Mas bola pra cima, que não é autoflagelo isso aqui não.

O tempo passa, e você se torna cônscio desse processo, e luta contra. Só que algo tão típico da personalidade não muda de uma hora pra outra. Você só contorna a situação. E é claro que vai cair nos mesmos erros.

Não, não estou sendo pessimista. Na vida é preciso lidar com os aspectos negativos também. E é preciso aprender a lidar com a nossa sombra, no sentido junguiano da palavra (leia um pouco mais aqui e aqui).

Só estou escrevendo o que eu gostaria de ter dito pra mim há muito tempo, para ter a tal economia de percurso, pois é como bem disse o mestre Carl Jung, “aqueles que não aprendem nada sobre os fatos desagradáveis de suas vidas, forçam a consciência cósmica que os reproduza tantas vezes quanto seja necessário, para aprender o que ensina o drama do que aconteceu. O que negas te submete. O que aceitas te transforma”.

É claro que nos caminhos andados conhecemos muitas pessoas queridas – e que se não tivéssemos errado a rota, provavelmente não teríamos conhecido. Essa é a beleza. Uma beleza sublimada, porque na verdade é dolorido… Mas essas pessoas queridas nos acolhem e nos ajudam a ver as coisas de uma outra maneira. Existem pessoas que fazem parte de um processo de sincronicidade, que foi descrito por Carl Jung como sendo a relação entre dois eventos, que aparentemente não tem nada a ver, mas que depois você descobre que fez a diferença total. Aí vem o crescimento.

Tem aquela frase: “faria tudo outra vez”. Honestamente, eu acho que não faria tudo outra vez, olhando pra minha história. Se fizesse tudo igualzinho seria masoquismo e indicaria a falta de aprendizado. Foram erros que me custaram. Então preferi assumir o que quero, buscando esse algo para aí sim, dizer “faria tudo outra vez”. E não é que esse algo estava ali, o tempo todo? Quando a gente assume isso, se pergunta “por que demorei tanto?!”. Talvez a tal economia de percurso não exista, vamos aprendendo com os erros, mas talvez daí comece a surgir o embrião da sabedoria que vamos gestando no decorrer da vida.

Frase - "a vida é curta demais pra viver o mesmo dia duas vezes" - Fonte: Facebook

Ah! E o que isso tudo tem a ver com o blog? É que colar tanto papel machê nessa máscara, pode simbolizar a obesidade usada como mecanismo inconsciente para se preencher o vazio sentido pela não realização de algo que nos é desejado, e/ou a busca por um fortalecimento simbólico através do alimento real. É a tentativa de fortalecer aquilo que sabemos que somos em essência quando ficamos refém do que o outro nos diz.

Pegando carona na música Índios, “nos deram espelhos e vimos um mundo doente”: não, não devemos incorporar a maluquice alheia. Já basta a nossa luta interna entre insegurança e segurança. Não importa se teremos 20 anos ou apenas 1 dia pela frente. Importa dar ouvidos à voz da nossa alma. E assumir que ela quer algo que certamente nos fará viver o nosso mito de significado.

Por enquanto é isso, “vamos viver tudo o que há pra viver”, como diria Lulu, e bon appétit!

PS: Após ter escrito este post e tê-lo agendado para publicação, recebi uma mensagem linda da Elaine Bombicini, minha amiga, também terapeuta. E claro, vou compartilhar aqui, porque sintetiza uma série de sincronicidades que a Elaine trouxe pra minha vida nos últimos meses. E sintetiza também o que sinto nessa nova jornada que venho construindo, e que a contento vou abrir aqui no blog. Vamos à mensagem, que transcrevo tal e qual:

História do bonequinho de Sal – uma história para simbolizar

Certa vez, na distante terra dos bonecos, nasceu um lindo bonequinho, mas, que tinha uma diferença com relação aos outros de sua espécie. Ele, por obra divina não nasceu de algodão ou de pano como os outros bonequinhos. Ele era feito de sal. Era único em sua terra. Quando criança sempre perguntava a seus pais por que sou de sal? Papai e mamãe bonecos não sabiam responder à pergunta. E assim, com esta dúvida, o bonequinho cresceu. Certo dia, quando jovem, decidiu sair pelo mundo, a fim de encontrar a resposta para sua dúvida. Começou a andar… A cada boneco que encontrava fazia a pergunta; Você sabe por que eu sou feito de sal? Por que eu nasci de sal? Porém a resposta sempre era negativa aos seus anseios e duvidas. Continuou a andar. Andar e andar. Andou por muitos anos. Por toda a terra. E fez as mesmas perguntas; Você sabe por que eu sou feito de sal? Por que eu nasci de sal? Não obteve a resposta. Um dia, deparou-se com o inesperado. Estava diante do MAR. Não havia mais terra para percorrer e nem bonecos a quem questionar. Entristecido em frente ao mar, pensou; As terras acabaram não consegui obter minha resposta. Vou retornar para minha casa. Ao dar meia volta, neste instante ouviu uma voz forte e poderosa que disse; BONEQUINHO. BONEQUINHO. O bonequinho, um tanto assustado, perguntou; Quem está falando? A voz respondeu; SOU EU BONEQUINHO. O MAR. O que você deseja poderoso mar? APROXIME-SE. APROXIME-SE BONEQUINHO. O bonequinho aproximou-se e uma pequena onda veio e dissolveu seu pé. Assustado o bonequinho desejou fugir. Mas o MAR insistiu; APROXIME-SE BONEQUINHO. NÃO TEMAS. ENTRE AQUI. ENTRE AQUI. O bonequinho teve coragem e começou a entrar no mar. A cada centímetro mais o seu corpo Sumia. Sumia. Sumia. Antes, porém, de sumir por completo, o bonequinho, satisfeito disse:

AGORA SEI QUEM SOU. EU SOU O MAR.

Para saber:

BONEQUINHO DE SAL nos foi contada – para a turma de Educação Especial da UFSM – pelo Professor Jorge Luiz da Cunha no primeiro dia de sua disciplina “História da Educação”. O ano era 1998 – 1999. Já perdi a conta de quantas vezes eu já a contei em Congressos e Palestras. Apesar dos anos BONEQUINHO DE SAL sempre esteve e ainda está comigo! Alex Garcia – Pessoa Surdocega.


Para informações sobre atendimento psicológico individual ou em grupo, entre em contato pelo e-mail rodrigo@namesacomrodrigo.com.br ou pela página no Facebook Na mesa com Rodrigo. Rodrigo César Casemiro, Psicólogo especialista em Psicologia Junguiana e Psicologia Hospitalar, CRP 06/65644.

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